Nave Espacial Terra?

Por: Amanda Patron

Figura 1: Matjaz Tancic.  Mars on Earth. 2019. Fotografia

Fonte: PH Museum

Muito tem se falado no “fim do mundo”, seja a partir de suas possíveis causas e consequências, seja de maneira fatalista, como se só nos restasse decidir o que faremos com os últimos anos que possuímos. Esses discursos são usualmente empregados como uma forma de denúncia política, e buscam expor os perigos cada vez mais evidentes do capitalismo tardio e seus “tentáculos”: o extrativismo desenfreado, a falta de preocupação ecológica e os diversos procedimentos tecnológicos que os acompanham constantemente, e que têm acarretado na poluição colossal do planeta Terra. De certo, pesquisadores e militantes, cada qual com suas práticas, têm investido consideravelmente na difusão de tais reflexões, a fim de colaborar para o avanço das pautas ecológicas e anticapitalistas antes que tudo esteja, de fato, perdido.

No entanto, vejo poucas reflexões acerca do que faríamos no caso do eventual desastre vir a acontecer. Embora possa parecer, nesse primeiro momento, um exercício barato de “futurologia”, penso que é preciso, também, direcionarmos nossos esforços para esse outro espaço-tempo possível. Digo isto porque, justamente, é também no controle de qual mundo poderíamos construir (ou reconstruir) que reside meu problema. Não me volto para tal discussão pensando na imaginação de futuros possíveis mas, sim, em peças do tempo presente que já estão dispostas no tabuleiro do espaço-tempo, de frente para quem apenas aguarda o momento exato para dar o xeque-mate. 

Há, espalhados pelo globo, cinco projetos sendo desenvolvidos ‒ especificamente por iniciativas privadas ‒ para investigar, treinar e desenvolver “micro-sociedades” capazes de sobreviver em Marte, ou, até mesmo na Terra, se as condições de vida e a natureza mudarem drasticamente. Os Space Colony Research Centers [Centros de Pesquisa de Colônias Espaciais], comumente chamados de “bases-colônias”, realçam uma problemática já dada desde o início do colonialismo: abordam o possível colapso do planeta com ferramentas exclusivas (e excludentes), ao mesmo tempo em que escondem vínculos alicerçados no colonialismo moderno (Ferdinand, 2022). Isto é, como aponta Malcom Ferdinand, em Uma ecologia decolonial, a criação de uma base-colônia evidencia a crise ecológica e ambiental do planeta Terra concomitante ao apagamento das estruturas que levaram à tal crise. São, antes de mais nada, situadas “fora-do-mundo” (Ferdinand, 2022) e servem, sim, ao desenvolvimento científico mas servem, ainda mais, a uma pretensão de universalidade do humanismo ocidental, ou seja, separam deliberadamente o mundo em que vivemos do mundo que já foi criado, e voltam, assim, seus olhares para um outro mundo-novo. Portanto, admitem o fracasso das práticas colonialistas no mundo atual e, simultaneamente, “profetizam” um mundo-outro cujas mesmas práticas nocivas fundamentam sua fabricação. 

Desse modo, os movimentos feitos para que seja factível sair da Terra rumo a outro planeta são formados por um conjunto de questões complexas e contraditórias, que, embora possam partir de aspirações sociais “conscientes”, acabam constantemente pautados e controlados por um aglomerado de interesses políticos ligados ao militarismo, nacionalismo, à obtenção de capital financeiro e ao progresso tecnológico das grandes empresas do norte global. Além disso, sabemos que a maior parte da população, tida como minoria, jamais se beneficiou dos êxitos tecnológicos (Patron, 2023). E na Corrida Espacial não foi diferente. 

Neste sentido, devemos recobrar o que Marshall McLuhan afirmou em 1974 sobre o lançamento do satélite Sputnik (1957) “foi o marcador do fim da natureza e, por consequência, do começo da ecologia. Isto é, a própria Terra havia se tornado, naquele momento, um objeto técnico” (Hui, 2020). 

A partir de tal asserção, aproveito para retomar a referência que dá título a este texto, o conceito de “Espaçonave Terra”, de Buckminster Fuller (1895 ‒ 1983). Fuller acreditava que todos os seres humanos formam uma única tripulação na Terra, e que, para a nave funcionar com sucesso, seria necessário que todos trabalhassem em conjunto. Ademais, ao idealizar também que a tecnologia deveria melhorar a vida das pessoas, Buckminster Fuller esperava que, eventualmente, os recursos do planeta fossem “equitativamente divididos e as pessoas no mundo todo alcançassem um alto padrão de vida, com acesso à moradia e transportes”. Fica evidente, em seus escritos, uma preocupação para com os altos índices de pobreza no mundo (Patron, 2023), pois, os governos que possuem orçamentos abundantes frequentemente preferem investir em tecnologias militares, como é o caso dos Estados Unidos e também Israel. 

As idealizações de Fuller ensaiam o que Yuk Hui veio a chamar de tecnodiversidade (2020).  Isto é, pensar em estratégias divergentes acerca do desenvolvimento tecnológico, ressituando seu suposto surgimento, sua (igualmente suposta) “evolução” linear, seus usos e aplicações. As bases-colônias, justamente, possuíam potencial de subversão em suas ideações, pois poderiam servir à quebra de paradigmas como o nacionalismo e a noção cada vez mais presente de tecnocracia. Contudo, acabaram por se tornar espaços de escassez para os trabalhadores, além de continuamente utilizarem recursos naturais em função do progresso de suas pesquisas.

Desde 2019, o artista Matjaz Tancic (Ljubljana, 1982), visita e fotografa bases-colônias em diversos países como a China, Japão, Estados Unidos e Polônia, a fim de observar como as pessoas que habitam esses locais vivem. C Space, localizada no Deserto de Gobi, na China, é uma das instalações investigadas por Tancic. Por ser uma base de simulações analógicas, os treinamentos na C Space são realizados por meio de interações reais entre pessoa e paisagem (Patron, 2023), ou, melhor, entre indivíduo e espaço, seja ele artificial ou natural. Por vezes, os espaços são, na verdade, uma simbiose entre os três, o que pode convergir com o entendimento de ecologia proposto por Hui. As relações humano-artificial, humano-natural e artificial-natural perpassam todas as imagens na série de Tancic; um embaralhamento notado pelo artista, sim, mas produzido muito anteriormente, como apontam tanto Ferdinand (2022) quanto Hui (2020). E, todavia as bases-colônias possam existir em não-lugares, elas mantêm e reforçam diversas lógicas da questão do colonialismo ecológico (inclusive na forma como são chamadas). 

      Figuras 2 e 3:  Matjaz Tancic. Mars on Earth. 2019. FotografiaInterface gráfica do usuário, Aplicativo, Word, Site

Descrição gerada automaticamente

 Fonte: PH Museum

Figura 4: Matjaz Tancic. Mars on Earth. 2019. FotografiaJanela de vidro

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

Fonte: PH Museum

Para o artista, esta é uma “nova corrida espacial, mas o resultado final provavelmente será colaborativo” e completa que está interessado “nos jogadores menos conhecidos, mas não menos dedicados […]: os visionários idiossincráticos, muitas vezes sem dinheiro, trabalhando nas áreas cinzentas da lei, que estão desenvolvendo tecnologias para viagens e exploração espacial” (Tancic, 2019). Ao voltar seu olhar para o “comum” em meio ao “incomum”, as imagens de Tancic evidenciam os problemas do progresso tecnológico desenfreado, isto é, o artista inverte, justamente, as posições de comum e incomum, o que pode acarretar em uma reflexão acerca das estruturas que nos cercam. Os humanos são parte do meio, tanto que por vezes parecem consumidos pelo seu entorno (figuras 2 e 3), visual e literalmente, construção que é realizada pelo artista em função do enquadramento das imagens. E quando, por exemplo, observamos um robô do modelo VITA (que auxilia médicos e cirurgiões a realizar tarefas de forma remota) “posando” para o fotógrafo (figura 4), podemos questionar se isso também não é, de alguma maneira, o ser humano sendo consumido pelo meio?

De todas as fotografias da série, me debruço um pouco mais sobre aquelas (figuras 4 e 5) que, aparentemente, menos se relacionam com o tema do trabalho de Tancic: as pinturas rupestres datadas de 2 mil anos AEC, localizadas no Cânion Horsehsoe em Utah, Estados Unidos. O cânion é palco “de uma das manifestações mais antigas dos seres humanos e, também, das manifestações mais voltadas para o futuro, abrigando tanto as pinturas rupestres como a Mars Desert Research Station, base-colônia em Utah que simula a colonização do planeta vermelho” (Patron, 2023); e a imagem de um “saco preto” estendido no chão, ou seja, o saco específico para cadáveres e, a seu lado parte do corpo de uma pessoa em trajes de astronauta, estirado, como se estivesse morto. A segunda imagem mostra o treinamento médico realizado em uma das bases-colônia em Los Angeles, nos Estados Unidos. Relembro o que observei quando escrevi sobre este trabalho na dissertação de mestrado: “a fotografia das pinturas rupestres e a fotografia do ‘cadáver’, são as que nos lembram, de fato, que ainda estamos na Terra. Ambas expõem o mundano, aquilo que não poderia ser mais terrestre: como a passagem do tempo, a efemeridade dos seres humanos frente à natureza, e a própria morte” (Patron 2023). Por fim, tendo em mente que um dos principais motivos que levaria à colonização de outro planeta pela “humanidade” é, ela mesma ser, hoje, incapaz de impedir o fim do seu próprio mundo, me pergunto: ao “conquistar” a natureza e, quiçá, a morte em si, o que nos impediria de destruir mundos novos? 

Figuras 5 e 6: Matjaz Tancic. Mars on Earth. 2019. Fotografia

Fonte: PH Museum

Referências


FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu Editora, 2022. Trad. Letícia Mel. 320 p. 

FULLER, Buckminster. Grunch of Giants. Paris: St. Martins, 1983. 

What is Spaceship Earth? Stanford Libraries. Disponível em <https://exhibits.stanford.edu/bucky/feature/what-is-spaceship-earth> Último acesso em 11 jul. 2024

HUI, Yuk. Tecnodiversidade. São Paulo: Ubu Editora, 2020. Trad. Humberto do Amaral. 

192 p. 

_________. Entrevista concedida à Viento Sur. 25 ago. 2020. Trad. Cepat. Disponível em <https://www.ihu.unisinos.br/categorias/602272-a-tecnodiversidade-implica-pensar-divergencias-no-seio-do-desenvolvimento-tecnologico-entrevista-com-yuk-hui> Último acesso em 11 jul. 2024

PATRON, Amanda. O Futuro está Presente: sobre imagens da exploração espacial na arte contemporânea. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais, com ênfase em História, Teoria e Crtícia de Arte) ‒ Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2023. 143 p. TANCIC, Matjaz. Mars on Earth. Disponível em <https://phmuseum.com/projects/mars-on-earth> Último acesso em 11 jul. 2024

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