Cultura / Viés

Videogames, representação e igualdade

Tem gente que encontra refúgio em livro, filme, série. Também tem quem considere essas coisas apenas “entretenimento”. Mas quase todo mundo já se viu representado, de alguma forma, por um personagem, um enredo específico, ou até uma fala bem breve. Entretenimento também é representação. E se é representação, é pra ser discutido. É pra representar de maneira justa.

Cheguei até aqui pra falar de videogame. Justamente ele que, muitas vezes, é menosprezado e taxado de futilidade, distração. Eu, e quase toda uma geração, cresci na frente do videogame. E sempre volto quando bate uma saudade. Jogo um pouquinho de tudo. Mas o ponto é: a gente cresce e fica mais crítico, fica mais preocupado em entender o que tá acontecendo ali em uma escala maior. Daí o jogo aumenta, nos fóruns e comunidades aparece mais gente disposta a procurar soluções e apontar erros, ou elogiar acertos. E eu descubro nessa comunidade uma coisa que me deixa bastante feliz: o jogo não se encerra em si mesmo. Ele vai além. E de maneira bem séria.

Videogame não cria assassino. Videogame não cria salvador. Faz parte de um contexto social e de comportamento. Acho de uma inocência extrema ver discussões acaloradas sobre como GTA pode despertar a delinquência. É claro que, em termos de conteúdos representados, o jogo é bem questionável. Não é pra fechar os olhos, de forma nenhuma. Mas vai de cada um a postura diante do game. Ainda assim, GTA não cria assassinos. Ele não tem propriedade pra fazer isso sozinho.

Matei porque joguei

http://mateipqjoguei.tumblr.com/image/57796156627

“Tomb Raider” sempre foi meu jogo preferido. No início éramos eu, a moça de top verde claro, e duas armas. Comecei a me relacionar com outros jogadores e a entender que aquilo era tão importante pra eles quanto era pra mim. Comecei a entender que eles viam naquele jogo situações que tinham importância e significado do outro lado da tela. A Lara Croft, que surgiu no ímpeto de acabar com protagonistas homens, mas acabou cedendo a um apelo comercial que a transformou em ícone sexual, incomodava muita gente. Principalmente quem sabia que ela era bem mais que aquilo. Quem se identificava com o jogo e queria que ele fosse condizente com a proposta inicial. Quem era representado por ele.

Caitlin saiu para uma festa à fantasia e decidiu vestir o traje típico da aventureira. Quando voltou pra casa, publicou as fotos da noite anterior em seu perfil no Facebook.

Caitlin Seida

http://www.salon.com/2013/10/02/my_embarrassing_picture_went_viral/

Ela teve uma surpresa bastante desagradável no outro dia, quando recebeu a ligação de uma amiga avisando que sua foto tinha viralizado em sites notadamente conhecidos por, em sua essência, zombar da aparência dos outros. Caitlin ganhou a web como Fridge raider (Exploradora de geladeiras). A história ela nos conta aqui: http://www.salon.com/2013/10/02/my_embarrassing_picture_went_viral/.

Quem não gostaria de encarnar a heroína por uma noite? Ela se perguntou. O que encontrou em resposta foram mensagens de ódio, a maioria dizendo que eu era um ser humano sem valor algum, que deveria me envergonhar por ter a coragem de sair em público vestida como uma personagem sexy de videogames. Assim como quase todo mundo, Caitlin reconheceu que ela mesma já passara algum tempo nesses sites, até rindo vez ou outra. Mas, desde então:

Minha postura diante dessas imagens mudou. Não penso que sejam engraçadas. Cada uma daquelas pessoas é um ser humano de verdade, pessoas que tiveram suas vidas transformadas no dia que se tornaram frases de efeito para toda a internet. Sempre que um amigo ri desses sites, pergunto: por que você acha engraçado? Poucos tem uma boa resposta. A maioria reconhece que nem sabe. Lembrar as pessoas da nossa humanidade compartilhada não me tornou exatamente popular, mas parece o certo a se fazer. Eu sei o que é ser a pessoa nessa fotografia terrível. Não posso causar a mesma dor a outra pessoa.

Meagan Marie trabalha com a empresa responsável pelo desenvolvimento de Tomb Raider, a Crystal Dynamics. Ela se posicionou a respeito dizendo que:

Ao longo dos anos vi Laras altas e baixas. Vi cosplayers de todas formas e tamanhos. Vi Lara representada por todas raças, idades e gêneros. Uma grande amiga minha veste a fantasia em sua cadeira de rodas e faz um ótimo trabalho nas convenções. Um dos meus cosplays favoritos usava óculos de leitura e tinha a cabeça raspada, provando que a Lara transcende seu icônico rabo de cavalo.

Como sempre acreditei, as qualidades que Lara inspira são aquelas com as quais qualquer um pode se relacioanr e almejar. Você pode encarnar a personagem mesmo que não seja seu reflexo. Quem não gostaria de ser ela apenas por um dia?

Caitlin é corajos por compartilhar sua história. Coragem essa que é uma das grandes qualidades da Lara Croft, uma das que mais admirei. Então, obrigado, Caitlin, por se posicionar e por representar Lara tão bem.

O texto completo está aqui.

Pela primeira vez, eu acho, fiquei feliz em ler os comentários de uma postagem. Entre eles, esse aqui:

Support to Caitlin

Cosplay é para todos. E se você não gosta… F*ck you!

Desde então, afirmo com mais certeza: videogame é coisa séria. É um espaço pra se posicionar, se encontrar, reivindicar. É um espaço pra construir uma relação com as pessoas e o mundo. Felizmente, também, vi nos últimos anos uma nova Lara Croft surgir. Uma Lara Croft que voltou atrás em alguns aspectos para reforçar aquela imagem de heroína corajosa, independente e capaz. Uma heroína que dizia: vocês podem.

Nasce uma sobrevivente

Divulgação

Esse é um post apaixonado, provavelmente. Envolvido até demais, eu diria. Mas é um post que pede por mais Caitlins, por mais Vicentes (na imagem de apoio à Caitlin), mais cosplayers que reinventem a personagem todos os dias. Eles são as Laras de verdade. Pra mim, assim como pra Meagan, sempre foi um ideal de força, de coragem, de inquietude e desejo de justiça. Não importa se o espelho não reflete uma jovem morena de 20 anos, britânica, dentro de um ideal de beleza bastante frágil. Importa ter uma bandeira a erguer, uma identidade que quer espaço.

Durante muito tempo eu encontrei espaço pra desenvolver minha identidade junto dessa comunidade de jogadores. E é só isso que eu quero: que mais pessoas possam encontrar espaços nesses locais de fala. E que os responsáveis pelos jogos entendam isso. Que eles não fechem os olhos para esses fãs e que os representem dignamente. Não é mais opcional, é uma obrigação. O tratamento dado aos fãs precisa se adequar a eles, se adequar a realidades em transformação.

Obrigado às Laras, Caitlins e Vicentes em minha vida. <3 E aos meus amigos que, junto comigo, construíram sua identidade preocupados com o tratamento dado à diversidade de fãs espalhada mundo afora.

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3 comentários

  1. Thais Sardá says:

    Nossa, Henrique, que legal esta reflexão. Especialmente a partir do ponto de vista de quem vira meme, e como pode ser uma coisa brutal pra pessoa ser ridicularizada publicamente. Gostei muito. E também não acredito que games transformem pessoas em violentas. Ou todas as pessoas que curtem games violentos seriam violentas. Um abraço.

  2. Ana Carolina Gonçalves says:

    Teu texto me lembrou muito essa imagem: http://www.alexandradal.com/wp-content/uploads/2012/09/Fat-Chicks-Cant-Cosplay-by-Alexandra-Dal.png

    Eu também sou muito fã de games, além de outro ramo de severa presença masculina que simplesmente não perdoa: quadrinhos. Já vi várias gurias que tiveram seus cosplays ridicularizados por coisas mínimas (uma Catwoman que teve a AUDÁCIA de ter celulite!) e acho isso muito, muito triste.

    Como tu mesmo disseste, o personagem significa muito para aquela pessoa, e caracterizar-se como ele pode ser uma forma de se sentir seguro em si mesmo. Sou a Lara! Sou foda! Ninguém deveria se sentir no direito de memetizar a ponto do ridículo um momento de felicidade. Não tem jeito de isso acabar bem (lembra do Star Wars Kid?).

    Ótimo texto!

  3. Ótima análise! E as imagens são demais!

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