Conversas sobre arte contemporânea?


Estive esta semana no Atelier Livre da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, participando de uma atividade que esta instituição vem desenvolvendo, na qual convida especialistas da área para conversarem com o público sobre temas atuais de arte. Gratuitas e abertas a todos os interessados, essas conversas são possíveis momentos de trocas e de ampliação da compreensão da arte no mundo em que vivemos. Tanta gente conversa sobre futebol, ouve comentários, dá sua opinião. Será tão difícil fazer o mesmo com a arte? Afinal, 22 homens correndo e disputando uma bola não é mais fácil de entender do que artistas que envolvem monumentos com tecido, criando com eles esculturas gigantescas, como fazem Christo e Jeanne Claude.

Wrapped-Reichstang.-Berlin-1971-97

Wrapped Reichstang. Berlin, 1971-97

 

Para mim, conversas sobre arte sempre envolvem as mudanças que se vive no regime da arte, passando de uma economia de mercado para uma economia de redes e da ênfase no objeto – pintura, escultura, gravura ou desenho – para a convivência dos eventos – performances, instalações ou happenings. Essas mudanças, que podem ser observadas já a partir dos anos 1960, se consolidam nos anos 1990. A arte, que construiu, gradativamente, sua autonomia enquanto campo de conhecimento ao longo da modernidade, vê, hoje, essa autonomia desfazer-se. Os espaços tradicionais como o museu, a galeria ou a bienal, são questionados, e os artistas e os críticos buscam lugares alternativos para realizar eventos de maior impacto. Com as tantas ousadias formais e conceituais que se produzem, no afã de inovação no mundo da espetacularização da cultura, pode-se pensar em um desaparecimento do sistema da arte.

© 2010 Scott Rudd www.scottruddphotography.com scott.rudd@gmail.com

Foto: Scott Rudd

 

No entanto, não é bem isso que se observa: a constituição de um regime de arte pós-autonomia é algo flutuante, uma vez que instituições e mercado buscam sempre novas formas de se apropriar desses “não objetos”. Vivemos em um mundo de economia capitalista e o mercado de arte apresenta um crescente aumento no valor e no volume das vendas, incorporando cada vez mais a chamada arte contemporânea e não mais somente os modernos, como ocorria até bem pouco tempo atrás. A importância que leilões e feiras tomaram na construção das carreiras dos artistas parece desmentir o desfazer-se do sistema da arte, que, pelo contrário, mostra-se bem sólido e eficiente, embora agindo com lógicas diferentes daquelas vigentes na modernidade. Na modernidade, a originalidade e a marginalidade do artista eram fundamentais, e figuras boêmias como Toulouse-Lautrec, ou com dificuldades de enquadramento social como Van Gogh, eram os grandes mitos. Hoje, funcionam mais as estratégias de marketing que fazem o sucesso de Jef Koons, de seu trabalho uma marca e, dele mesmo uma celebridade.

Jeff-Koons

Jeff Koons

 

Para o desenvolvimento destas estratégias de marketing e de administrar carreiras de sucesso, fazem-se necessárias equipes de produção, o que derruba, hoje, o mito romântico do artista criador individual e solitário. Este passou a ser uma peça de uma imensa engrenagem que move milhões e agita as mídias, cedendo lugar para curadores e colecionadores que, hoje, aparecem com destaque nas listas de líderes no campo da arte. A construção dos conceitos que legitimam as obras, trabalho imaterial que agrega valor ao produto artístico, passou a ser uma atividade conjunta de diferentes atores. Talvez, por isso, se verifique, nos últimos anos, uma explosão de coletivos e outras formas gregárias de trabalho, até bem pouco tempo inexistentes no meio das artes visuais. O caso dos coletivos pode expressar, por um lado, a busca de apoio para a implementação de projetos alternativos, que vão contra as lógicas no mainstream, e por outro, formas conjuntas de abrir chances de trabalho em meios que oferecem menos oportunidades, como em regiões periféricas aos grandes centros.

A mundialização da arte, embora pareça impor uma homogeneização, encobre grandes desigualdades. Eventos internacionais parecem captar os atores (entre eles os artistas) responsáveis por compor uma rede de influências, fazendo pensar em uma unidade de interesses e ação. Unidade bastante fictícia, uma vez que as disputas continuam a dominar, nesta arena de interesses econômicos e políticos. O controle das diferentes instâncias da arte pelo capitalismo não é uma novidade. Elas sempre estiveram sob o domínio dos setores dominantes da sociedade e do grande capital, desde sua origem com os mecenas, no Renascimento, às grandes casas de leilões e colecionadores, atualmente. Isso não exclui a apreciação da arte por admiradores desinteressados, mas estes não movem o grande mercado.

No entanto, reações contra o stablishment e buscas de possibilidades alternativas fazem parte dessa história. No início do século XX, projetos de uma arte nacional eram pensados como possível alternativa ao domínio europeu da arte, como fizeram os modernistas brasileiros. Contemporaneamente, propostas enraizadas no local aparecem como as formas mais eficientes de diálogo com o mundo globalizado. Seria o caso de revivals regionalistas, tipo os CTGs? Não, a realidade atual pede respostas menos passadistas e conservadoras, mais voltadas aos questionamentos e mais abertas para futuros utópicos.

Como dizia Buckminster Fuller, o mundo, hoje, é muito perigoso sem utopia. Acreditam nisso aqueles que questionam os fundamentos da ordem estabelecida no sistema da arte, de forma difusa e encoberta por uma falsa aparência de democracia, de quebra de paradigmas e de abertura de fronteiras. Esses atores, através de suas práticas artísticas antissistêmicas estabelecem novos fluxos e saem de posições confortáveis.

Vídeo: “A arte de Mônica Nador”

http://youtu.be/nnD_19GWZng

Eles precisam romper, de forma criativa e competente, com as estruturas ritualísticas da arte e de seus espaços expositivos, adotando uma ótica focada em referências interativas e colaborativas e não mais contemplativas. Sem abandonar os saberes da arte enquanto campo de conhecimento constituído no seu processo de autonomia, eles precisam negar as verdades estabelecidas e trabalhar com desejos. Mesmo questionando os aspectos tradicionais do sistema da arte – seu hermetismo, elitismo e afastamento da realidade –, eles ainda querem preservar um lugar de desejo e de esperança. Porque acreditam que, como observa Kester, “A arte é um lembrete da utopia de plenitude adormecido no colo do capitalismo burguês”.

Finalizando esta coluna, me dei conta de que ela ficou mais um monólogo do que uma conversa. Quem sabe, se mandarem suas perguntas e comentários, possamos estabelecer algumas “conversas”.

Texto de arquivo, escrito por Maria Amelia Bulhões e originalmente publicado no Jornal Sul 21, em 20/04/2013)

Fonte:http://www.sul21.com.br/jornal/conversas-sobre-arte-contemporanea/

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