Para que serve a História da Arte?


21/ago/2011, 8h08min

Para que serve a História da Arte?

 

A História da Arte interfere diretamente na forma como olhamos, analisamos e avaliamos qualquer produção artística, seja antiga ou atual. Partimos de critérios e classificações tradicionalmente estabelecidos, sem nos darmos conta do caráter arbitrário dos mesmos. A maioria desses conceitos derivam-se da História da Arte, uma disciplina recente – segunda metade do século XVIII – , fundada sob as imposições do gosto neoclássico europeu.

Nas regiões periféricas da cultura ocidental, a ampla divulgação dessa História da Arte, através de publicações para especialistas e de coletâneas para o grande público, faz com que sejam reconhecidos como dignos de mérito artistas e obras que nunca foram vistos de perto, relegando as produções locais a um limbo em que permanecem desconhecidas e pouco compreendidas.

Assim, é com muita satisfação que vimos o surgimento de uma série de novos cursos de graduação em História da Arte, no País, nos últimos anos – UFRJ, UERJ, UFSP, e, entre eles, o do Instituto de Artes da UFRGS-, os quais abrem novas possibilidades de romper com a História da Arte tradicional e resgatar as práticas plásticas locais. Criado em 2010, pelo projeto REUNI (plano do governo federal para a expansão do ensino público superior), o curso da UFRGS funciona no horário noturno. Um de seus diferenciais importantes é a participação de professores dos departamentos de Artes Visuais, Música e Arte Dramática. Os alunos, à medida que discutem a história das artes visuais, têm também um pouco de história da música e do teatro de cada período.

Desenvolvido em 4 anos, o foco do curso é formar historiadores da arte e pessoas que possam trabalhar com pesquisa nessa área, principalmente pensando em arte no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Em seu conjunto, esses novos cursos de História da Arte vêm atender ao incremento de investimento econômico nas artes visuais que vem se realizando na última década e o conseqüente aumento numérico das instituições museológicas. O expressivo volume de recursos para a área significa um maior número de exposições, de publicações e de diversos tipos de projeto, ampliando a demanda por pessoal qualificado para o desenvolvimento dessas atividades profissionais.

É impossível pensar a arte no Brasil fora de uma internacionalização que se dá sob o signo da dominação cultural desde o período colonial. Para sua hegemonia ideológica, o colonizador introduziu o Barroco como modelo visual, em oposição à imagética indígena e africana, cuja produção simbólica foi destruída ou relegada à categoria de artesanato. Posteriormente, o academicismo, trazido por escolas européias, impôs-se sobre os regionalismos nascentes, criando um Sistema de Arte e estabelecendo novas hierarquizações. Sempre em ondas de atualização, foram se construindo novos modelos artísticos, buscando seus referenciais na Europa, e, posteriormente, nos Estados Unidos. Introjetavam, assim, concepções de subalternidade e dependência em relação aos mesmos pólos onde buscavam também seus modelos econômicos.

Em 1550, em Florença, Giorgio Vasari criou, com seu livro Vida de Homens Ilustres, o conceito de arte e de sua história, porque, como ele mesmo dizia, queria salvar os artistas e as obras de uma segunda morte, a morte pelo esquecimento. A importância do desenvolvimento de uma História da Arte está em dar a determinada produção uma visibilidade, um sentido, um significado, uma interpretação A maioria das obras artísticas, no País, está morta pelo esquecimento, portanto, urge abrir-lhes uma nova vida, pela sua documentação e análise. Dessa forma, o público poderá conhecer melhor sua história e identificá-la como legitima. O que se delineia para estes novos cursos é o desafio de construir uma memória crítica e reflexiva dessa produção e, também, de realizar a sua divulgação e a sua difusão, através de material (imagens e textos) acessível e amplamente distribuído.

Nesse sentido, um projeto interessante foi desenvolvido pelo curso de História da Arte da UFRGS, sob a coordenação de Paula Ramos. Uma viagem que aconteceu entre os dias 16 e 24 de julho, reuniu 25 pessoas que visitaram as seguintes cidades: Rio Grande, São José do Norte, Pelotas, Jaguarão, Piratini e Bagé. A escolha privilegiou cidades que já foram muito ricas, tendo se inserido no ciclo econômico e cultural articulado em torno das charqueadas. O grupo, formado por professores e alunos do curso visitou, em cada lugar, museus, igrejas, centros culturais, cemitérios, além de ter ouvido palestras de pesquisadores e professores locais.

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O desenvolvimento dos estudos na área de História da Arte, assim como sua ampla difusão, é decisivo na legitimação da produção local. Uma arte de diferentes épocas e origens necessita de uma reflexão que lhe dê suporte. Especialistas com uma formação sólida capacitam-se com competências específicas para essa tarefa. Fortalecer a área de pesquisa e reflexão teórica tem conseqüências na legitimação da arte e implicações diretas na ampliação do público.

Hoje, no Brasil, destacam-se dois desafios para a História da Arte, o primeiro é a realização de um amplo e diversificado levantamento da produção plástica local, considerando estudos que contemplem as diversidades regionais em termos tanto históricos como contemporâneos. O segundo é o desenvolvimento de uma crítica da tradição positivista e classificatória da história da arte, que permita pensar novas possibilidades de análise dessa produção.

A revisão crítica da História em geral, hoje em curso, apresenta como desdobramento novas formas de abordar também a História da Arte. A crítica da forma tradicional de desenvolver esta disciplina passa por leituras que dêem conta de outros fenômenos, que permitam que cada objeto ou evento seja visto na sua circunstância, dentro de sua perspectiva. Questiona-se o relato único e hegemônico (eurocêntrico) no qual, toda a produção que foge à linha estilística dominante fica esquecida e marginal. É com novos conceitos que se pode pensar as diferentes produções artísticas a partir de sua realidade salvando-as, assim, do esquecimento. A desconstrução ideológica da disciplina passa pela dissolução de sua linearidade e de suas hegemonias simbólicas, apostando na diversidade, no hibridismo, e nas pequenas memórias, para pensar criticamente acerca das práticas artísticas de diferentes regiões deste mundo globalizado, em diferentes épocas.

 

Podes ler o texto original na página do SUL21 Aqui.

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