Sobre o projeto


José Rivair Macedo e Thuila Ferreira

Biografias de mulheres africanas é o resultado de um projeto de iniciação científica desenvolvido por estudantes de graduação e de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no período de 2018 – 2020. Seu objetivo, eminentemente pedagógico, é dar a conhecer informações sobre a vida do maior número possível de mulheres nascidas no continente africano, das origens aos dias atuais, de modo a oferecer subsídios de ensino e pesquisa sobre a história das mulheres africanas em todos os níveis de educação – em língua portuguesa. Inspirou-nos a constatação de que, ao procurar referenciais biográficos de mulheres africanas, quase nada se encontra neste idioma – em geral, as fontes neste sentido estão em língua inglesa, e, secundariamente, francesa. Esta dificuldade por nós sentida, que se estende a pesquisadores, estudantes e sociedade civil em geral, nos levou à organização do projeto, agora concretizado no presente sítio eletrônico.

Para a realização do trabalho, a equipe de estudantes teve acesso ao Dictionary of African Biography, coordenado por Emmanuel K. Akyeampong e Henry Louis Gates Jr (Oxford, 2012). Esta obra serviu de consulta na proposição de centenas de biografias de mulheres, em sua maior parte, desconhecidas fora dos círculos especializados de pesquisadores(as). Os verbetes desta publicação serviram de base para a elaboração de minibiografias com a identificação da origem e formação escolar e/ou profissional, condição social, trajetória pública e eventos que caracterizam cada uma das personagens biografadas. Na pesquisa, também foram consultados outros dicionários especializados, assim como sítios eletrônicos, artigos acadêmicos, livros, e a Wikipédia. 

Embora a preocupação principal tenha sido com a biografia de mulheres cuja existência histórica é comprovada por documentação e evidências históricas, reservamos algum espaço para a inclusão de personagens que povoam o imaginário das sociedades africanas ou cuja existência vincula-se ao plano das tradições orais (seção “Legendárias e míticas”), assim como para seres anatomicamente femininos considerados importantes na escala evolutiva da humanidade (seção “A gênese africana”). Esta decisão foi tomada em respeito ao modo de pensar de diversas culturas africanas, em que a noção de pessoa não se restringe aos corpos, mas abrange os(as) ancestrais e entes não-humanos. Também foram incluídas mulheres de origem africana cuja vida ocorreu parcialmente em situação de diáspora em virtude dos tráficos internacionais de cativos através do Saara, do Mar Mediterrâneo, do Oceano Índico e do Oceano Atlântico. 

As minibiografias poderão ser acessadas a partir de um índice alfabético, ou por meio de diversas seções temáticas criadas a partir da identificação de localização geográfica ou localização histórica, e de acordo com a situação, condição ou atuação pública das mulheres. Isso permite conferir certa uniformização de grupos, perfis e traços distintivos das mulheres africanas aqui apresentadas, oferecendo possibilidades de percepção da heterogeneidade e diversidade da história das mulheres de todas as partes do continente. Como ao final de cada personagem biografada constam indicações bibliográficas, o material disponibilizado convida a ir além das informações fornecidas em pesquisa mais aprofundada. 

Com o Projeto Biografias de Mulheres Africanas, espera-se que o público brasileiro e que o público dos países africanos de fala oficial portuguesa possa encontrar referenciais iniciais para o reconhecimento do papel distintivo e crucial que as mulheres africanas desempenham em suas respectivas sociedades. Espera-se também que as mulheres negras da diáspora possam encontrar meios de aproximação com as africanas, de modo a identificar pautas comuns e situações específicas em suas reivindicações, ações e conquistas. Em todos os casos, o conhecimento público, compartilhado, é um instrumento essencial para a busca pela equidade racial, de gênero, e para uma tomada de consciência política e cultural em âmbito transcontinental.

José Rivair Macedo (Brasil) é licenciado em História pela Universidade de Mogi das Cruzes (1985) e doutor em História Social pela FFLCH-USP; realizou estudos de pós-doutorado na Universidade Nova de Lisboa (2001) e na Universidade de Lisboa (2011); atua com pesquisador do CNPQ desde 1995, é professor titular no Departamento de História da UFRGS e também docente do quadro permanente do Programa de Pós-Graduação em História da mesma Universidade; coordena a Rede Multidisciplinar de Estudos Africanos do ILEA-UFRGS e é integrante do NEAB-UFRGS.

joserivairmacedo@gmail.com

Thuila Farias Ferreira (Brasil), cria da Restinga (Porto Alegre), é Bacharela em Relações Internacionais pela Universidade La Salle (2016) e Mestra em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2020). Pesquisa pensamento de mulheres africanas, relações de gênero no continente africano e feminismos negros.

thuilafa@gmail.com


Imaginando o acervo


Ramon Dorneles Moser

A imagem é um importante recurso comunicativo que, além de cativar a curiosidade das pessoas, tem a capacidade de transmitir uma infinidade de informações. Nesse sentido, decidimos ilustrar todas as biografias estudadas e disponibilizar o resultado desse trabalho em uma página de visual simples e de fácil navegação.

Constituímos este acervo mediante uma cuidadosa pesquisa. Concentramos nossas buscas em fontes que ofereciam imagens de forma gratuita para uso educativo, sem fins comerciais – tais como museus, universidades e organizações governamentais. Pudemos contar também com a generosidade de instituições, artistas e fotógrafos que gentilmente nos autorizaram a publicar seus trabalhos para ilustrar este projeto. Entretanto, houve biografias para as quais não foram encontradas representações diretas das mulheres, então sugerimos imagens relativas ao seu contexto histórico, cultural e social; ou produzimos ilustrações, a partir de livre interpretação, que foram sinalizadas como meramente ilustrativas.

Devido à diversidade e à complexidade de situações das personalidades retratadas –em termos de período histórico, cultura, extrato social, etc.–, também tivemos de buscar imagens em fontes alternativas como redes sociais, blogs, Wikimedia Commons e outros acervos públicos disponíveis na Internet. Nesses casos, em razão da liberdade de formato dos conteúdos (sem as exigências de rigor acadêmico, ou jornalístico) dificilmente pudemos obter informações sobre a autoria ou a origem das imagens. Entretanto, publicamos tudo o que encontramos com seus devidos créditos, quando identificados, bem como suas fontes; para oferecer àqueles que às consultarem a possibilidade de tirar suas próprias conclusões.

Acreditamos que, ao associarmos imagens de mulheres das mais variadas épocas e regiões às biografias, estamos acrescentando informações não contidas nos textos que colaboram para ampliar nosso conhecimento sobre a rica diversidade de culturas do continente africano ao mesmo tempo em que oferecemos às pesquisadoras e pesquisadores um ponto de partida para suas próprias investigações visuais.

Ramon Dorneles Moser (Brasil) Bacharel em Comunicação Social com ênfase em Publicidade e Propaganda (1998) e Especialista em Expressão Gráfica (2009) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Editor de vídeo, animador, desenhista e fotógrafo. Atualmente trabalha como Produtor Cultural no Departamento de Educação e Desenvolvimento Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

ramon.moser@ufrgs.br


Introdução ao projeto “Biografias de Mulheres Africanas”


Patrícia Godinho Gomes

O conhecimento liberta. Foram estas as palavras que ecoaram na minha mente enquanto expunha as minhas reflexões na quinta “Semana da África na UFRGS”, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS, em maio de 2017, dedicado ao tema “Gênero e participação feminina”. Na minha comunicação, abordei o tema da condição das mulheres da Guiné-Bissau, meu país de origem, e de suas lutas históricas e contemporâneas, em uma perspectiva feminista e libertária. O debate deixou claro que, mais do que nunca, african@s e brasileir@s precisam conhecer melhor o que escrevem e precisam conhecer-se melhor. Esta é uma questão que me parece relevante e uma preocupação que me tem acompanhado nestes anos de permanência no Brasil, bem como os meus estudos. Como é possível discutirmos convenientemente e com a devida competência sobre mulheres, gênero e feminismos em contextos africanos e brasileiros se ainda precisamos, seja lá que cá, dominar a produção intelectual sobre a temática e discutir/repensar conceitos? Mais ainda, como podemos abordar essas questões em África, se @s própri@s african@s carecem de conhecimento sobre as diferentes regiões do continente? É nesta mesma linha de pensamento que a socióloga nigeriana Oyeronké Oyĕwùmí observou o fato de os estudos africanos permanecerem, substancialmente, dependentes do ocidente, produzindo o que a autora apela de teorias de “segunda-mão”, em que as questões que informam a pesquisa em África derivam do norte global e onde as experiências africanas que informam a teoria são consideradas exceção (Oyèwùmí, 2017).

Paralelamente, no Brasil, os estudos de gênero sobre realidades africanas produzidos por pesquisadores brasileir@s e african@s permanecem largamente marginais em termos acadêmicos (e mais ainda em termos da sua disseminação na sociedade), sobretudo se comparados à produção no campo dos estudos africanos em termos globais, numa perspectiva evolutiva. Em contrapartida, a produção africana sobre temas de gênero tem sido notoriamente mais extensa e com importantes contribuições do ponto de vista teórico, empírico e epistemológico, ainda que considerado um campo de pesquisa relativamente tardio dentro da grande área das ciências sociais (Zeleza, 2005: 207-32). 

Se, por um lado, se tem verificado, em termos globais, o relativo des(não)conhecimento, no Brasil, das lutas sociais, políticas e intelectuais de africanas num processo inscrito na colonialidade, que não apenas subalterniza, bem como remete à invisibilidade todo o conhecimento produzido fora do mainstream colonial e hegemônico, há que reconhecer, igualmente, que a presença de mulheres, seja como sujeito que como objeto de pesquisa foi uma conquista relativamente recente nos estudos sobre África desenvolvidos por african@s, seja a partir do continente que fora dele. Como nota Paul Thiambe Zeleza, as mulheres africanas foram, por um longo período de tempo, invisibilizadas ou, melhor, sub-representadas, na historiografia africana, seja como autoras de textos que como temas de pesquisas; como demonstrou o autor, as mulheres africanas foram representadas de forma inadequada nos grandes manuais de história de África, a exemplo das histórias gerais como a General History of Africa publicada pela UNESCO e a History of Africa publicada pela Cambridge, ou de histórias regionais como o volume A History of Maghrib, da autoria de Abun-Nasr   (Zeleza, 2005: 207-32). A importância do papel das mulheres nas suas respetivas sociedades foi subestimada e, em casos mais extremos, as mulheres sequer foram mencionadas ou, se foram, as discussões assumiram um viés estereotipado de mulheres com funções de reprodutoras, mães e esposas. Globalmente, a tendência foi a da inferiorização das experiências históricas das mulheres. As suas vidas foram descritas em obras sob o véu da intemporalidade e reduzidas a sujeitos “trans-históricos”, isto é, fora das dinâmicas do desenvolvimento histórico.

A partir desta breve reflexão, estou convicta do fato de que projeto “Biografias de mulheres africanas”, do qual tenho a honra e o privilégio de ser parte e de redigir esta introdução, constitui, sem dúvida, uma ferramenta de pesquisa de grande utilidade para tod@s @s que nutrem interesse ou alguma forma de curiosidade pelo continente africano e por trajetórias de mulheres africanas. São breves notas biográficas, verbetes, que repercorrem o período da antiguidade aos nossos dias, algumas das quais até ao momento totalmente desconhecidas do grande público. Como referido pelos curadores do projeto, José Rivair Macedo e Thuila Farias Ferreira, esta ferramenta de pesquisa poderá possibilitar às mulheres negras brasileiras e africanas identificarem pautas comuns, mas sobretudo, poderá permitir às  mulheres diaspóricas reconhecerem o papel central e relevante das africanas nas suas próprias sociedades, bem como obterem informações úteis  mas quase sempre pouco acessíveis, se não mesmo inacessíveis, em língua portuguesa, ainda que disponíveis em língua inglesa e francesa (e em menor medida em língua espanhola). Como referi na abertura deste texto, o conhecimento liberta. Mas ele só liberta se devidamente apropriado, criticado e partilhado. Para que isso seja possível, é preciso que o conhecimento circule ou, por outras palavras, é necessário conhecer as experiências históricas das mulheres africanas para que se possa produzir um conhecimento crítico sobre elas. É fundamental, como se diz na Bahia, “virar a língua”, entendendo as formas de diálogo e entendimento entre grupos que partilham experiências comuns ou similares, caraterísticas aos contextos de resistência negra e às casas de candomblé (Reis, 2017: 271). Como escrevi em outro texto (Godinho Gomes, 2017: 7), é cada vez mais necessário representar sujeitos femininos e considerar a pluralidade indentitária que caracteriza os contextos nos quais as mulheres manifestam as próprias indagações e inquietações, lugares esses que apresentam caraterísticas distintas, mas com cenários por vezes similares, capazes de favorecer a troca de experiências e de saberes.

As desigualdades sociais e raciais cada vez mais evidentes, têm mostrado toda a crueldade de um sistema mundial que divide, hierarquiza e classifica a humanidade entre ricos e pobres, brancos e não brancos, comunidades e indivíduos eleitos e comunidades e indivíduos destinados à invisibilidade cultural, econômica e social. Assiste-se a uma recrudescência sem precedentes dos fenômenos do racismo e da xenofobia, bem como de tendências políticas extremistas. Neste contexto, o projeto “Biografias de mulheres africanas” pode auxiliar as mais jovens gerações  brasileiras e africanas do espaço “lusófono” no esforço comum de estudar as sociedades africanas a partir d@s seus protagonistas. Nesta perspectiva, torna-se necessário proceder a um diálogo sistemático entre comunidades e indivíduos pertencentes ao sul global, produzindo conhecimento par le bas, um conhecimento que seja relevante e situado, mas acima de tudo libertador. Esta perspectiva metodológica requer, na minha concepção, o aprofundamento dos saberes sobre as sociedades africanas, das trajetórias e das biografias dos sujeitos que as constituem. É o que o projeto que aqui se introduz procura fazer, isto é, tão só proporcionar a@s leitores um espaço de conhecimento a partir de imagens e de biografias de mulheres africanas que atuaram e que atuam em vários âmbitos das suas respetivas sociedades e em diferentes regiões do continente. Esta visão plural do global poderá constituir, possivelmente, uma via eficaz para o superamento de estereótipos e de preconceitos que ainda prevalecem no mundo contemporâneo e sobre África.

1 Para informações mais detalhadas sobre o  evento V Semana da África na UFRGS, veja-se  5ª Semana da África na UFRGS — Departamento de Educação e Desenvolvimento Social – DEDS

OBRAS CITADAS: 

GODINHO GOMES, Patrícia. “Introdução”. In: GODINHO GOMES, Patrícia; FURTADO, Cláudio Alves Furtado (Orgs.). Encontros e desencontros de lá e de cá do Atlântico. Mulheres africanas e afro-brasileiras em perspectiva de gênero. Salvador: EDUFBA, 2017, p. 7-24

GODINHO GOMES, Patrícia. “Posfazione”. In: LOPES, Filomeno. Non amo i razzist dilettanti. Roma: Lit Edizioni (Castelvecchi), 2020, p. 133-138

Oyewùmí, Oyeronké. La invención de las mujeres. Una perspectiva africana  sobre los discursos occidentales de género. Bogotá (Colombia): En la frontera, 2017. 

REIS, Vilma. “Virando a língua lá e cá: mulheres africanas ao sul do Saara e mulheres negras brasileiras em nossas produções, trocas possíveis”. Encontros e desencontros de lá e de cá do Atlântico. Mulheres africanas e afro-brasileiras em perspectiva de gênero. Salvador: EDUFBA, 2017, p. 271-290. 

ZELEZA, Paul Tiyambe. “Gender biases in African historiography”. In: OYĚWÙMÍ, Oyeronké (Ed). African Gender Studies. A reader. Hampshire (England): Palgrave Macmillan, 2005, p. 207-232.

Patrícia Godinho Gomes (Guiné-Bissau) é Professora Associada visitante no Programa de Pós Graduação em Estudos Étnicos e Africanos-Pós Afro da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Licenciada em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas-ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa, com especialização em Estudos Africanos (1995), Doutora em História e Instituições da África – Università degli Studi di Cagliari (2002), Pós-Doutora em História da África pela Universidade de Cagliari (Itália) (2006-2010) e em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (2014-2018). Ocupa-se prevalentemente de estudos ligados à participação das mulheres africanas nas resistências anticoloniais em perspetiva de gênero, bem como de feminismos africanos, com particular foco nos países africanos de fala portuguesa. 

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