Por: Mariene Mendonça de Freitas
A relação atual da civilização com a terra encontra-se em conflito no que desrespeito às transformações físicas, biológicas e geológicas e suas consequências mediante à própria vida humana no planeta. Segundo Latour, o que vivemos neste século XXI é resultado de sucessivas transformações operadas pelo homem e que hoje, diante de uma gaia a tanto transformada tem pago um preço que se traduz nas catástrofes naturais que vemos a cada vez mais sendo noticiadas. Bruno Latour afirma que “Hoje, cada elemento do solo, do ar, do mar e dos rios resulta, em grande medida, de modificações, criações e invenções de organismos vivos.” Apesar de estas modificações engendradas e operadas sucessivamente na natureza da terra, a esta estamos emaranhados em seus aspectos natural e cultural, e inevitavelmente nos relacionamos com as condições físico-químicas e geológicas com as quais a terra encontra-se hoje.
Apesar das mudanças na terra e suas consequências em forma de desastres serem fatos amplamente noticiados, desde os anos 90 há o interesse político em lançar dúvidas sobre eles, de modo a fazer com que as mudanças climáticas e suas consequências não sejam pautas políticas e nem um clamor popular absoluto capaz de fazer pressão às grandes empresas a fazerem mudança em seus meios de produção e emissão de Co2.
A arte diante desse conflito entre o “homem e a terra”, pode se fazer valer de sua capacidade de transformação e interação. Se a terra se modificou pelo homem e reage de forma a ser implacável em sua força, também pode ser incorporado este agir na própria obra de arte. A artista Cristina Oiticica tem se utilizado das intervenções da terra e demais elementos da natureza de forma a integrar e fazer interagir a arte e a terra. Cristina Oiticica é uma artista visual brasileira nascida no Rio de Janeiro em 1951 e desde 2003 desenvolve um trabalho artístico que reúne pintura, performance e intervenções da natureza e seus elementos. O processo artístico de Cristina correlacionado às “mãos” da natureza teve início em 2003 quando a artista foi morar na França e residia em um pequeno quarto de hotel, devido a falta de um ateliê de arte a mesma trabalhava ao ar livre, foi nessa circunstância que um dia uma de suas pinturas ao ficar exposta do lado de fora acabou tendo intervenções de insetos e folhas na tinta fresca alterando assim a obra com manchas e novos elementos que lhe foram acrescentados naturalmente, foi a partir de então que Cristina Oiticica percebeu que a natureza e seus elementos traziam intervenções em suas pinturas que poderiam ser integradas ao seu processo de trabalho artístico e a mesma passou a usar a natureza como elemento simbólico e introdutor de mudanças estéticas em sua arte pictórica.
Figura 1: Pintura de Cristina Oiticica após ter sido enterrada na Amazônia e ficado submersa em enchente.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=9yWb4TxwsXg&t=917s
Sobre este processo a artista ressalta que a natureza completa a sua obra, sendo sempre uma surpresa os resultados estéticos nas pinturas após estas passarem pelas ações da natureza. O processo de trabalho de Cristina envolve a realização de pinturas e as exposições das mesmas ao ar livre, em florestas, leitos de rios ou enterradas sob a terra, a artista se utiliza de períodos simbólicos de tempo para desenterrar as obras, como nove meses (tempo de uma gestação humana) ou doze meses (período em que se desenvolve as quatro estações), somente após este processo as obras participam de exposições. Além da interferência estética no envolvimento do trabalho de Cristina com a natureza, a terra, a artista afirma que há a questão energética, a obra recebendo e trocando energia com a terra.
Figura 2: Pintura de Cristina Oiticica após ter sido enterrada na Amazônia e ficado submersa em enchente.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=9yWb4TxwsXg&t=917s
As pinturas realizadas por Cristina envolvem ainda a apresentação de uma ação performática no ato de retirar as obras da natureza, ação esta que pode ser coletiva entre a artista e o público ou feita apenas por ela mesma. As obras de Cristina Oiticica já foram expostas em diferentes países, como Brasil, Portugal, França e Suíça, sendo este último o país em que reside.
Dentre os primeiros trabalhos criados pela pintora que vieram a explorar a relação da natureza com a sua arte citamos o trabalho desenvolvido na Amazônia entre os anos de 2004 e 2005.Para o desenvolvimento deste trabalho cujo documentário está disponível no canal oficial da artista no Youtube (link: https://www.youtube.com/watch?v=9yWb4TxwsXg) visitou comunidades ribeirinhas às margens do Rio Negro no Amazonas e desenvolveu na comunidade chamada Betânia o processo de enterrar suas pinturas que ficaram sob a terra por um ano inteiro. No retorno da artista ao local para a retirada das obras que estavam sob o solo, um fator que causou espanto a esta foi a dificuldade de desenterrar as obras após os doze meses em que ficaram expostas às ações da natureza, posto que no retorno da artista ao local em que as obras haviam sido enterradas o terreno tinha sido alagado por uma enchente, fazendo com que a localização das pinturas fosse mais difícil e a umidade inesperada do solo viesse a interferir ainda mais nas pinturas.
Figura 3: Pintura de Cristina Oiticica enterrada com folhas em comunidade da Amazônia
Figura 4: Pintura de Cristina Oiticica enterrada com folhas em comunidade da Amazônia
Figura 5: A Artista Cristina Oiticica realizando pinturas com indígenas em uma comunidade na Amazônia em 2005. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=9yWb4TxwsXg&t=917s
Figura 6: Pinturas de Cristina Oiticica que passaram por processo intervenção na natureza já emolduradas para exposição em 2005.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=9yWb4TxwsXg&t=917s
Sobre a nossa relação com a terra e suas alterações Latour afirma que os proclamados humanos estão irremediavelmente emaranhados nas transformações materiais com os outros seres vivos, neste sentido a obra de Cristina Oiticica se transforma e entrelaça de maneira simbólica e estética com os processos da natureza, como se sua arte fosse em si mesma um elemento que faz parte de um percurso orgânico de mudanças, ao integrar os processos orgânicos da terra em sua arte em pintura Cristina se desencontra com a degradação e colapsos da natureza neste milênio que a partir da modernização, segundo Latour. A obra de Cristina está ao alcance dos processos da natureza, seus percursos , suas surpresas e sua essência, no retrabalho realizado na Amazonia ao se deparar com as obras em um terreno que fora alagado por uma enchente a artista apesar de demonstrar surpresa com o ocorrido e se mostrar consciente de que algumas obras iriam se perder, também deixou claro que as águas trariam ainda mais elementos e modificações às pinturas. A ação da terra e seus elementos assim como de um modo geral toda a vida se entrelaça num próprio percurso.
Referências
LATOUR, Bruno. Diante de Gaia. São Paulo:, 2020.
OITICICA, Christina. Site oficial. Disponível em: https://christinaoiticica.com.br/. Acesso em: 29 ago. 2024.
Christina Oiticica – Floresta Amazônica, Amazon Rainforest (2004-2005). YouTube, 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9yWb4TxwsXg. Acesso em: 29 ago. 2024.