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Seriados dublados na TV aberta: sim, por favor!

Quando a Rede Record anunciou que iria exibir “Breaking Bad” no Brasil, aproveitando o bom momento do seriado americano depois de sua elogiada conclusão, minha reação inicial não podia ser outra: comemorei a tentativa da emissora de incorporar esse tipo de conteúdo à grade de programação. Seguindo o exemplo da Band, que já havia trazido “The Walking Dead” para a TV aberta brasileira, a Record desenvolveu uma campanha de divulgação bastante controversa (vide https://www.youtube.com/watch?v=N7U64pNRB8g), mas que deixava evidente suas expectativas com “A química do mal”. Preciso dizer que minha comemoração se tornou frustração dentro de pouco tempo: o rebuliço das fan pages no Facebook comentando negativamente a novidade me deixou desesperançoso. O problema? Aparentemente a dublagem, mas nem era preciso se esforçar para encontrar gente reclamando da popularização da série que se seguiria à transmissão na Record.

Aí vem a Band, OUTRA VEZ, anunciar conteúdo que, em tese, deveria agradar ao fã brasileiro que consome esse tipo de produto (na maioria dos casos ilegalmente). “Uma história de horror americana”, anunciada em dezembro no canal, aparentemente ofendeu grande parte dos fiéis seguidores da série já durante a exibição de sua chamada.

Tenho bastante dificuldade para tentar entender a lógica de quem critica a exibição de séries estrangeiras na TV aberta, principalmente pela dublagem (mas com certeza não só por isso). É uma atitude bastante elitista e egoísta, com um fundo de preconceito que chega a gritar. É incoerente, inclusive, essa postura de se sentir (de alguma maneira) diferenciado por assistir a um produto que pouco tem de exclusivo. E, bem verdade, o que mais transparece disso tudo é a incoerência dos comentários desnecessariamente publicados pela rede. Primeiro que:

 

NÚMERO UM E ANTES DE MAIS NADA: você não está sendo obrigado a assistir. Quer ver na Netflix (ou no torrent…), sinta-se à vontade. Não vai mudar em absolutamente nada sua experiência.

NÚMERO UM E MEIO: em tese, assistir na TV aberta, sabendo que a emissora interessada na série teve de pagar pelos direitos de exibição, é deveras melhor que prejudicar a indústria de entretenimento baixando o arquivo ilegal via internet.

NÚMERO DOIS: você não é especial. Ponto. Trocentas pessoas já assistem lá fora, outras trocentas vão ver aqui. E isso é bom! Vale lembrar: o que mantém os seriados no ar é o dinheiro do consumidor, sua audiência. Mais gente, melhor.

NÚMERO TRÊS: a dublagem não é aquilo tudo? Realmente, não é. Mas o trabalho de ADAPTAÇÃO (porque traduzir é o mais fácil, obviamente) não só para um novo idioma, mas uma nova cultura, exige DEMAIS das equipes responsáveis pela tarefa. Temos dubladores excelentes, temos dublagens excelentes. Também temos as ruins. Relativiza um pouco esse olhar.

NÚMERO QUATRO: tem medo que o seriado se popularize e, de repente, ganhe novos significados depois dessa reapropriação? Acha que as pessoas não são capazes de apreciar da maneira que você aprecia? Ah, por favor. O mundo é maior que o teu umbigo.

NÚMERO CINCO: aprende a incentivar. Já basta de gente reclamando de simplesmente tudo. No Brasil geralmente começa pela política, mas acaba refletindo, inclusive, na TV e no cinema, por exemplo. “Filme brasileiro é ruim”, “série dublada é uma droga”. Já deu. O que esse tipo de comentário acrescenta? Tá insatisfeito? Ajuda a construir problematizando o assunto. Comentários despropositados pode guardar pra ti.

 

O Omelete ajuda:

Nesse vídeo o pessoal do Omelete comenta, com bastante razão, a postura do fã que quer se sentir exclusivo e especial. Falando mais ou menos sobre o que foi dito até aqui, eles reforçam a ideia de que já chega de mimimi. Reclama do Faustão e também acha ruim que as emissoras se dão conta de que é preciso inovar? Onde fica a coerência nessa história?

Engraçado que a HBO, que faz uma baita transmissão de “Game of Thrones” todo domingo, não é alvo do mesmo tipo de comentário. Obviamente porque o público é reduzido e as condições de exibição (SAP e afins) dão mais possibilidades ao espectador. Mas, como brincam no vídeo, espera “GoT” virar “Jogo das Cadeiras” na TV do Baú. Minha felicidade é encontrar pessoas que percebem os problemas da crítica pela crítica. Pessoas que reconhecem os problemas, mas que incentivam pela qualidade. Sem grande sermão: é ÓTIMO que exista uma cultura de interação por trás dos seriados que motiva esse tipo de “discussão”. Mas é preciso abandonar as aspas. É preciso ir além. O fã tem sido egoísta e isso é injustificável. Não falo em aceitar tudo da maneira que vier, falo em ajudar a construir novas soluções superando o que surgir de problemático no caminho. Pra ir direto ao ponto: a TV só se sustenta da maneira que está porque NÓS deixamos. Que tal apoiar e incentivar a mudança? Novos programas, novos formatos, novas ideias merecem atenção. Anda faltando consciência até na hora de ver televisão.

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