Viajar é preciso?


Segundo um provérbio mourisco, “Aquele que não viaja não conhece o valor dos homens”. Essa frase, impressa na parede, alude ao título da mostra do programa Rumos Artes Visuais 2011/2013: Convite à Viagem.

Sofia Fan, gerente do Núcleo Artes Visuais e Acervo do Instituto Cultural Itaú, acrescenta: “Rumos Visuais nasce do desejo de mapear e dar visibilidade às formas artísticas emergentes no nosso país, onde quer que elas estejam sendo pensadas e produzidas”. Estas viagens têm sido realizadas, já em quatro edições, deste projeto que pretende conferir a diversidade da produção artística brasileira mais recente, apoiando-a e divulgando-a. Neste Brasil imenso e tão diversificado, possivelmente a melhor forma de conhecer as produções artísticas locais seja através de numerosos deslocamentos.

Com a curadoria geral de Agnaldo Farias, encontram-se expostas, até 22 de abril, em três pisos do Centro Cultural da Avenida Paulista 149, mais de 100 obras, realizadas por 45 jovens artistas, selecionados neste segmento do programa. Pintura, fotografia, vídeo, instalação e várias outras linguagens artísticas estão representadas nos trabalhos que foram escolhidos com a co-curadoria de Ana Maria Maia, Felipe Scovino, Gabriela Motta e Paulo Miyada. Os curadores viajantes Alejandra Muñoz, Franzoi, Julio Martins, Luiza Proença, Marcelo Campos, Matias Monteiro, Sanzia Pinheiro e Vânia Leal, que se dividiram pelo Brasil para conhecer o cenário e a produção artística das diferentes regiões, visitando ateliês, realizando palestras e fazendo contato direto com a produção de cada lugar. Nesta edição, por decisão do curador geral, os 13 curadores formaram uma comissão autônoma de seleção dos trabalhos. Nesse programa intenso de mapeamento, apoio e difusão da produção artística no país, foram inscritos 1 770 projetos, 315 da Região Sul, 1.095 da Sudeste, 66 da Norte, 173 da Nordeste e 117 da Centro-Oeste.

Abaixo, A lista dos participantes por estado de origem.

1. Adriano Costa SP
2. Allan de Lana DF
3. Berna Reale PA
4. Carla Evanovitch PA
5. Carlos Contente RJ
6. Cláudia Hersz RJ
7. Cristiano Lenhardt PE
8. Dalton Paula GO
9. Daniel Murgel RJ
10. Fábio Baroli RJ
11. Fábio Magalhães BA
12. Fernando Ancil MG
13. Coletivo Pirarucu Duo SP
14. Gabriela Mureb RJ
15. GrupoPS SC
16. Guilherme Dable RS
17. Guilherme Teixeira SP
18. Íris Helena PB
19. Isabel Ramil RS
20. Jimson Vilela RJ
21. João Castilho MG
22. Luciana Paiva DF
23. Coletivo GIA – BA
24. Luiz Roque SP
25. Luiza Baldan RJ
26. Marcos Brias SP
27. Maria Laet RJ
28. Marilia Furman SP
29. Michel Zózimo RS
30. Naia Melo Arruda AM
31. Nara Amelia RS
32. Pablo Lobato MG
33. Pontogor RJ
34. Rafael Pagatini RS
35. Raquel Versieux MG
36. Regina Parra SP
37. Rodrigo Torres RJ
38. Rogério Severo RS
39. Romy Pocztaruk RS
40. Thiago Honório SP
41. Thiago Martins de Melo MA
42. Ueliton Santana AC
43. Vijai Patchineelam RJ
44. Vinicius Guimarães ES
45. Virgílio Neto DF

O Rio Grande do Sul conta com sete participantes: Guilherme Dable, Isabel Ramil, Michel Zózimo, Nara Amelia, Rafael Pagatini, Rogério Severo e Romy Pocztaruk. Destacam-se nesses trabalhos uma acentuada qualidade plástica e um fazer meticuloso e cuidadoso. As ideias e os conceitos se realizam em constante diálogo com a valoração dos resultados visuais. Uma produção contemporânea, que não abre mão de tradições formais fortes na cultura local.

Guilherme Dable realizou uma performance em que tocou instrumentos nos quais colocou folhas de papel em branco e folhas de carbono. A pressão sobre os instrumentos musicais fez marcas nas folhas de papel branco, que ficam expostas como desenhos na mostra. Isabel Ramil apresenta dois vídeos. Em um deles ela se coloca nua em um curral vazio, ao som de um rodeio ou leilão de gado. Assim, questiona a forma de tratar a mulher como a do animal na tradição regional. No outro, se apresenta vestida de negro e com um plástico sobre a cabeça, no branco deserto de sal, ao som de trechos do texto “Dias Felices” de Samuel Beckett.

http://vimeo.com/39144512

Coca Cola Êra Êra – 2011, de Isabel Ramil | Foto Isabel Ramil

Michel Zózimo estabelece um misto de ficção e realidade, produzindo uma escultura que se assemelha a um meteorito de grandes dimensões. Ele o apresenta sobre um tablado e com placa de informações, tipo objeto em museu de história natural, deixando dúvidas no espectador quanto a sua real condição – escultura ou meteorito. Nara Amelia trabalha com pequenas imagens, em que animais assumem situações estranhas, misto de humanos. As cores e os traços lembram as ilustrações dos antigos livros de histórias infantis, apontando circunstâncias bastante ambíguas. Rafael Pagatini trabalha com gravuras de grande tamanho, feitas com uma tal quantidade de minúsculos traços que diluem a imagem em bruma. São paisagens soturnas, distantes, que parecem, em alguns momentos, fotografias desfocadas, em preto e branco. Rogério Severo expõe uma escultura/instalação cuja montagem segue as coordenadas do espaço em que é colocada, em termos de dimensões e configurações. O material utilizado são ferramentas, barbantes, fitas metálicas, remetendo para o universo fabril, em contraste com a fragilidade visual do conjunto. Romy Pocztaruk apresenta fotos de sua viagem pela transamazônica. São imagens que evidenciam um possível estranhamento desta realidade, tão fora e, ao mesmo tempo, tão dentro do mundo globalizado. Faz parte ainda de seu trabalho uma instalação com um toca-discos antigo dentro de um aquário de vidro, que vai sendo coberto, aos poucos, pela água, enquanto o som da música vai sendo alterado para o ruído do gotejamento.

Neblina, 2011, de Rafael Pagatini | Foto Rafael Pagatini

Instalação Fundear, de Rogério Severo | Foto: Rogério Severo

Sobre o que se deve guardar, 2009, de Nara Amélia | Foto: Nara Amélia

Chamam a atenção os trabalhos de Fernando Ancil e Regina Parra, que utilizam a internet em sua proposição. Ancil cria imagens que buscam evidenciar uma “geometria orgânica” – esse é o título do trabalho. Para tal se apropria de fragmentos do Google Maps onde aparecem campos de futebol de várzea. Ele recorta essas imagens para obter composições que imprime em folhas A4, e elas são apresentadas dobradas e organizadas em um fichário. Parra capta da internet imagens de vídeos de migrantes ilegais cruzando fronteiras, apresentando este vídeo desfocado, tendo como legendas trechos de Maurice Blanchot sobre a condição de estrangeiro. Expõe ainda pequenos quadros em óleo e cera sobre papel, em que reproduz figuras de migrantes em trânsito, também obtidas da internet. São imagens desfocadas dessas passagens, marchas e cruzamentos de fronteiras

Muitos trabalhos instigantes e desafiadores constituem esta mostra cuja tônica é uma produção emergente de jovens artistas. O projeto do Instituto Cultural Itaú se propõe como uma bússola a apontar rumos, dando um impulso em suas carreiras. A precisão das escolhas deste Convite à Viagem se poderá ver no futuro, com a continuidade e o desenvolvimento dos trabalhos dos artistas selecionados.

Você pode ler esse texto no Sul 21

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