Por Carina Dias

Giselle Beiguelman é web artista, artista digital, pesquisadora, crítica de arte, professora universitária, editora e curadora. Suas pesquisas abordam a produção e a preservação de arte digital, arte e ativismo na cidade e as estéticas da memória no mundo contemporâneo. Foi editora-chefe da revista Select de 2011 a 2014 e é colunista da Rádio USP e da revista Zum. Desenvolve projetos de intervenções artísticas no espaço público e com mídias digitais. É professora associada da FAU – USP e foi coordenadora do seu curso de Design de 2013 a 2015.
Em 1984, graduou-se em história na FFLCH–USP e, em 1991, doutorou-se em história social pela mesma instituição. É membro do Laboratório para Outros Urbanismos (FAU-USP) e do laboratório interdisciplinar Image Knowledge, da Humboldt-Universität zu Berlin, e coordenadora do Gaia (Grupo de Arte e Inteligência Artificial do Inova–USP).
CoroNews, 2022
Em CoroNews, vídeo-arte digital de 1’50”, Beiguelman utiliza-se das plataformas digitais e seus recursos, criando um contundente vídeo, a partir do embaralhamento de códigos de programação de notícias em mídia digital, acerca das falas criminosas do presidente Jair Bolsonaro sobre o corona vírus no Brasil. Nas imagens, que saltam freneticamente aos olhos do espectador, frases do ex-presidente são exibidas em estado de pane e caos, deflagrando a própria ineficiência de seu governo. Instaura-se uma atmosfera de alerta, alucinante tal como a resposta do sistema imunológico humano a uma infecção.


Neste vídeo, a artista articula as noções de arte, natureza e tecnologia na medida que, sua criação utiliza as mídias digitais, tanto como matéria prima e linguagem, mas também como suporte de exibição, para denunciar a crise sanitária da covid-19, a qual foi fruto de uma crise ecológica. A Covid-19 foi marcada como a doença do Antropoceno, enunciando sua relação direta com o desequilíbrio ecológico. Os processos excessivos e violentos de extrativismo que a humanidade tem inferido contra o ecossistema planetário e a disseminação de diversas espécies selvagens, acabaram por reduzir significativamente a biodiversidade da Terra. Essa perda de florestas, de vegetação e de animais propiciam então, o aumento e a capacidade de infecção por vírus letais ao homem. Antropoceno, porque é a era geológica modelada pela ação do homem, como nos aponta a própria artista.
E pela ação de sua própria mão, Beiguelman impõe um embaralhamento de códigos ao universo digital, em uma operação semelhante à de um vírus que, na biologia, infecta e reconfigura o código genético de suas células-alvo. Também provocativo é o titulo do trabalho, ao propor um trocadilho com fake news, tipo de informação sem profundidade científica e compromisso ético, disseminada como um vírus pela internet.
Suas obras integram acervos de museus no Brasil e no exterior, como o ZKM e o Jewish Museum Berlin, na Alemanha; o Latin American Collection – Essex University, na Inglaterra; o Yad Vashem, em Israel; e o MAR, o MAC-USP e a Pinacoteca de São Paulo, no Brasil. Recebeu da Associação Brasileira dos Críticos de Arte o Prêmio ABCA 2016, na categoria Destaque. Site:desvirtual.com. Também foi curadora do projeto Arquinterface: a cidade expandida pelas redes (2015). O projeto reúne designers, artistas, arquitetos e pensadores da área da comunicação e do audiovisual para discutir as novas relações das tecnologias com o imaginário urbano e como as artes operam hoje em interface com a arquitetura e a cidade.
É autora de obras sobre cultura digital, como Link-Se Arte / Mídia / Política / Cibercultura (Peirópolis, 2008) Memória da amnésia: políticas do esquecimento (Edições Sesc, 2019) e Coronavida: pandemia, cidade e cultura urbana (Escola da Cidade, 2020).

GUTO REQUENA

Guto Requena (Sorocaba, SP, 1979) graduou-se em arquitetura e urbanismo, em 2003, pela Universidade de São Paulo. Durante nove anos, foi pesquisador do NOMADS.USP (Centro de Estudos de Habitares Interativos da Universidade de São Paulo). Em 2007, obteve seu mestrado pela mesma universidade, com a dissertação “Habitar híbrido: Interatividade e experiência na era da cibercultura”. Em 2008, Guto fundou o Estudio Guto Requena. Desde então, recebeu diversos prêmios, palestrou e expôs em mais de vinte países. Entre 2012 e 2015, Guto foi colunista de design, arquitetura e urbanismo no jornal Folha de S.Paulo, além de colaborar com diversas revistas. Desde 2011, Guto cria, roteiriza e apresenta séries para TV, web e cinema.

ESTUDIO GUTO REQUENA
O Estudio Guto Requena reflete sobre memória, cultura e poéticas narrativas nas diferentes escalas do design, como objetos, espaços e cidades. O Estudio se divide em quatro núcleos de projeto: Núcleo de Arquitetura, onde criam interiores, cenografias e edifícios; Núcleo de Produto, em que desenham objetos e mobiliário; Núcleo de Comunicação e Mídias, desenvolvendo programas para TV e web, consultorias, livros, palestras e eventos; e, finalmente, o Núcleo Juntxs – Laboratório para Estudos de Empatia, Design e Tecnologia, em que concebem instalações imersivas e experiências interativas. O que conecta todos os projetos do Estudio Guto Requena é seu desejo de investigar design e tecnologias digitais de modo emocional, para estimular a empatia e o coletivo. Sua grande paixão está em hibridar o analógico ao virtual.
Artista visual e fotógrafo, o trabalho de Leonardo Finotti é reconhecido internacionalmente, com divulgação em diversos países da América Latina/Norte e da Europa. Em sua trajetória, o artista desenvolveu um amplo trabalho de documentação e exploração da arquitetura moderna em seu diálogo com o espaço urbano e a cidade.
O fotógrafo já representou o Brasil em duas edições da Bienal de Veneza, e em outras importantes exposições, como a Bienal de Arquitetura de Buenos Aires e a Bienal do Mercosul. O seu trabalho faz parte de acervos públicos e particulares, nacionais e internacionais, com destaque para a sua série adquirida pelo MoMA (Nova York), quando o fotógrafo participou de uma exposição neste museu sobre a arquitetura latino-americana.


Na tela do painel de controle de Leonardo Finotti, os túmulos capturados por sua câmera drone parecem durar para sempre. Estamos em um gramado ralo que funciona como estacionamento do Cemitério da Vila Formosa, na periferia leste de São Paulo, a cerca de uma hora do centro da cidade. Este é, como evidenciado pelas imagens que passam, o maior cemitério da América Latina. Finotti, que antes da pandemia trabalhava principalmente como fotógrafo de arquitetura, voando ao redor do mundo para documentar projetos de design de alto nível, mapeou o cemitério desde que o COVID-19 atingiu o Brasil com força há um ano. Seu objetivo, diz ele, é construir um mapa abrangente – no qual as imagens se sobreporão e serão publicadas em livro – de uma geografia em fluxo. Mais imediatamente as fotos formam uma exposição online. Por meio deste retrato, que abrange espaço e tempo, mas é filmado à distância para não parecer piegas ou intrusivo, o terrível custo humano da pandemia fica claro, por mais cansado que o espectador possa ter ficado.
