Janet Echelman elevando a imaginação às alturas: do artesanal ao tecnológico

Por: Nubia Najar

Figura 1: Janet Echelman segurando um de seus trabalhos. 
Créditos da Imagem: https://blog.grafittiartes.com.br/

A artista Janet Echelman desafia o espaço aéreo urbano ao transformá-lo em um palco elevado ao ar livre por meio de suas esculturas monumentais. Estas obras são dinamicamente moldadas pela interação do som e da ação do vento, proporcionando uma coreografia original em constante mudança. A tríade de arte, natureza e tecnologia impulsiona Echelman a desenvolver projetos que exploram a fluidez dos movimentos, interagindo com as forças naturais do vento, água e luz solar.

Janet nasceu na década de 60 na cidade Tampa – Florida, formou-se na universidade de Harvard, e iniciou sua carreira artística após concluir sua formação acadêmica. Em 1987, viajou para Hong Kong para estudar caligrafia chinesa e pintura com pincel. Posteriormente, mudou-se para Bali, na Indonésia, onde colaborou com artesãos locais para integrar métodos têxteis tradicionais com técnicas de pintura contemporânea.

Após perder sua residência de bambu em Bali devido a um incêndio, Echelman retornou aos Estados Unidos e começou a ensinar na Universidade de Harvard. Após sete anos como Artista Residente, em 1997 embarcou para Mahabalipuram, Índia, impulsionada por uma bolsa do Programa Fulbright para ensinar pintura e expor suas obras. Apesar dos materiais de pintura não terem chegado conforme o esperado, isso não a desanimou. Em uma caminhada pela praia de Mahabalipuram, deparou-se com redes de pesca entrelaçadas sobre a areia, um cenário que capturou sua imaginação. Inspirada pela habilidade dos pescadores locais em tecer redes, encontrou sua musa na arte da tecelagem improvisada das redes, transformando essa observação em uma nova forma de expressão artística.

Janet aplicou sua criatividade à arte, concebendo esculturas inspiradas nos padrões derivados das práticas tradicionais locais. As obras são adornadas com nós meticulosamente tecidos à mão, em colaboração com os pescadores da região. Desta forma, suas primeiras esculturas emergiram desse processo colaborativo tradicional. Encantada com os resultados, Janet passou a criar obras fluidas e delicadas, utilizando fibra sintética de alta resistência, projetadas especialmente para espaços públicos.


Figura 2- Primeira escultura criada com nós feitos a mão. Wide Hips- (Quadris largos) 1997.

Créditos da Imagem: https://arthur.io/art/janet-echelman/wide-hips

A artista em uma palestra declara; “A minha primeira escultura perfeita foi feita em colaboração com os pescadores de Mahabalipuram. É um autorretrato denominado Wide Hips (Ancas Largas). Nós erguemo-la em postagens para fotografar. Descobri que como suas superfícies suaves revelavam cada oscilação do vento em padrões que eram alterados continuamente. Fiquei hipnotizada.  Continuei a estudar as tradições artesanais e a colaborar com artesões, depois na Lituânia, com os peritos em renda.  Gostei do detalhe delicado que isso dava ao meu trabalho, mas quis aumentá-las – passar de um objeto para o que você olha, para algo em que nos imaginamos perder.”

Fonte: TED – Ideias mudam tudo, 2011 https://www.ted.com/talks/janet_echelman_taking_imagination_seriously/transcript?language=pt&subtitle=en/

Nessa perspectiva, Yuk Hui (2020) no prefacio do livro Tecnodiversidade defende a necessidade de um diálogo transversal entre diferentes culturas, onde cada uma pode aprender com a modernidade ocidental sem perder sua própria identidade cultural. Isso implica uma abertura para explorar cosmotécnicas indígenas e não ocidentais como fontes de inspiração para repensar e redesenhar a tecnologia contemporânea de maneira mais inclusiva e sustentável.

Nesse sentido, percebemos que as criações permanentes e temporárias são influenciadas pelo artesanato ancestral, incorporando tecnologia para gerar obras dinâmicas e fluidas que interagem com as forças naturais. Esses espaços esculturais incorporam a identidade local e incentivam uma conexão pessoal e interativa entre as pessoas, a arte e o ambiente circundante.

Figura 3: Incorporação dos intricados padrões de renda tradicional lituana na concepção da obra.LIT_Echelman_PhotoStudioEchelman_sl021_GJH.jpg

Trying to hide with your tail in the air (Tentando se esconder com o caudo no ar) Vilnius, Lituânia, 1998.

Créditos da Imagem: https://www.echelman.com/#/project/trying-to-hide-with-your-tail-in-the-air/

Localizada no Museu do Centro da Europa, em Vilnius, Lituânia, esta escultura, figura:3, integra motivos tradicionais da renda lituana em uma estrutura tridimensional suspensa entre árvores no museu de escultura ao ar livre. Os materiais utilizados na criação incluem renda de náilon feita à mão, aço inoxidável, tinta esmalte, cabo de aço e dois carvalhos. Suas dimensões são de 30 pés de altura por 12 pés de largura e profundidade.

A obra intitulada She Changes, 2005, figura 4, foi concebida para Beira-mar, Cidade Salvador Plaza, Porto e Matosinhos, Portugal. Utilizando cores e materiais para evocar a memória histórica do local como centro pesqueiro e industrial, esta rede tridimensional multicamadas flutua sobre a Praça Cidade Salvador. Reconhecida como a primeira escultura pública monumental e permanente a empregar um conjunto de membranas inteiramente macias e flexíveis que se movem de forma fluida com o vento, a obra projeta padrões cinemáticos de sombras no solo, intensificando a “coreografia do vento”. 

Figura 4: She Changes, (Ela Muda) 2005 – Porto, Portugal.

Créditos da Imagem: João Ferrand, David Feldman, Daniel Coulon, Tiago Nogueira

A escultura tornou-se um símbolo gráfico da cidade, inspirando diferentes interpretações entre os moradores, que veem nela referências que vão desde redes de pesca, navios e mastros da história marítima portuguesa, até às chaminés listradas de vermelho e branco do passado industrial da região, e às rendas portuguesas e formas aquáticas.

No link você assiste a instalação da obra She Changes > https://www.youtube.com/watch?v=yFDsOabxm94

Para sua quarta exposição, o Earthtime 1.26 foi instalado em Cingapura, sobre Marina Bay, como parte do festival bienal iLight. Janet Echelman concebeu o Earthtime 1.26 logo após o terremoto no Chile em 2010, inspirada pelos dados da NASA que registraram os efeitos do terremoto na rotação terrestre. As vibrações resultantes aceleraram brevemente a rotação da Terra, reduzindo a duração do dia em 1,26 microssegundos. Esse evento foi o ponto de partida para sua obra de arte, envolvendo seu estúdio e uma equipe diversa de engenheiros destacados, designers de iluminação, cientistas da computação e arquitetos para conceber a peça que inaugurou a Série Earthtime de Echelman.

Figura 5: Tempo Terrestre 1,26 Cingapura, 2014.

Uma imagem contendo luz, aceso, rua, tráfego

Descrição gerada automaticamente

Crédito da imagem: Autoridade de Desenvolvimento Urbano (URA), Cingapura

A escultura é feita inteiramente com materiais leves e flexíveis, permitindo que seja amarrada diretamente em estruturas existentes sem precisar de suportes extras. Suas formas ondulantes são animadas pelo vento, destacando-se das superfícies rígidas dos prédios ao redor. À noite, luzes coloridas fazem com que a escultura pareça flutuar e brilhar.

A obra adquire novos significados em cada local onde é instalada, pois diferentes cidades agregam novos contextos à narrativa do Earthtime 1.26. A artista desenvolveu uma paleta de cores única para cada instalação, permitindo-lhe expressar o clima e o conteúdo específico de cada localidade. Até o momento, a escultura Earthtime 1.26 foi instalada em 15 cidades em 4 continentes: Denver, Colorado (2010), Sydney, Austrália (2011), Amsterdã, Holanda (2013), Cingapura (2014), Montreal, Canadá (2015, 2016). , 2017), Praga, República Tcheca (2015), Durham, Reino Unido (2015), Santiago, Chile (2016), Xangai, China (2017), Chiayi, Taiwan (2018), Hong Kong, China (2018), Genebra, Suíça (2020), Munique, Alemanha (2021), Jeddah, Arábia Saudita (2021) e Milão, Itália (2022).

Click no link para visualizar a palestra de Janet Echelman proferida no TED “Levando a imaginação a sério” foi traduzida para 35 idiomas, com mais de dois milhões de visualizações.

O trabalho de Echelman desafia categorizações convencionais, integrando Cultura tradicional, Escultura, Arquitetura, Design Urbano, Ciência dos Materiais, Engenharia Estrutural, Aeronáutica e Ciência da Computação.

________________________________________________________________________________________________________________________

REFERÊNCIAS:

HUI, Yuk. Tecnodiversidade. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

Janet Echelman apresenta sua maior escultura em Vancouver. ArchDaily Brasil. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/01-187251/janet-echelman-apresenta-sua-maior-escultura-em-vancouver/53233648c07a805cd800016c-janet-echelman-s-largest-aerial-sculpture-to-premiere-in-vancouver-photo?next_project=no. 

As obras quase hipnóticas de Janet Echelman. Dezaine. Disponível em: https://www.dezaine.co.mz/inicio/as-obras-quase-hipnoticas-de-janet-echelman. 

A instalação com 360.000 nós de Janet Echelman. Portfolio Lovers. Disponível em: https://portfoliolovers.com/posts/a-instalacao-com-360-000-nos-de-janet-echelman. 

Janet Echelman. ArchDaily Brasil. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/tag/janet-echelman. 

Janet Echelman. Arts at MIT. Disponível em: https://arts.mit.edu/people/janet-echelman/. 

Janet Echelman. Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/janetechelman/. 

Janet Echelman. Site oficial. Disponível em: https://www.echelman.com/. 

Sobre Janet Echelman. Site oficial. Disponível em: https://www.echelman.com/about. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *