Como se apresenta o Transtorno Bipolar

Quais são os sintomas do Episódio Depressivo do Transtorno Bipolar?

Os sintomas do episódio depressivo do transtorno bipolar são os seguintes:
arrow humor deprimido ou irritável na maior parte do dia;
arrowacentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades;
arrowperda ou ganho significativo de peso ou diminuição do apetite quase todos os dias, ou incapacidade de apresentar os ganhos de peso esperados para a fase do desenvolvimento;
arrowinsônia ou hipersonia quase todos os dias;
arrowagitação ou retardo psicomotor quase todos os dias;
arrowfadiga ou perda de energia;
arrowsentimento de inutilidade ou culpa excessiva ou inadequada;
arrowcapacidade diminuída de pensar ou concentrar-se, ou muita indecisão;
arrowpensamentos de morte recorrentes, ideação suicida recorrente sem um plano arrowespecífico, tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio.

Os sintomas são os mesmos do episódio depressivo do transtorno depressivo maior.

É necessário que a criança ou o adolescente tenha todos os sintomas para estar em um Episódio Depressivo?

Não. A criança deve apresentar cinco dos sintomas listados acima, sendo que um deles deve, obrigatoriamente, ser o humor deprimido ou irritável, ou acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades. É importante ressaltar que os sintomas devem ocorrer por, no mínimo, quinze dias consecutivos, e estarem presentes em quase todos os dias, nesse intervalo de tempo. Em crianças e adolescentes, pela variação mais rápida do humor, a depressão pode ter duração mais curta.

Como eu diferencio a tristeza normal, de uma tristeza relacionada à depressão?

O estado de humor de qualquer pessoa é bastante variável e pode mudar conforme cada situação. Por exemplo, quando acontece algo que nos deixa felizes, como sair com amigos, realizar um trabalho que gostamos, a tendência é que tenhamos um humor mais alegre. Quando recebemos alguma notícia triste, ou fracassamos em algum projeto, podemos ficar tristes, e até um pouco irritados.

Para se diagnosticar um Episódio Depressivo, os sintomas devem ser intensos, desproporcional à situação enfrentada. Assim, uma pessoa que teve um dia ruim, pode ficar outros dias apenas chorando em casa, sem querer falar com ninguém. Além disso, o estado de humor depressivo deve ser diferente do estado normal da pessoa. Ou seja, a criança ou o adolescente costumava ter um “jeito” diferente, eles não eram tristes e desanimados como estão sendo no momento atual. Terceiro, deve estar evidente uma dificuldade, por parte da pessoa, de conseguir agir em situações sociais, onde há um contato com outras pessoas, ou na escola. A sua tristeza pode ser tão intensa, que ela não queira falar com ninguém e não consiga ir à escola. Assim, há uma evidência clara de que este sintoma está causando um prejuízo. Quarto, deve ter os sintomas que foram listados anteriormente. A depressão é uma síndrome, ou seja, um conjunto de sintomas, e não um sintoma único, como a tristeza. Assim, um diagnóstico adequado feito por profissional de saúde especializado é necessário para um tratamento adequado.

Como os sintomas da depressão aparecem em crianças e adolescentes?

HUMOR DEPRIMIDO OU IRRITÁVEL
As crianças apresentam-se muito tristes, ou extremamente irritadas. A irritabilidade deve ser considerada, pois as crianças, em virtude de seu desenvolvimento psicológico, apresentam uma dificuldade maior de expressarem as suas emoções, assim, uma tristeza ou irritação excessiva podem se expressar por meio de atos impulsivos ou uma baixa tolerância a qualquer frustração. Assim, podem ocorrer episódios de descontrole de impulsos, e uma tendência a ser muito “pavio curto”, reagindo com muita raiva a pequenos estresses. É importante salientar que este comportamento não é o usual da criança. Muitas vezes, também, as crianças não usam o termo tristeza, mas referem termos equivalentes, como tédio, cansaço, vontade excessiva de chorar ou outros. Algumas crianças podem se sentir mais ansiosas, com tendência a preocupações excessivas, podem ficar ruminando sobre vários assuntos, geralmente causadores de angústia, além de sensações físicas relacionadas, como tremores, formigamento, “bola na garganta que sobe e desce”, dor de barriga e dores difusas.

ACENTUADA DIMINUIÇÃO DO INTERESSE OU PRAZER EM TODAS OU QUASE TODAS AS ATIVIDADES
A motivação para fazer todas, ou quase todas as atividades, está acentuadamente diminuída. Nesse caso, é importante ressaltar que isso varia de acordo com a evolução da doença. No início, a criança apresenta falta de motivação, essencialmente, para atividades que requerem maior atenção e concentração, como trabalhos escolares. Com a progressão dos sintomas, aparece uma perda de interesse, também, para atividades mais prazerosas e que requerem menos esforço, como conversar com amigos e ouvir música. Muitos referem que, em determinado momento, preferem apenas ficar sem fazer nada.

PERDA OU GANHO SIGNIFICATIVO DE PESO SEM ESTAR EM DIETA, OU DIMINUIÇÃO DO APETITE QUASE TODOS OS DIAS, OU INCAPACIDADE DE APRESENTAR OS GANHOS DE PESO ESPERADOS PARA A FASE DO DESENVOLVIMENTO.
Existe uma variação do peso, para mais ou para menos. Muitas crianças referem uma diminuição do apetite, apresentando grande perda de peso. Outras podem apresentar um aumento de peso, geralmente à custa da ingesta de alimentos contendo um alto teor de carboidratos, principalmente doces. Algumas referem ter uma verdadeira “fissura” por doces, ou seja, um desejo irresistível de comê-los, podendo ter verdadeiras compulsões alimentares, o que pode causar um ganho de peso excessivo.

INSÔNIA OU HIPERSONIA QUASE TODOS OS DIAS
As alterações de sono também são comuns de serem encontradas em episódios depressivos. A insônia pode ser inicial (dificuldade de “pegar no sono”), intermediária (vários despertares durante a noite) ou terminal (acordar mais cedo que o usual). As duas últimas costumam estar mais associadas a um Episódio Depressivo. Também pode ocorrer uma inversão do ciclo sono-vigília, ou seja, a criança dorme durante grande parte do dia, e fica acordada por toda a madrugada. É importante ressaltar que a insônia deve vir acompanhada de sensação de cansaço durante o dia, ou seja, há uma menor quantidade de sono do que seria necessário. Isso deve ser diferenciado da diminuição da necessidade do sono, que ocorre no Episódio Maníaco, onde a falta de sono não se acompanha da cansaço no dia seguinte. Também pode ocorrer hipersonia, ou seja, um aumento da necessidade do sono. Algumas crianças podem dormir até mais de doze horas por dia.

AGITAÇÃO OU RETARDO PSICOMOTOR QUASE TODOS OS DIAS
O quadro de agitação psicomotora pode variar de sensações de inquietação e “desassossego”, com dificuldade, por exemplo, de permanecer sentado, ou com necessidade de estar sempre caminhando, até episódios mais graves de descontrole, com agressão física ou destruição de objetos. O retardo psicomotor costuma ser uma lentificação da fala e movimentos.

FADIGA OU PERDA DE ENERGIA
Há uma descrição, por parte das crianças e adolescentes, de que se sentem mais cansados, lentos, sem energia, além da falta de ânimo. Referem que, mesmo que sintam vontade de fazer as coisas, percebem que o corpo não responde, e, muitas vezes, desistem muito fácil das atividades.

SENTIMENTO DE INUTILIDADE OU CULPA EXCESSIVA OU INADEQUADA
Os pensamentos estão relacionados com o humor predominante. Assim, há uma visão negativa de si e dos outros, uma sensação de que é inútil, que não serve para nada, que tudo o que fizer não vai dar certo. Costumam assumir a culpa, inclusive, de coisas que não tem relação com a sua pessoa, como, por exemplo, problemas financeiros, brigas dos pais e familiares com outras pessoas. Também não reconhecem qualidades positivas que os outros ressaltam no seu comportamento, e que, antes, conseguiam identificar.

CAPACIDADE DIMINUÍDA DE PENSAR OU CONCENTRAR-SE, OU INDECISÃO
Existe uma diminuição das capacidades cognitivas. A criança não consegue aprender, pensar, estudar, do mesmo modo que antes. Também apresenta uma dificuldade no que é denominado de funcionamento executivo, ou seja, a capacidade de planejamento e tomada de decisões.

Existe diferença entre os sintomas apresentados por crianças e adolescentes?

Sim. As manifestações dos sintomas costumam variar, dependendo da idade e do desenvolvimento psicológico da criança ou adolescente. Na idade pré-escolar (até os cinco anos), a criança tem uma incapacidade de verbalizar os seus sentimentos. Pode haver queixas de dores difusas pelo corpo, sintomas de ansiedade intensos e episódios de impulsividade e agitação. Em crianças na idade escolar (até os onze anos), já existe uma verbalização do humor depressivo. No caso dos adolescentes, é comum haver uma instabilidade muito grande do humor, também com explosões de temperamento e descontrole.

Quais são os sintomas do Episódio Maníaco do Transtorno Bipolar?

Os sintomas que caracterizam o quadro de Mania são os seguintes:
arrow humor elevado, expansivo ou irritável na maior parte do tempo, e diferente do padrão do indivíduo;
arrow aumento da atividade física ou sensação de não ter cansaço físico;
arrow mais falante do que o costume, ou com necessidade de continuar falando, ou sensação de “pressão para falar”;
arrow fuga de idéias ou sensação de que os pensamentos passam correndo pela cabeça;
arrow perda de inibições sociais normais, resultando em um comportamento inapropriado para uma situação;
arrow diminuição da necessidade de sono, como, por exemplo, sente-se descansado com apenas 3 horas de sono;
arrow aumento da auto-estima e grandiosidade excessivas;
arrow distração excessiva, ou seja, a atenção é facilmente desviada por estímulos externos sem importância, ou também mudança constante nas atividades ou nos planos;
arrow comportamento impulsivo e precipitado, cujos riscos o paciente não reconhece, como gastos excessivos, compras desenfreadas e investimentos financeiros sem necessidade;
arrow aumento desproporcional da energia sexual ou indiscrições sexuais.

Como reconhecer os sintomas em crianças e adolescentes?

O sintoma chave do Episódio maníaco é o humor eufórico, muito expansivo, ou irritável, que ocorre fora do comportamento normal do indivíduo. Nesse caso, observa-se que as crianças se apresentam extremamente felizes e contentes, contando piadas e vantagens que não correspondem à realidade. Um problema, nesta situação, é como diferenciar este sintoma da alegria normal de crianças. Assim, é importante observar se esta alegria corresponde ao estado de humor normal da criança e, se está dentro de um contexto apropriado. Por exemplo, uma criança que está mais contente porque ganhou um presente muito desejado, ou que está feliz porque chegaram visitas em casa ou, ainda, porque há uma festa, provavelmente encontra-se dentro da normalidade. Ao contrário, podemos suspeitar de THB quando ela não consegue se comportar em um ambiente onde isso é necessário, como na escola, onde se mostra sempre rindo e contando piadas, mesmo quando outros colegas não estão interessados ou, após alguma punição, como castigo ou suspensão. É importante observar em que contexto ocorre o sintoma e a continuação de um humor eufórico mesmo após uma punição importante, onde esteja evidente a incapacidade da criança de controlar o próprio estado de humor.

Em adolescentes, os sintomas são mais semelhantes ao que ocorrem em pacientes adultos. É freqüente a observação de um humor contagiante, em que todos riem à sua volta e acham engraçadas as suas colocações, o consideram um líder, de temperamento forte. Assim, muitas vezes é difícil, inicialmente, que alguém estranho ao paciente o reconheça como doente, embora os familiares geralmente percebam que algumas vezes ele está diferente do seu jeito normal. Os adolescentes também podem manter a euforia em situações inadequadas, por exemplo, acha graça em um dia que é chamado à diretoria da escola por seu comportamento.

O humor irritável caracteriza-se pela criança ou adolescente ser extremamente “pavio curto”, ou seja, com mínimos estresses, já apresenta uma raiva intensa, irritabilidade muito grave, com descontrole, arremesso de objetos e/ou agressividade física. Este padrão de humor não melhora mesmo após um grande período após a ocorrência do evento estressante, por exemplo, uma briga. A alteração costuma ser desproporcional à situação. Muitas vezes, é observada uma labilidade extrema de humor, com oscilações rápidas entre euforia, irritabilidade e tristeza. O adolescente pode estar cantando, e repentinamente, encolher-se no canto de seu quarto chorando.

Todos os sintomas são necessários para ter o diagnóstico de TB?

Não. O TB foi definido segundo critérios, ou conjunto de sintomas necessários para fazer um diagnóstico.

Para o diagnóstico de Mania, é necessária a alteração de humor, associada a três dos outros sintomas, se o humor for eufórico; ou quatro, se o humor for irritável. A distinção entre Hipomania e Mania é feita pelo grau de prejuízo que os sintomas causam, e a sua duração. Na Mania, deve haver uma interferência grande na vida do paciente, sendo necessária, muitas vezes, a hospitalização, e os sintomas devem durar no mínimo, sete dias. Na Hipomania o prejuízo causado pelos sintomas é menor, com uma duração mínima de quatro dias consecutivos. Muitas vezes, este quadro é difícil de ser diferenciado das variações normais de humor que as pessoas apresentam. No Episódio Misto, o paciente deve apresentar sintomas maníacos e depressivos importantes e graves por, no mínimo, sete dias. É como se os dois episódios afetivos ocorressem juntos ou tivessem uma alternância muito rápida, inclusive no mesmo dia.

O diagnóstico de Transtorno Bipolar é feito quando as crianças e adolescentes já apresentaram pelo menos um Episódio Maníaco, Hipomaníaco ou Misto.

Quando os sintomas começam?

Entre os pacientes que iniciam a doença na infância, a idade média de início dos sintomas costuma ser por volta dos sete anos, embora já se conheça casos de pacientes que tenham iniciado a doença com a idade de três anos (uma criança que, mesmo sem a existência de maus-tratos, sem alterações neurológicas ou qualquer causa subjacente, tem episódios de agressividade, quebra objetos, passa a se esfregar nos adultos, tem crises de choro). Quando a doença inicia na adolescência, a variabilidade de início é maior, geralmente ocorrendo entre os 13 e os 17 anos. No entanto, entre os pacientes diagnosticados com o Transtorno Bipolar, é comum observar, antes do diagnóstico, a ocorrência de vários episódios de mudanças rápidas de humor, com oscilação freqüente e intensa entre Depressão, euforia e irritabilidade, além de uma tendência importante para raiva e descontrole, assim como para impulsos agressivos. Assim, a observação destes sintomas iniciais, chamados prodrômicos, é fundamental, pois sinaliza um grupo de pacientes com maior risco para o desenvolvimento da doença.

Que outros sintomas importantes devem ser observados?

ATIVIDADE FÍSICA EXCESSIVA
Nas crianças o aumento da atividade física ou sensação de não se cansar nunca é, geralmente, o primeiro sintoma observado. São crianças, muitas vezes, descritas como hiperativas. Apresentam um aumento da atividade motora, que apresenta uma grande variabilidade, incluindo desde desordem pela casa e tentativas infrutíferas de organização, quanto de atividades repetitivas, como brincar e correr por horas, sem aparentar sinais de cansaço. Em adolescentes, as atividades costumam ser mais produtivas, como capacidade de trabalhar ou estudar por várias horas, sem necessidade de descanso.

PRESSÃO PARA FALAR
Os pacientes podem se apresentar falantes, geralmente até interrompendo a fala dos outros. Junto a isso, aparece uma tentativa constante de chamar a atenção para o que está falando, cujo fracasso pode levar a um aumento da irritabilidade, chegando a crises de birra, descontrole e agressividade. A fala pode ser tão rápida que por vezes pode ficar incompreensível. O adolescente também pode discursar sobre temas complexos ou que não tem o hábito de falar, como idéias filosóficas ou religiosas.

PENSAMENTOS RÁPIDOS
Fuga de idéias, ou seja, a sensação de que os pensamentos passam correndo no cérebro, pode ser descrito pelas crianças e adolescentes. A criança conta a fuga de idéias como “tudo vem na minha cabeça ao mesmo tempo” ou “é como se tivesse que pensar várias coisas ao mesmo tempo, e não consigo”. Muitas vezes pode, em virtude dos pensamentos estarem “correndo”, entrar em um discurso incompreensível. Nos adolescentes, o sintoma aparece de forma mais clara, pois conseguem descrevê-lo melhor e, há uma dificuldade muito grande de acompanhar o fluxo de pensamento, em virtude da grande profusão de idéias entrelaçadas sobre os mais diversos assuntos.

COMPORTAMENTO INADEQUADO
Nas crises de Mania, pode ocorrer a perda de pudores e regras sociais vigentes, com um comportamento geralmente desinibido. Tal sintoma é difícil de ser avaliado em pré-escolares, uma vez que as regras sociais são internalizadas apenas na idade escolar. Crianças inicialmente “comportadas” podem realizar atividades pouco compatíveis com a situação, como querer dançar na sala de aula, sem a noção de que aquilo não é compatível com a situação. Adolescentes costumam mostrar esse sintoma na aparência física. Uso de cores aberrantes, roupas pouco compatíveis com o clima ou a idade, maquiagem excessiva e combinações incomuns de vestuário podem ser observados.

DIMINUIÇÃO DA NECESSIDADE DE SONO
Outro sintoma importante é a falta de sono, que nesse caso, é acompanhada da ausência de cansaço no dia seguinte. Na Depressão, a insônia se acompanha de grande fadiga e cansaço diurnos. Por isso, na Mania, é preferível o termo “diminuição da necessidade de sono”, no lugar de insônia. Os pais costumam descrever que a criança consegue brincar, ver televisão e se divertir, muitas vezes a noite inteira. Os adolescentes contam que se sentem muito mais ativos, podendo “sair à noite, voltar e começar a estudar, e depois sair para outras atividades com energia e disposição”.

GRANDIOSIDADE
Pode haver também um aumento exagerado da auto-estima com grandiosidade excessiva. Este sintoma pode ser muito difícil de diferenciar do desenvolvimento normal da criança. Sendo assim, é muito importante tentar observar o contexto em que o sintoma aparece e a sua intensidade. Por exemplo, é comum que a criança quando brinque faça encenações com papéis heróicos e grandiosos como super heróis. No entanto, quando a atividade ocorre além do momento do brinquedo, e a criança passa a agir apenas em função disso, é necessária uma maior investigação. Por exemplo, o fato de brincar de bombeiros, e, logo após, ligar para o corpo de bombeiros e alertá-los para um evento que na realidade não está acontecendo, ou insistir com professores ou pais de que consegue fazer o mesmo que eles, mesmo depois de solicitado a parar ou,ainda, deixar de fazer atividades normais para, por exemplo, preparar-se para assumir algum grande cargo, podem ser sintomáticos do transtorno. Em adolescentes, é possível observar um grande aumento da autoconfiança, desproporcional ao padrão do indivíduo, além do desenvolvimento súbito de um senso de grande capacidade pessoal para influenciar as pessoas, em relação a temas sobre finanças, religião e política.

DISTRAÇÃO EXCESSIVA
Os pacientes, devido à grande atividade motora, costumam ficar extremamente desatentos, freqüentemente esquecendo de prestar atenção a detalhes, como ajeitar botões de uma camisa e colocar o telefone no gancho. Embora tenham um grande número de planos e idéias, não conseguem levá-las adiante, e têm uma tendência a ficar trocando de planos. Às vezes, nem as atividades que mais gostam conseguem manter por um tempo mínimo.

IMPULSIVIDADE, GASTOS EXCESSIVOS
Um sintoma importante, devido aos riscos que ele pode provocar, é o comportamento impulsivo e precipitado, cujos riscos o paciente não reconhece, como gastos excessivos, compras desenfreadas e investimentos financeiros sem necessidade. Este sintoma costuma ser mais facilmente reconhecido do que os outros. Há uma grande impulsividade, e as crianças realizam atos dos quais posteriormente, se arrependem. Em crianças, podem querer comprar toda uma loja de brinquedos, ou comprar lanches na escola para todos os colegas. Em adolescentes, o comportamento impulsivo também aparece na forma de compras, gastos em jogos, uso de álcool e drogas e de atividades de risco, como dirigir sem habilitação, alcoolizado. Os adolescentes empreendem viagens longas, sem planejamento, e contraem dívidas. Isto também pode ser visto nas conversas intermináveis e descontroladas no telefone, gerando grandes gastos. Isso reflete uma perda da capacidade de julgar os próprios atos. Pode haver, nessa faixa etária, o desenvolvimento de alterações de conduta graves, como roubo em confronto com a vítima, brigas físicas e episódios de agressividade física graves, enfrentamento de autoridades.

AUMENTO DA ENERGIA SEXUAL
A hipersexualidade também pode ser observada nestas crianças e adolescentes e aparece das mais diversas formas. Geralmente inclui uma mudança no comportamento do paciente. Crianças podem apresentar comportamento auto-estimulatório compulsivo, como masturbação, além de claras propostas de sexo com adultos, e gastos com material erótico, como revistas pornográficas, linhas telefônicas eróticas, envolvimento pela internet. Adolescentes freqüentemente evoluem para atos sexuais, com risco de gravidez e de contraírem doenças transmitidas pelo contato sexual, como os vírus HIV e da hepatite B.

Como vou saber se a euforia ou a irritabilidade é TB?

Realmente, não é muito fácil de entender quando alguém diz que aquele indivíduo que está alegre, contente e feliz pode estar com uma doença. Na verdade, o que ocorre é que o indivíduo age de uma maneira completamente diferente do seu padrão habitual, e o seu estado de humor eufórico pode, inclusive, colocá-lo em risco, na medida em que se torna mais impulsivo, podendo envolver-se em surto de compras, com gastos excessivos, atividade sexual sem proteção e uso de álcool e drogas. Além disso, essas pessoas, por estarem extremamente ativas e com várias idéias passando pela cabeça, solicitam freqüentemente que os outros as acompanhem em suas atividades e, diante da recusa dos outros, costumam ficar extremamente irritadas e agressivas.

No entanto, todos os casos suspeitos devem ser avaliados por um médico psiquiatra, a fim de poder caracterizar melhor o sintoma, e aplicar os critérios diagnósticos. Pode ser muito difícil diferenciar situações que não correspondem a uma doença, principalmente em episódios hipomaníacos, onde não são existentes sintomas tão intensos na vida das crianças e adolescentes.

Existem outros tipos de sintomas?

Sim. Os mais importantes a serem relatados aqui são os sintomas psicóticos. A presença de sintomas psicóticos representa uma forma muito grave da doença. Eles incluem delírios, alucinações e alterações extremas na fala ou no comportamento. Os delírios são crenças que a criança e/ou o adolescente pode ter, e que não são reais. Assim, eles desenvolvem uma idéia fixa e inabalável sobre determinado assunto, e nada os faz mudar de idéia. Na Mania, são comuns os delírios de grandeza, em que as crianças e os adolescentes podem acreditar que são poderosos, ou que têm poderes especiais, ou de ser uma pessoa especialmente famosa, superior ou muito rica. O que caracteriza tais idéias como um delírio é o fato das crianças e/ou adolescentes apresentarem uma convicção extrema sobre isso e comportarem-se como tal, em todos os momentos.
Alguns pacientes podem ter delírios que não são compatíveis com o humor, quando desenvolvem idéias delirantes como crenças de que estão sendo perseguidos ou, de que estão sendo traídos, ou mesmo idéias nas quais o conteúdo é totalmente impossível, como no delírio de que é controlado por extraterrestres. Nesses casos, em que os sintomas psicóticos são chamados de incongruentes com o humor, há um prognóstico ainda pior.
As alucinações são alterações na percepção dos estímulos. O paciente percebe coisas, sem a presença do estímulo. As alucinações mais comuns são auditivas, onde escuta vozes, sons vagos, conversas e frases inexistentes; visuais, onde vê objetos, cenas e cores que não existem. Também podem ser olfativas (cheiro), táteis (sensações na pele) e gustativas (sabor). É importante ressaltar que as alucinações devem ser diferenciadas da impressão ou idéia de ter ouvido algum som, ou ter a impressão de ver um vulto. Nas alucinações, as pessoas descrevem ter percebido o objeto claramente, de uma forma nítida, tendo certeza da existência do estímulo. Além disso, as alucinações costumam ocorrer de forma repetida.

Outros sintomas psicóticos que podem ocorrer incluem uma desorganização extrema na forma de falar, onde há uma linguagem completamente caótica, com palavras inexistentes e um conteúdo indecifrável. Além disso, pode ocorrer uma alteração grave na motricidade, geralmente com comportamento catatônico, onde pode ficar imobilizado e sem movimentos espontâneos por uma grande quantidade de tempo, como horas ou dias, e sem comunicar-se nem responder ao chamado.

Existe diferenças na forma que a doença TB se apresenta em adultos e crianças?

Sim. O padrão mais comum de doença, no adulto, envolve a ocorrência de episódios afetivos delimitados, associados com períodos sem sintomas. Se não houver tratamento, um episódio maníaco pode durar, em média, de três a seis meses, e um episódio depressivo, entre seis e doze meses.
O Transtorno Bipolar de início na infância não tem um padrão de episódios claramente delimitados. Ao contrário, o que se vê é a presença de sintomatologia crônica, com dificuldade de delimitar o seu início. Em crianças, é mais freqüente a ocorrência de sintomatologia mista, com sintomas maníacos e depressivos ocorrendo ao mesmo tempo, ou alternando-se de forma muito rápida, muitas vezes em questão de horas. Assim, a labilidade do humor (mudança rápida) e a sua grande variabilidade são muito mais comuns do que em adultos.
Outra diferença que pode ser encontrada é que, na infância, é mais difícil a definição e ocorrência de um humor eufórico. Ao invés disso, a irritabilidade é a alteração de humor mais comum, associada a uma pobre capacidade de regulação das emoções, um estado de alerta constante, com reatividade muito alta a qualquer estímulo, e altas taxas de agressividade, pela incapacidade de tolerar qualquer tipo de frustração.

Além disso, quando é possível a delimitação de episódios, foi encontrado que, na infância, a duração é muito mais longa, podendo, um único episódio, durar cerca de dois anos e meio. O estudo que acompanhou por mais tempo crianças com diagnóstico de Transtorno Bipolar observou que, em um período de quatro anos, elas apresentaram-se com sintomas da doença em 67% do tempo, ou seja, cerca de dois anos e oito meses.

Enquanto em adultos é possível, após a melhora de sintomas agudos, o uso de apenas uma medicação, em crianças isso é virtualmente impossível. Os sintomas em crianças parecem ser mais resistentes à medicação. A regra é que esses pacientes necessitem de duas ou três medicações ao mesmo tempo, mesmo após o controle dos sintomas.

O Transtorno Bipolar de início na adolescência apresenta características intermediárias entre a doença de início na infância e na idade adulta. Por exemplo, nessa faixa etária, já é possível uma delimitação maior dos episódios, os quais frequentemente têm uma duração menor. Na adolescência, muitas vezes os sintomas psicóticos acompanham as alterações do humor.

Se a doença é tão diferente quando inicia na infância ou na idade adulta, dá para dizer que é a mesma doença? 

Na verdade, isso seria possível se existisse um acompanhamento de pacientes que iniciaram a doença na infância até a idade adulta. Mas, como apenas recentemente o THB está sendo reconhecido na infância, ainda não houve tempo para pesquisas. A descrição do Transtorno Bipolar na infância partiu da observação de um grupo de crianças que apresentava sintomas de alteração de humor muito graves, e que não se encaixavam na definição de Depressão isolada. Quando foi investigada a história familiar dessas crianças, verificou-se que muitas delas apresentavam pais com Transtorno Bipolar. Além disso, hoje se sabe que há uma transmissão hereditária da doença bipolar (conforme será visto na parte de “causas da doença”), o que aumentou a suposição de que as crianças e adolescentes também poderiam apresentar o THB. Por fim, entrevistando pacientes adultos com o Transtorno Bipolar, verificou-se que alguns deles já apresentavam sintomas importantes na infância, os quais não foram reconhecidos naquela época. Estes pacientes adultos, muitas vezes, tinham uma forma de doença mais grave, uma vez que os sintomas não tratados desde a infância, já haviam causado uma série de perdas em nível social, acadêmico e no trabalho. Logo, acredita-se que o THB de início na infância provavelmente sinalize uma forma mais grave do Transtorno Bipolar. Assim, o diagnóstico e tratamento precoces são fundamentais, a fim de melhorar o prognóstico.

Caso meu filho esteja com Depressão, como vou saber se é um Transtorno Depressivo ou um Transtorno Bipolar?

Na verdade, essa é uma pergunta de difícil resposta. Estima-se, pelos estudos atuais, que entre 20 a 40% das crianças ou adolescentes que tem um episódio depressivo na verdade apresentam o início de um Transtorno Bipolar. A vulnerabilidade aumenta nos seguintes casos: idade precoce do episódio depressivo, presença de sintomas psicóticos, história familiar de Transtorno Bipolar ou de Depressão psicótica e lentificação motora muito importante. O risco também aumenta quando um antidepressivo desencadear um quadro maníaco ou hipomaníaco. Esse aspecto é importante em relação ao tratamento farmacológico, uma vez que o uso isolado de antidepressivos em pacientes com Transtorno Bipolar, mesmo em episódios depressivos, confere um alto risco de virada maníaca. Logo, essa virada sinaliza que, provavelmente, estamos diante de um episódio depressivo do Transtorno Bipolar (chamado de Depressão bipolar), e não de um episódio depressivo do Transtorno Depressivo Maior (a Depressão unipolar).

Existe alguma doença que pode causar sintomas iguais ao Transtorno Bipolar? 

Sim. Algumas doenças podem causar sintomas maníacos. Desta forma, sempre temos que nos certificar se nenhuma dessas doenças causou os sintomas, pois isso muda todo o tratamento.

Essas causas orgânicas são:
arrow doenças neurológicas: traumatismo craniano (lesão causada por uma batida muito forte da cabeça, geralmente seguida de perda de consciência, vômitos e tontura) e epilepsia de lobo temporal (um tipo de epilepsia em que pode aparecer um quadro de impulsividade grave).
arrow doenças endocrinológicas: hipertireoidismo.
arrow uso de drogas, especialmente anfetamina e cocaína.
arrow uso de medicamentos, como estimulantes: metilfenidato; antiinflamatórios; corticóides; antidepressivos.

Além dessas, outras causas devem ser excluídas, dependendo do contexto em que os sintomas apareceram. Principalmente em crianças pré-escolares (dos 3 aos 6 anos), uma fala muito acelerada, muitas vezes com um conteúdo difícil de compreender, pode ser causada por uma deficiência na capacidade de transmitir as idéias verbalmente, o que é chamado de transtorno da linguagem.
Outro diagnóstico que pode ser necessário excluir, antes de fazer o diagnóstico de Transtorno Bipolar, é o de abuso sexual ou de hiperestimulação sexual. Pode se suspeitar de abuso sexual em crianças que apresentam interesse excessivo em material sexual e masturbação compulsiva, na ausência de outros sintomas da síndrome maníaca. O abuso sexual é muito mais freqüente do que se supunha anteriormente, ocorre em todas as classes sociais, e, em caso de suspeita, deve ser sempre notificado a um órgão de defesa da criança ou adolescente, como o Conselho Tutelar, a fim de ser feita a investigação adequada.

Em adolescentes, a ocorrência de sintomas psicóticos intensos (como descritos anteriormente), e sintomas maníacos leves, levam a pensar em uma doença chamada esquizofrenia. Esta é uma doença classificada dentro dos transtornos psicóticos, caracterizados por delírios e alucinações, que evolui com uma grande deterioração geral do paciente, em nível social, afetivo (o paciente perde a capacidade de expressar suas emoções adequadamente), cognitivo (tem dificuldades progressivas com memória, atenção e concentração) e volitivo (tem diminuição da vontade de fazer as atividades, podendo ficar totalmente apático).
É importante ressaltar que todos os diagnósticos diferenciais devem ser investigados por um psiquiatra com treinamento e experiência na avaliação e tratamento de crianças e adolescentes, em virtude das implicações terapêuticas.