NESTA EDIÇÃO
Bem-vindos à nona edição da revista A Ciência como ela é. Neste número, convidamos você a refletir sobre um tema que atravessa silenciosamente a vida universitária e que, cada vez mais, exige nossa atenção: a saúde mental.
As universidades são reconhecidas como espaços de produção de conhecimento e formação profissional. Entretanto, por trás dessa missão existe uma dimensão frequentemente negligenciada: a experiência humana daqueles que vivem o cotidiano acadêmico. Para estudantes, docentes e técnicos, a pressão por desempenho, as incertezas quanto ao futuro, a competitividade, as dificuldades financeiras e a conciliação de múltiplas responsabilidades podem transformar esse ambiente em um contexto de vulnerabilidade.
A ciência demonstra que o sofrimento psíquico resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais, exigindo uma abordagem multidisciplinar. É sob essa perspectiva que os trabalhos reunidos nesta edição exploram a saúde mental em diferentes dimensões.
Um dos pilares dessa discussão é a compreensão biológica do fenômeno. Isabela Brondani explica que o estresse constitui uma resposta biopsicossocial que mobiliza recursos do organismo para enfrentar ameaças. Quando essa resposta se torna crônica, ocorre a desregulação do eixo Hipotálamo-Pituitária-Adrenal (HPA), comprometendo funções executivas importantes, como memória e capacidade de adaptação.
A sensibilidade desses mecanismos é ainda mais profunda do que frequentemente imaginamos. Simone Vargas e Cristiane Matté demonstram como alterações hormonais maternas podem modular o epigenoma fetal, evidenciando que aspectos relacionados ao equilíbrio emocional e à resposta ao estresse começam a ser estabelecidos ainda nas fases iniciais do desenvolvimento humano.
No contexto das Instituições de Ensino Superior, surge então uma questão fundamental: como transformar esse conhecimento em ação? A psicóloga Ana Júlia Vicentini convida à reflexão sobre a responsabilidade institucional diante da saúde mental, propondo que a universidade seja também um ambiente de promoção da saúde por meio do cuidado coletivo, da escuta qualificada e da construção de redes de apoio.
Expandindo essa visão para a necessidade de uma universidade verdadeiramente inclusiva, o artigo de Marilucia Mattei, Janaina de Macedo e Eliete Staub, traz luz aos desafios enfrentados por estudantes com autismo (TEA), TDAH e outras neurodivergências. As autoras discutem como as “rupturas” da transição acadêmica são acentuadas para esses jovens, que frequentemente enfrentam dificuldades em funções executivas e habilidades sociais. Através do relato do Grupo Diálogos Neurodiversos (UFSC), o texto demonstra que espaços de psicoeducação e apoio mútuo são vitais para reduzir a rigidez cognitiva e o isolamento, promovendo a autonomia e prevenindo o adoecimento mental.
Essa perspectiva é reforçada por Gabriela Gehlen, Lethicia Ribeiro e Renato Bonatto Júnior, que apresentam estratégias de capacitação, como o treinamento QPR Gatekeeper, fundamentais para romper o silêncio em torno de temas sensíveis e fortalecer os vínculos dentro da comunidade acadêmica.
Somando-se a essas estratégias, a professora Monica Vianna aborda o mind-wandering e apresenta o mindfulness como uma ferramenta para desenvolver regulação emocional diante da hiperconectividade e da pressão por desempenho. A autora destaca que práticas simples, como pausas conscientes antes de aulas ou avaliações, podem favorecer uma relação mais saudável com pensamentos, emoções e a própria experiência.
A seção Aconteceu no ICBS sintetiza o dinamismo do Instituto com eventos que integram ciência, cultura e bem-estar. O semestre foi marcado pela retomada do Coral do ICBS após 15 anos e por projetos de integração como o Saberes e Sabores e a Oficina Movimento e Bem-Estar, focada na redução do estresse. A divulgação científica brilhou na Semana Nacional do Cérebro 2026, conectando a universidade à sociedade, enquanto o campo acadêmico celebrou o 1º Workshop SBMM Sul de Microscopia e o início das comemorações dos 50 anos do PPG em Fisiologia.
A edição também destaca o protagonismo estudantil como importante fator de proteção. No relato de experiência da seção Vamos testar, os autores demonstram como espaços de educação não formal favorecem autonomia, senso de pertencimento e participação ativa dos estudantes. Complementando essa perspectiva, a seção Da sala para o mundo, organizada por Júlia Vergo Pacheco, apresenta trabalhos que transformam temas científicos complexos em materiais didáticos e informativos, aproximando o conhecimento produzido na universidade da sociedade.
As reflexões desta edição se estendem ao podcast da revista, no qual a psicóloga Gabriela Gehlen e a professora Monica Vianna discutem a urgência de reconstruir o senso de pertencimento nas instituições. Em um cenário marcado por conexões digitais muitas vezes superficiais, comparações constantes e crescente individualização das relações, o diálogo evidencia como o isolamento e o medo do julgamento têm fragilizado os laços acadêmicos. As convidadas defendem que a normalização da vulnerabilidade e o fortalecimento das redes de apoio são fundamentais para acolher o sofrimento antes que ele se torne insuportável.
Ao reunir essas diferentes vozes — da neurobiologia à prática pedagógica, da pesquisa básica às experiências de acolhimento —, esta edição convida à reflexão sobre a necessidade de integrar estratégias individuais de enfrentamento a políticas institucionais comprometidas com o cuidado. Afinal, a excelência de uma universidade não se mede apenas pelo conhecimento que produz, mas também pela capacidade de promover o desenvolvimento humano e cuidar das pessoas que tornam esse conhecimento possível.
Para aqueles que sentem o peso da jornada, a seção Fica a Dica oferece orientações sobre sinais de sofrimento emocional e apresenta os serviços de apoio da UFRGS, como a Clínica de Atendimento Psicológico, o Centro de Avaliação Psicológica (CAP) e o Projeto MEDUSA. Buscar ajuda é um ato de coragem e valorização da própria vida.
Por Martha Braun da Rosa
Porto Alegre, 10 de julho de 2026















