Esta é uma sugestão que eu mesma estou aceitando no momento de escrever esta coluna. Ainda que os neurologistas aconselhem a fazer coisas diferentes para ativar zonas do cérebro costumeiramente passivas, em geral, todos seguem os mesmos caminhos. Normalmente, as pessoas adotam sempre os trajetos que estão habituadas a trilhar, deixando assim de conhecer outras paisagens e vivenciar novas oportunidades. As vésperas de um domingo de votação, que tal pensar sobre as diferentes possibilidades que a vida oferece a cada um cotidianamente, sobre as escolhas e sobre suas repercussões?
Mas o que tem isso a ver com as artes visuais?
“Inquieta-me estarmos devotando nossa vida inteira a um público tão minúsculo.” Essa afirmação de Aracy Amaral, em um debate, aponta uma problemática que perpassa o meio cultural nacional. Sabe-se que a arte é um segmento muito específico e restrito das práticas simbólicas, socialmente definido como tal, e historicamente determinado. Por que por ela se interessam tão poucos? Será que é mais fácil e divertido ir ao futebol e ao shopping, ou na verdade é o mais usual e conhecido? Talvez esses sejam os caminhos que não apresentam surpresas nem exijam muito esforço.
Entretanto, a arte não é algo para alguns poucos eleitos, como pode deixar antever a preocupação de Aracy Amaral, ou pelo menos não deveria ser. Potencialmente, todos podem se deixar contaminar, se emocionar e serem conduzidos pelas ideias dos artistas, sem, necessariamente, possuírem um conhecimento específico para se conectar com os trabalhos e propostas apresentados. Por que então muitos subestimam a si mesmos ao afirmarem “eu não entendo de arte”, sem perceberem que reagem com sua inteligência e sensibilidade sempre que são provocados por uma imagem carregada de sentidos?
Um trabalho de arte aponta vários caminhos, e essa é a sua grande qualidade, essa pluralidade de entradas. Arte não é somente o que se encontra nos museus europeus e norte-americanos, ela está aqui ao lado, basta ficar atento. Quem mora em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Belo Horizonte encontra nos sites da Veja indicações de exposições super interessantes, dispersas pela cidade, basta procurar. Em outras localidades o caminho é mais difícil, mas nem por isso menos interessante. Em Porto Alegre, podem procurar nos sites das instituições indicados em uma edição mais antiga de minha coluna.
“Todos os caminhos estão errados. Mas você estará sempre onde deveria estar.” Esta é a continuidade do texto que deu título a esta coluna e que se encontra na obra site de Laura Cattani.
Esse é um trabalho que aponta para diferentes possibilidades de escolhas, em uma narrativa cambiante e mutável. São múltiplas maneiras de ver, são acordos em que se constroem mapas cognitivos da realidade e da ficção. Ele exige viver as contradições e encontrar formas colaborativas de ação em uma história que pode ser contada, ou lida, a partir de diferentes locais.
Oferecer portas de entrada nos sentidos mais complexos da arte é também uma tarefa importante, para isso estão os críticos, os pesquisadores os curadores e mais uma dezena de especialistas. A atividade da crítica tem como tarefa a apreciação e a análise de obras, com vistas à emissão de julgamento de valor e à difusão de informação ao público, objetivando despertar seu interesse sobre as mesmas. Os trabalhos dos críticos estão disponíveis para aqueles que se interessarem em se adentrar mais profundamente esse universo. Entretanto, talvez o mais importante neste grande circuito seja o espectador, aquele cujo olhar anônimo se encontra com a obra e percorre seus sentidos. Aquele que procura por ela ou que, a encontrando-a desprevenido, se deixa encantar. Se até algum tempo era necessário ir a um museu, hoje a arte está em muitos e inesperados lugares.
Mas, afinal, quem é público de arte? Possivelmente você que está lendo este texto e se sente tocado por esse convite. Mas quais são seus canais de acesso à arte? O que está sendo feito para a ativação e a ampliação desses contatos? Quais as diferentes políticas culturais que estão sendo implantadas na área? Para quem e para o que servem?
Nesse sentido, os governos têm um papel no estabelecimento das políticas públicas em relação à cultura e à arte. Não havendo uma política de constituição de acervos especializados, de difusão e de apoio aos produtores, não pode haver consolidação da área. Dentro do panorama das eleições estão se desenhando ações mais pluralistas para o campo da arte? Que políticas estão sendo propostas para desenvolver estruturas institucionais mais sólidas e eficientes para a superação das deficiências na distribuição e na divulgação da arte?
Toda a arte é política, querendo sê-lo ou não, e ela envolve a sociedade como um todo. Ela pode sucumbir às seduções do mercado ou atuar no combate à falta de acervos iconográficos e centros de documentação, ao reduzido número de museus, e à inexistência de políticas sérias na formação de público. Mas cada um é responsável por suas escolhas, seja em termos políticos, seja em termos de abertura para a arte. A vida exige tomadas de posição. Sem escolher cuidadosamente um caminhos pode-se estar onde não se deveria estar.
Texto de arquivo, escrito por Maria Amelia Bulhões e originalmente publicado no Jornal Sul 21, em 6/out/2012, 5h21min
http://www.sul21.com.br/jornal/um-convite-voce-deve-escolher-um-caminho-cuidadosamente-e-entao-ir-por-um-dos-outros/





