Impactada pelo sucesso dos “impressionistas franceses” em suas temporadas nos CCBBs de São Paulo e do Rio de Janeiro, me pergunto sobre a relação dos brasileiros com a arte. Costuma-se comentar que o público, aqui, quase não vai a museus e exposições, tendo muito pouco interesse pelas artes visuais. No entanto, essas exposições nos CCBBs atraíram em torno de meio milhão de visitantes, fazendo-se necessário, no seu encerramento, o que chamaram “virada impressionista”, com abertura da exposição de 9h no sábado às 23h no domingo, com a entrada de 400 pessoas por vez. Qual o sentido da arte para todas essas pessoas que ficaram em filas enormes esperando para ver estas pinturas do século XIX? Elas conhecem o impressionista Eliseu Visconti?

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Talvez elas sejam atraídos pela perfeição naturalista das imagens, pelos coloridos luminosos, ou, ainda, pelas cenas de uma Paris em seu apogeu. Entretanto, possivelmente, de forma individual, cada uma dessas não seja uma resposta correta. Cabe acrescentar que existe no imaginário coletivo uma crença em que essa é a verdadeira arte, aquela cuja história todos conhecem e se orgulham em ver uma exposição.Essa “arte” que a maioria conhece é resultante de narrativas que se fazem, através de obras e de artistas dos quais as instituições guardam e divulgam a memória – no caso dos impressionistas franceses, o museu D’Orsay. Apesar de mais conhecida, ela não é a única, é sempre possível construir novas e múltiplas narrativas.
Assim, são colocadas algumas questões. Que narrativas se conhece da “arte” feita no Brasil? Que instituições estão guardando escrevendo e difundindo essa arte? Existe no imaginário social uma ideia de valor dessas obras e desses artistas locais? Elas podem fascinar por suas qualidades estéticas? Elas têm histórias a contar?
Com esses questionamentos em mente, vale a pena visitar a mostra “Arte no Brasil, uma história na Pinacoteca de São Paulo”. Nela estão expostas obras do acervo da Pinacoteca, organizadas a partir de um projeto de pesquisa desenvolvido de 2008 a 2011, sob a coordenação de Valéria Piccoli. Ocupando todo o segundo piso desse magnífico prédio, as obras estão estruturadas em dez módulos que contam uma “história da arte” no País, desde o período colonial até os anos 1930. Em sequência cronológica, são estas as salas: “A tradição colonial”, “Artistas viajantes”, “A criação da academia”, “A academia no fim do século”, “O ensino acadêmico”, “Os gêneros de pintura”, “Realismo burguês”, “Das coleções para o museu”, “O imaginário paulista” e “O nacional na arte”.
Foto: Arquivo Pessoal
O percurso histórico é bem interessante para que o visitante possa montar mentalmente um mapa de como se foi desdobrando o trabalho com imagens no País, através dos tempos. Entretanto, ele pode ser substituído por um percurso mais lúdico, em que as obras por si mesmas sejam o atrativo maior. São obras que surpreendem por sua beleza e pelo seu impacto visual, que mostram diferentes formas de abordar a realidade e representá-la, aguçando a curiosidade e atraindo o olhar do espectador. Cada sala revela conexões entre os trabalhos que vão além de sua narrativa linear, são mundos que se desdobram.
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A mostra evidencia um cuidadoso trabalho da equipe de pesquisa do Museu, desenvolvido sobre o valioso acervo da Pinacoteca com mais de 9 mil peças. As obras selecionadas para a exposição são super-interessantes e de grande qualidade plástica, documentam de forma primorosa o que se produziu no País em termos de artes visuais em cada período estudado. Nessas salas pode-se percorrer vários séculos de arte no Brasil, descobrindo imagens de um passado surpreendente e desconhecido da maioria dos visitantes. Dois eixos conduziram a pesquisa e a organização da mostra: a forma como se criou no Brasil um sistema de arte e o esforço de estabelecer uma proposta de nacional na arte. Com esses eixos, é costurada uma continuidade entre os séculos XIX e a modernidade, deixando perceber como se desenvolveram as diferentes tendências e os movimentos artísticos. Os textos que acompanham a exposição, explicando cada módulo e detalhando cada trabalho e artista, são claros e atrativos, de fácil leitura e com boas informações. Além disso, o visitante pode ter acesso às publicações que complementam a mostra, podendo, ainda, levar um pouco dela para casa para rememorar, aprofundando-se nos conteúdos da mostra.A museografia (desenho da exposição) é primorosa, muito bem iluminada e com uma boa distribuição das obras, permitindo a aproximação a cada uma delas, seja nas paredes, com belíssimos quadros, seja nas mapotecas, que guardam delicados desenhos e gravuras, seja nas vitrines, com preciosos objetos. Além de atrair o espectador de forma sedutora e ao mesmo tempo informativa, a mostra vai desdobrando mil detalhes de uma produção artística que merece ser mais conhecida e valorizada.
Foto: Arquivo Pessoal
O trabalho do Núcleo de Ação Educativa também é uma contribuição importante para um maior entendimento e envolvimento com as obras. O projeto “Arte em diálogo”, com trabalhos de artistas modernos e contemporâneos que estabelecem relações com o que está mostrado em cada sala e com perguntas que levam à reflexão é muito interessante. Eles se destacam sobre paredes cinza, entretanto, às vezes confundem o espectador sobre o sentido mais histórico da mostra como um todo. Nesse caso, o trabalho de mediadores pode ser uma forma de auxílio ao entendimento. O projeto educativo se complementa, ainda, com a “Sala de interpretação”, que se abre para um dos terraços do prédio. Ali, são oferecidas possibilidades aos visitantes de explorar suas capacidades interpretativas, com propostas colocadas de forma desafiadora a partir de elementos interativos. Esse trabalho mais formativo se complementa com a sala de leitura, que também se abre para um outro terraço, e onde há farto material sobre a história da arte e da Pinacoteca. Além de desfrutar das obras expostas, o visitante pode passar agradáveis momentos nessas duas salas.A inauguração de um segundo módulo, na Estação Pinacoteca, abordando a produção artística dos anos 1920 aos anos 1960, sob a coordenação de Regina Teixeira Barros, está prevista para setembro de 2013. O conjunto dessas duas grandes mostras resulta de um grande esforço de pesquisa, com a preocupação em fazer com que esse importante acervo seja mais conhecido e apreciado e com a disposição de criar narrativas para a história da arte no Brasil.Embora não seja um fenômeno de mídia, com fila de visitantes como a exposição dos impressionistas, o interesse que desperta a mostra é percebido no número de pessoas, de diferentes idades, origens sociais e geográficas, ali presentes cotidianamente. A mostra está prevista para ficar montada durante cinco anos, dando assim oportunidade de muitas visitas, seja dos paulistanos seja de turistas oriundos dos mais diversos locais. Afinal, essa história da arte com sotaque paulista diz respeito a todos que se interessam por narrativas diversificadas da arte.Publicado em:







