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Torcedor não entende nada de futebol

O futebol brasileiro é um fenômeno impossível de ser interpretado pela lógica. Racionalidade não faz parte do jogo. A base de tudo é a identificação. O torcedor identifica-se em seus ídolos. O amor ao clube é incondicional. Só essa passionalidade explica alguns absurdos que existem no comportamento da torcida brasileira.

No Rio Grande do Sul, a bipolarização do futebol através da loucura da rivalidade Gre-Nal é a síntese de como o futebol tem essa característica. Abaixo, alguns exemplos: 

Falcão e Renato são adorados mais por serem ídolos do que pela qualidade como treinador

Internacional 

O técnico Celso Roth foi campeão da Libertadores da América de 2010 pelo Internacional. A torcida o detestava, e ele foi demitido. O substituto foi Paulo Roberto Falcão, um treinador de desempenho medíocre no início dos anos 90. Fazia mais de 15 anos que ele não pisava dentro de um vestiário. Mesmo assim, foi contratado como novo técnico. E desembarcou idolotrado pela torcida. Todos os colorados comemoraram. Trata-se da solução para todos os problemas do Beira-Rio. 

O pouco carismático centroavante Alecsandro marcou 54 gols com a camiseta do Inter nas temporadas 2009 e 2010. Mesmo assim, era odiado, vaiado, ridicularizado e detestado pela torcida colorada. Já o atacante Fernando Cavenaghi foi contratado em 2011. A torcida pede a sua presença nos jogos. É adorado só porque tem estilo e é argentino. O único problema é que ainda não jogou nada. Só fez um gol contra o (psss) Canoas. Não corre, não marca, e não passa. Até agora, foi inexpressivo. Vai entender… 

E o que dizer da Libertadores de 2006? O Internacional foi campeão. Um dos jogadores mais ovacionados e com nome mais entoado nas arquibancadas durante aquela conquista foi o atacante colombiano Rentería. Era titular? Não, não jogava nada. Mas ele tinha carisma e só fazia gol se fosse golaço. 

Cavenaghi: Muito estilo e carisma. Futebol? Até agora não.

Grêmio 

A torcida do Grêmio, é claro, faz questão de empatar o Gre-Nal da incoerência. O atacante Jonas barbarizou com a camiseta tricolor. Foi artilheiro do Brasileirão de 2010. Meteu gol atrás de gol. O problema é que não é argentino. É um caipira feio. Por isso, era vaiado e deixou o Olímíco escurraçado. 

Já os atacantes castelhanos Herrera e Maxi Lopez eram idolatrados pela torcida gremista em 2009 (Herrera também jogou em 2006). Eram craques? Não, muito pelo contrário. Herrera só perdia gol. Porém, ele dava quinze carrinhos por jogo. Além de tudo, era argentino. O suficiente para garantir a condição de ídolo. Já Maxi também tinha um desempenho tímido. Só que, além de falar espanhol, tinha cabelos louros esvoaçantes e uma esposa bonita e famosa. Como não adorar um atacante assim? 

Mas o cúmulo da incoerência tricolor foi alcançado em abril de 2011. O técnico gremista Renato Portaluppi faltou dois dias de treinamento às vésperas de um jogo. Foi para resolver algum problema particular? Não, foi para jogar fute-vôlei no Rio de Janeiro. Ele voltou à Porto Alegre apenas no dia da partida contra o Veranópolis. A torcida ficou indignada? Não, todos acharam tudo muito bonito. Sem comentários. 

E o que dizer de um zagueiro tosco como o Paulão, que não joga nada e só sabe dar balão pra frente, conquistar a torcida e virar titular incontestável?

Maxi Lopez: cabelos louros esvoaçantes, uma mulher topmodel e não muito mais do que isso.

Sentir em vez de entender

Todos esses exemplos escancaram que o futebol é algo ilógico, irracional, mítico e passional. É um esporte impossível de se tentar interpretar. Tem que sentir. Falcão e Renato são adorados porque são ídolos. Atletas argentinos e raçudos como Cavenaghi e Maxi Lopez são admirados porque produzem certa identificação em uma torcida com alma tão platina como a gaúcha. Jogadores limitados como Rentería e Paulão despertam certa idolatria entre o povo porque são esforçados, abnegados e carismáticos. O povão se identifica e adora. 

Futebol é amor, identificação e mito. Nos outros estados, a situação é parecida. No entanto, no Rio Grande do Sul, a dualidade Gre-Nal intensifica ainda mais esses aspectos. E é por causa deles que o futebol é um esporte tão divertido, que provoca tanta paixão, arrastando milhões aos estádios e levando legiões de fãs a dar a vida pelo distintivo de um clube. 

Entender de futebol? Pra quê?

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