A última edição desta coluna foi encabeçada por uma indagação: Por que arte on-line? Refletindo sobre ela uma outra questão emerge: Por que arte?
As respostas podem variar de acordo com as relações de cada um com o tema. Para os artistas, provavelmente, ela pode atender necessidades de simbolização, como expressão e forma de comunicação, como um veículo da criatividade. Para críticos, ela pode ser um espaço de reflexão sobre os diferentes termos de representação dos indivíduos e da sociedade. Para colecionadores, possivelmente, ela representa a realização de desejos, sendo expressão de um tipo de vida e de valores. Para marchands, ela constitui um mercado bastante peculiar, com muito status e lucros variáveis. Para diretores de instituições ela é um patrimônio da humanidade pelo qual zelar. Mas, para que serve a arte para o público em geral, para a grande maioria da população que ocasionalmente visita uma exposição ou um museu ou cruza inesperadamente com uma interferência urbana?
Um processo generalizado de estetização se desenvolve na sociedade contemporânea, com exemplos contundentes que se evidenciam desde o mais simples ato diário até a complexidade da vida política. A publicidade é capaz de transformar qualquer tipo de produto em um protótipo de beleza, ou signo de uma forma de vida ideal, cobrindo de belas imagens o cotidiano de milhares de indivíduos. Para ela não existem pessoas feias ou defeituosas, não existe pobreza ou sujeira. O mundo se tornou, sob sua ótica, asceticamente perfeito. A própria guerra passou a ser estética em suas formas televisivas. Nenhuma imagem mais, choca um público envolvido pela proteção visual da sociedade do espetáculo. Entretanto, como afirma Wolfang Welsch, “Onde tudo é belo, nada mais é belo; estimulação ininterrupta conduz ao embotamento; estetização vira anestetização. No meio da hiperestetização, há necessidade de áreas esteticamente baldias”. Talvez para isso sirva arte. Com seus setores mais críticos ela se empenha na árdua tarefa de criar “áreas esteticamente baldias”. Estabelecendo rupturas nesta falsa perfeição é possível remeter o espectador de volta para um mundo bem menos ideal, mas, possivelmente, muito mais humano?
Evidenciando aspectos muitas vezes torpes e baixos da realidade, alguns artistas querem trazer de volta vivências perdidas no afã de falsas pretensões de perfeição e eficiência. Para tal, eles rompem radicalmente com os padrões tradicionais de um belo idealizado, expondo o feio, o tosco e mesmo o abjeto. Estes artistas abdicam dos caminhos fáceis, para colocar o público, mesmo contra sua vontade, nos abismos do real. Assim como Dante, em sua Divina Comédia, eles querem descer novamente às profundezas da alma humana. Tarefa difícil, em um mundo de superficialidades promovidas pela sociedade da publicidade e da propaganda.
As imagens, assim como as palavras, contam com seus significados não evidentes, que se mostram somente em um segundo ou terceiro momento. Talvez a arte venha para tentar superar o vazio de significação, interferindo no adormecimento do olhar, revitalizando este órgão de sentido, tão solicitado e ao mesmo tempo tão massacrado na contemporaneidade. Quem sabe através da arte seja possível encontrar um outro sentido para a imagem, explorando o que ela mostra em si mesma e também que ela esconde. Servirá a arte para que o espectador tome consciência de que algo lhe escapa ao olhar, que é impossível captar todas as nuances?
Ao fazer do olhar o grande veículo da comunicação, a sociedade lança um desafio às artes visuais. Como conseguir apreender a atenção de um espectador acostumado ao ritmo vertiginoso do zapping publicitário? Assim, a arte se abre para questões da vida humana, atavez dela é possível reconstruí-la em seu imaginário, elaborando a relação com a perda do divino que faz parte do mundo atual. O mundo contemporâneo está repleto de imagens, que invadem todos os espaços, tragando cada indivíduo, e de certa forma anestesiando-o. Gilbert Durand afirma que pode haver mais de uma forma de interdição da imagem. Uma delas, a mais conhecida é puritana, prega a ausência. Outra, mais insidiosa, nega poder à imagem por excesso, pela evaporação do seu sentido. Esse último é o traço constitutivo e continuamente agravado da cultura ocidental. Por isso o conjunto de instâncias responsáveis pelo que se faz, se vê e se divulga como arte constitui um âmbito relevante do imaginário social contemporâneo. Elas reativam o poder da imagem, reservando no pensamento pragmático e funcionalista de nossa sociedade um espaço para a inquietude, a dúvida e a incerteza. Nesse domínio simbólico, signos abertos colocam-se como tentativas, ao mesmo tempo prazerosas e dolorosas, de lidar com o desconhecido de uma maneira poética. Práticas artísticas abrem lugar para o incompleto e o inesperado, sem oferecer respostas, mas sim questionamentos.
Arte para que o público leigo tenha um espaço para a imaginação em uma sociedade eminentemente racional, um lugar de iminência, que resguarde a capacidade de suspensão e de vir a ser. Evitando respostas definitivas ou esclarecimentos superficiais ela pode ser um saudável espaço de experiências, ampliando possibilidades vivenciais.
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