Como falar sobre artes visuais?


A palavra e a imagem estabelecem caminhos diferentes de percepção e expressão, mas muitas pontes se colocam entre eles. Duas oportunidades interessantes e diferentes de experienciar estas conexões me foram oferecidas em um curto período de tempo, abrindo um leque de reflexões.

Em Joinville foram criados, em 2002, o Museu da Arte Contemporânea Schwanke, e em 2003, o instituto com o mesmo nome, que estão desenvolvendo uma série de atividades. Embora não tenha uma sede física, o Museu terá uma versão virtual, que está em produção, com o projeto aprovado pela Lei de Incentivos Fiscais, e já ativa bastante o meio local com importantes eventos. No dia 29 de março realizou dentro do Projeto Arte Contemporânea: Produção e Curadoria, em parceria com a UNIVILLE, uma mesa com o artista Nuno Ramos, tendo como debatedoras Rosangela Scherem (UDESC) e Taiza Moraes (UNIVILLE), a primeira da área de artes visuais e a segunda da literatura. A conversa, que durou seis horas, com dois intervalos de 15 minutos, abordou o diversificado trabalho do artista, que engloba artes plásticas, literatura, cinema, música e outros experimentos que podem ser vistos em seu site.

O artista apresentou dois vídeos e uma série de imagens de seus trabalhos e respondeu a inúmeras perguntas das debatedoras e do público. Com clareza, objetividade e bastante conhecimento dos seus campos de atuação, Nuno Ramos evidenciou uma posição crítica em relação a seu trabalho e à sua geração. Segundo ele, “meu lugar é a ambivalência, e se eu trago alguma coisa para a arte brasileira é o erro…O que vale na obra de arte é o que alguém determinou na época o seu valor”. Diferentemente do personagem de “O traje do Rei”, o artista informa ao público “estou nu” e expõe a sincera humanidade de sua nudez. Deixando claro suas inquietações com posições acomodadas e fáceis, ele afirma ainda: “Gosto de ver o espectador numa posição difícil dentro das minhas obras como se ele não tivesse acesso a elas”. Ele nomeia inclusive algumas de suas obras como “anti penetráveis”, em alusão às obras de Helio Oiticica – os penetráveis – que convidavam o espectador a adentrá-las e se deixar envolver.

O artista apresentou dois vídeos e uma série de imagens de seus trabalhos e respondeu a inúmeras perguntas das debatedoras e do público. Com clareza, objetividade e bastante conhecimento dos seus campos de atuação, Nuno Ramos evidenciou uma posição crítica em relação a seu trabalho e à sua geração. Segundo ele, “meu lugar é a ambivalência, e se eu trago alguma coisa para a arte brasileira é o erro…O que vale na obra de arte é o que alguém determinou na época o seu valor”. Diferentemente do personagem de “O traje do Rei”, o artista informa ao público “estou nu” e expõe a sincera humanidade de sua nudez. Deixando claro suas inquietações com posições acomodadas e fáceis, ele afirma ainda: “Gosto de ver o espectador numa posição difícil dentro das minhas obras como se ele não tivesse acesso a elas”. Ele nomeia inclusive algumas de suas obras como “anti penetráveis”, em alusão às obras de Helio Oiticica – os penetráveis – que convidavam o espectador a adentrá-las e se deixar envolver.

Uma segunda oportunidade de ouvir falar sobre arte ocorreu em Porto Alegre, na RODA – Rodada de Debates sobre Arte, organizada pelas Coordenações de Cinema, Vídeo e Fotografia e Artes Plásticas da Prefeitura Municipal, dias 3 e 4 de abril na Usina do Gasômetro. O encontro, orientado pelo princípio da diversidade e da autonomia, se propõe a investigar o cenário artístico contemporâneo, com a participação de conferencistas de formação bastante heterogênea. Faz parte ainda do evento a projeção de uma série de filmes originais de arte “Arte doc.” que poderão ser vistos ao longo da semana próxima.

No primeiro dia, participaram Elaine Tedesco, artista plástica e professora da UFRGS, Fabio Cypriano, crítico de arte da Folha de S. Paulo e Storm Janse van Rensburg, curador independente da África do Sul. Cada um deles abordou praticamente uma cena artística; Tedesco observou a cena local pelo ângulo do artista, Cypriano a cena nacional e suas conexões internacionais, pelo viés da crítica da arte, e Rensburg a cena sul-africana, pela perspectiva do crítico. O debate se desenvolveu das 18h,30 até as 22h, com boa participação do público. Sem cair em lamentações ou jogos acusatórios, as apresentações expuseram posturas duras em relação às respostas fáceis e à busca de valores de consumo massificado que proliferam no campo da arte. Foram apresentados contrapontos, divulgando modelos de atuação com que os palestrantes se identificam, discutindo seus limites e potencialidades. Tedesco partiu de seu trabalho “Observatório 4SGP” para pensar o artista como estando em um observatório a olhar ao seu redor, percebendo como cada trabalho atua no sistema da arte, e como dialoga com o que está acontecendo. Sobre a cena local, concordou com uma opinião do público sobre a presença de uma tendência relacional, observou a pouco significativa produção de pintura da nova geração, e a importância dos ateliês coletivos.

Cypriano destacou em suas análises a expansão e a consolidação do mercado de arte nos últimos dez anos, com a atenção acentuada das galerias nas feiras de arte – galerias brasileiras participam em média de sete feiras ao ano – e o desenvolvimento de produções específicas para esse tipo de evento. Observou que a tradição experimental voltou-se para feiras, com o retorno ao objeto e à valorização do desenho e da pintura. Criticou a atuação interconectada de curadores e galeristas na construção de valores para a arte. Contrapôs a esse cenário a atuação de curadores, como Paulo Herkenhoff, que desenvolvem um modelo de exposição como experimentação, em oposição ao modelo ilustrativo (de uma ideia ou conceito) ou ao corporativo (por técnicas ou suportes).

Rensburg, ex diretor da Goodman Galleriy Cape Town apontou as dificuldades do Apartheid para o desenvolvimento da arte na África do Sul e os preconceitos que envolvem e encobrem as escolhas artísticas no país. Apresentou um vídeo de uma banda local com a participação de um artista plástico que desenvolve uma forte, instigante e complexa visualidade.

No segundo dia, foram apresentadas duas conferências, de Sam McAuliffe, professor da Goldsmiths University de Londres e de Susanne Pfeffer, curadora do KW Instituto de Arte Contemporânea. McAuliffe abordou de forma bastante didática as teorias de Adorno relativas à autonomia da arte, destacando a contraditória afirmação do autor “A arte é autônoma e não é”. A partir dela, explorou a discussão sobre a condição da arte de incrementar sua própria abolição, diluindo-se na vida, e de como ela se produz nesse espaço de liberdade e integração.

Pfeffer apresentou um pouco da cena artística berlinense a partir de sua atuação como curadora de uma das mais importantes e inovadoras instituições atuantes neste meio. Com muitas imagens, mostrou como apoiou os artistas em suas ousadias criativas, modificando em muitos momentos os espaços expositivos para montagem das obras. Ela destacou o fato de Berlin ser, hoje, um local de muita fermentação artística, mais aberto e dinâmico do que a maioria das grandes metrópoles internacionais. Apontou a curadoria como uma tarefa de pesquisa do que está acontecendo e “cuidadora”, dando suporte ao artista para executar sua proposta, pensando ainda no público e como ele vai poder se envolver com a mostra.

Todas essas falas conduzem possibilidades diferenciadas de entrada no universo artístico. A pluralidade faz parte do panorama visual contemporâneo, as diferenças de abordagem correspondem a ele, e também permitem uma maior proximidade com ele. O mundo das imagens não se abre magicamente ao olhar, tem nuances e complexidades que as palavras ajudam a perceber e a explorar. Em vários momentos os debates têm alargado o campo da arte, conectando seus integrantes e ampliando a participação do público. Posturas críticas e muita informação se fazem necessárias para o aprofundamento desses diálogos.

Você pode ler esse texto no Sul 21

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