Por Sebastião de Oliveira Filho
Cerca de 14 anos, o artista irlandes John Gerard se interessou por combustível fóssil, principalmente, o petróleo que utiliza em temas específicos no seu processo criativo como manchas derramadas sobre a água e combustão do combustie mesmo, transformando-os elementos estéticos em 3D.
A diminuição das condições de sobrevivência no Antropoceno é algo assustador, como já dizia Bruno Latour. Isso nos faz refletir quanto ao uso inadequado dos recursos de geração de energia disponíveis no planeta. A exploração de petróleo, por exemplo, uma das principais fonte de energia que temos vem conduzindo ao extermínio da humanidade. Os mudanças climáticos que vem ocorrendo nos últimos tempos são a prova incontestável de que algo está errado em nosso planeta. Precisamos, urgentimente, encontrar soluções racionais para que possamos compreender que vivemos em um sistema único de interrelações entre os seres humanos e não humanos e que há meios para nossa sobrevivência.

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A exploração de petróleo como forma de ‘desenvolvimento’ é uma das principais causas das mudanças climáticas que enfrentamos na atualidade. No entanto, o artista John Gerard, aproveitando esse descompasso, capta imagens dessas ocorrências e transforma-as num magnetismo de cores e de combustão impensável. Segundo o crítico Robin McKay, “repensando o monumentalismo da land art na era do Google Earth e agora explorando uma arena expandida de coreografia e performance , a forma inovadora do trabalho de John Gerrard acompanha a sutil complexidade do seu tema. No mundo contemporâneo, as simulações já não são apenas cópias de segunda mão, mas são cada vez mais tanto o motor como o piloto automático do lazer, da economia, da política e da guerra. O trabalho de Gerrard oferece-nos retratos deste mundo através do prisma do seu próprio meio tecnológico: utilizando o próprio software que permite as operações de entretenimento, indústria e guerra”.
John Gerrard nasceu em 20 de julho de 1974, é um artista irlandês mais conhecido pelas suas esculturas que são formas de simulações digitais expositivas através de computação gráfica 3D em tempo real. Essa tecnologia, originalmente, desenvolvida para uso militar é, agora, amplamente utilizada na indústria de videojogos.

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A utilização de tecnologia digital avançada, o trabalho de Gerrard tem-se distinguido pela sua resistência a ser classificado como “arte dos novos media”. O próprio Gerrard considera que o 3D em tempo real é “um meio pós-cinematográfico em que se pode manipular e interagir com o tempo de novas formas”.
Segundo o artista, seu trabalho constitue numa reflexão contínua sobre o seu próprio tempo em que frequentemente aborda representações do que nos move, destacando as estruturas do poder como forças que ditam as nossam vidas. Nesse caso específico, ele exemplifica a má manipulação de combustível, o derramento de óleo no rio que, segundo ele, o fascínio e a beleza da gasolina os atrai, apesar do produto ser tóxico e perigoso. Em 2022, lançou “Petro National, uma nova série NFT” que compreende 196 obras generativas únicas.
Os NFTs Petro National apresentam contornos de diferentes países e regiões, que são representados como manchas brilhantes de gasolina no oceano mundial. Na sua essência, o projecto examina o impacto global da queima de 100 milhões de barris de petróleo por dia e as formas como o consumo de energia se tornou um símbolo de poder político, abordando explicitamente a disparidade no consumo de petróleo entre o norte e o sul globais.

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Cerca de 14 anos, o artista se interessou por gasolina na água. O magnetismo dos do arco-íris e as cores provocadas pelas manchas da gasolina derramadas sobre a água, tornaram-se elementos importantes em seu processo criativo. Nessa série, sua poética se dá por meio de tiragem fotográfica de gasolina na água e com a ajuda do programador, Helmut Bressler, foram analisadas algoritmicamente. Ele fez uma simulação básica da água utilizando um algoritmo de refração de película fina, uma solução da física para modelar a realidade de quatro grandes bacias continentais que foram escolhidas por ele: o Danúbio, na Europa; o Amazonas, na América do Sul; o Nilo, na África e o Yangtze, na Ásia.
De acordo com o artista, para cada margem do rio escolhido, foram analisados os locais, como a cor e o movimento da água, o que lhe permitiu ressignifica cada obra, apresentando uma particularidade. Exemplo disso, foi quando no seu processo de investigação, o artista confirmou a coloração azul do Rio Danúbio. De acordo com ele, a simulação algorítmica de milhões de raios de luz realizada nesse processo, atinge uma película fina sobre a água. A gasolina sobre a água reflete um espectro específico de aspeto metálico e brilhante.

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Por conseguinte, a série ‘World Flag’ compõe de 195 bandeiras nacionais renderizadas em fumaça virtual colorida. Cada bandeira é colocada em um futuro deserto fictício gerado exclusivamente usando frequências, formas, cores e céus baseados em código. De acordo com o artista, a série “World Flag” apresenta “um futuro partilhado, mas sombrio e profundamente injusto, no qual as contínuas falhas governamentais e legislativas, juntamente com a degradação ambiental e a má gestão, tornaram o Estado um fantasma, uma aparição de si mesmo. A ‘World Flag’ é reimaginada como um sinal militarista para uma ordem política local condenada.
Todas as 195 bandeiras mundiais da série são geradas a partir de um script de 112 KB armazenado na cadeia. Este script usa o protocolo WebGL (linguagem gráfica da web), um novo meio que permite que mundos de dados visuais complexos sejam renderizados diretamente no navegador da web. Quando distribuída usando o mecanismo blockchain e visualizada em dispositivos eletrônicos móveis, a obra e o meio propõem uma experiência de arte pública global – pós-lugar, pós-geografia.

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Cada um dos 195 NFTs da ‘World Flag’ representa a bandeira de um membro diferente da ONU em meio a um dos quatro desertos futuros que falam das ameaças da crise climática – essas paisagens incluem areia, cinzas, lama rachada e desertos de cascalho, todos gerados aleatoriamente e usando exclusivamente frequências, formas, cores e céus baseados em código. Nestas cenas, que se passam num futuro distante, as bandeiras dos vários países representam uma infra-estrutura global perdida, e as paisagens podem ser entendidas como espectros do passado, de uma ecologia global esgotada.
O artista que realizou inúmeras exposições traz um fragmento dessas mostras que encantou um público do mundo inteiro. Em destaque, as exposições individuais em instituições como o Los Angeles Country Museum of Art (LACMA); Centro Ullens de Arte Contemporânea, Pequim; Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid; Somerset House, Londres, em associação com a televisão Channel 4; Museu Hirshhorn e Jardim de Esculturas, Washington DC; Lincoln Center, Nova York, em associação com o Public Art Fund; Arte Moderna Oxford, Reino Unido; e Galway International Arts Festival, Irlanda, entre outros.

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Ele também participou também de mostras coletivas recentes que incluem Okayama Art Summit, Japão; Manifesta 12, Palermo; 13ª Bienal de Gwangju, Coreia do Sul; 23ª Bienal de Sydney, Austrália; 11ª Bienal de Xangai; Deserto X, Palm Springs; e Faking the Real no Kunsthaus Graz, Áustria. Seu trabalho está nas coleções da Tate, Londres; MoMA, Nova York; SFMOMA, São Francisco; LACMA, Los Angeles; Museu e Jardim de Esculturas Hirshhorn, Washington DC; Kistefos, Noruega; IMMA, Dublim; Borusan Contemporâneo, Istambul; e M+, Hong Kong.
De um currículo invejável, Gerrard obteve um BFA na Ruskin School of Drawing and Fine Art, Universidade de Oxford. Durante este período, fez as suas primeiras experiências com digitalização 3D como forma de fotografia escultural. Realizou estudos de pós-graduação na School of The Art Institute of Chicago e no Trinity College, em Dublin, e em 2002 foi-lhe atribuída uma Residência Pépinières na Ars Electronica, em Linz, onde desenvolveu os seus primeiros trabalhos em computação gráfica 3D em tempo real. Em junho de 2009, iniciou uma residência convidada de seis meses na Rijksakademie van Beeldende Kunsten, Amesterdão. Durante 2012 foi Legacy Fellow no Magdalen College, Oxford, trabalhando em Exercise (Djibouti) 2012, uma encomenda para a Modern Art Oxford e o London 2012 Festival.

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REFERÊNCIAS
ART AT A TIME LIKE THIS. Unpredictable: John Gerrard. Disponível em: https://artatatimelikethis.com/unpredictable/john-gerard. Acesso em: 20 ago. 2024.
ARTNET NEWS. John Gerrard World Flag: Pace Verso Art Blocks. Disponível em: https://news.artnet.com/market/john-gerrard-world-flag-pace-verso-art-blocks-2328687. Acesso em: 20 ago. 2024.
GERARD, John. Site oficial. Disponível em: https://www.johngerrard.net/. Acesso em: 20 ago. 2024.
GERARD, John. Worldflag. Disponível em: https://www.johngerrard.net/worldflag.html. Acesso em: 20 ago. 2024.
LATOUR, Bruno. Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no antropoceno. São Paulo: UBU e Ateliê de Humanidades editoras, 2020.
PACE GALLERY. John Gerrard: Petro National. Disponível em: https://www.pacegallery.com/journal/john-gerrard-petro-national/. Acesso em: 20 ago. 2024.PACE GALLERY. John Gerrard | Artista. Disponível em: https://www.pacegallery.com/artists/john-gerrard/. Acesso em: 20 ago. 2024.