A arte buscou, na modernidade, criar um campo de autonomia, libertando-se das tarefas de representação e sua submissão aos conteúdos religiosos ou políticos. Entretanto, a excepcionalidade da obra de arte e a sacralidade dos museus parecem ter, ao longo do tempo, afastado ou negado ao público comum certas vivências estéticas que poderiam fazer parte de suas vidas cotidianas. Essa condição de afastamento do público e da vida real inquieta alguns artistas em muitos momentos e em muitos lugares. As vanguardas, em diferentes regiões do mundo, a partir dos modelos de inquietações europeus, buscaram aproximar a arte das experiências da vida diária das mais diferentes formas. A necessidade de aproximação a um público mais amplo passou a ser objeto das inquietações dos artistas, principalmente com a expansão do consumo cultural – que na Europa se deu no século XIX, e no Brasil, no século XX. Inúmeras formas de tornar a arte menos distante e circunscrita aos espaços dos museus, foram propostas e muitas experiências que se desenvolveram.
Entre elas, o deslocamento físico, nos ambientes urbanos ou naturais, surgiu como um meio de explorar sensitivamente o mundo e descobrir como a presença do corpo em movimento no espaço poderia ser fonte de vivência poética muito forte. Essas experimentações de derivas se inauguraram com os dadaístas (suas derivas eram aleatórias), se consolidaram com os situacionistas (suas caminhadas eram mais objetivas e funcionais) e foram se desenvolvendo como processos artísticos individuais na contemporaneidade. Até mesmo no ambiente virtual da internet, artistas como Daniel Belasco http://www.planbperformance.net/forty.html e Thorsten Knaub http://www.gpsdiary.org/ realizam caminhadas como parte de seus projetos criativos e, utilizando GPS, constroem desenhos que documentam e deixam os vestígios visuais desses deslocamentos.
A tendência da arte de questionar o sistema ritualístico e o objeto de arte deu origem a muitas experiências no sentido de assumir o caminhar como processo criativo e como forma de conhecer, vivenciar e deixar seu depoimento. No âmbito dessas experimentações encontra-se a mostra “Walking” exposta em São Paulo, no Paço das Artes http://www.pacodasartes.org.br/. Segundo o curador Giorgio Ronna, a exposição surgiu da leitura de alguns autores que desenvolvem reflexões sobre o ato de caminhar: Henry David Thoureau (Walking), Jean-Jacques Rousseau (Os devaneios do caminhante solitário), Walter Benjamin (O flanêur) e João do Rio (A alma encantadora das ruas). Vale destacar que farta bibliografia, tanto na literatura como no campo das artes visuais. sobre este tema se desenvolveu a partir da modernidade, que pode ser buscada por quem se interessar.
Na mostra “Walking” estão articulados os trabalhos de cinco artistas que encontraram na caminhada um elemento fundamental de seus processos de trabalho. Brígida Baltar desenvolve um projeto que a aproxima das tendências surrealistas, ao caminhar tentando captar a neblina em um frasco. Um vídeo e algumas fotos dessa sua impossível tarefa documentam essa experiência onírica de embrenhar-se na bruma e nela quase desaparecer.
Brígida Baltar – A coleta da neblina
Num outro processo, Marina Camargo anda por um caminho montanhoso nos Alpes, tentado dar conta da paisagem recortando em uma folha de papel as silhuetas das montanhas a partir de alguns pontos de observação. A seguir, sobrepõe os cartões recortados aos contornos da irregular topografia, deixando perceber como a representação é falha e incompleta. É como se a artista tentasse captar no papel aquela paisagem que vai descobrindo ao caminhar, para dela se apropriar poeticamente em uma vídeo-instalação que documenta essa forma de vivenciar a paisagem.
Marina Camargo – Alpenproject
A intervenção de Lia Chaia é na paisagem urbana: ela vai desenhando seu percurso pela cidade de Paris ao aplicar balões coloridos nas estruturas de ferro que se distribuem pela cidade nas calçadas. As fotos do projeto “Globo Celeste” permanecem como memória deste percurso, documentando sua passagem e sua ação poética. Um corpo invisível cujos rastros coloridos distribuídos na cena fria da paisagem estabelecem uma outra leitura da realidade.
Lia Chaia – Globo Celeste
Também urbanas são as caminhadas que realizam Marion Velasco e Christa Ziegler, sendo que para elas o tempo funciona como parte do processo de captação das imagens. Marion, na série “Erragem”, indaga sobre as relações do corpo com a cidade, tomando a arquitetura como vestimenta. Ela permanece horas no burburinho da região central para fotografar uma pessoa que se esconde sentada sob uma manta. Ela vê aquele que não quer ser visto, e que mesmo envolvido pelo torvelinho dos sons e das movimentações em trono dele, parece alheio a tudo. Sentada, a figura parece dizer da necessidade de buscar um espaço pessoal na impessoalidade da grande cidade. Acompanha essa imagem fotográfica a gravação dos ruídos da rua feita pela artistas e que é oferecida ao espectador em dois audiofones, um com som bem alto e estridente, outro quase inaudível. Como se os mesmos sons pudessem ser ouvidos de formas diferenciadas pelos transeuntes.
Marion Velasco — Erragem
Christa Ziegler tem percorrido a pé dezenas de cidades por todo o mundo com uma câmera de médio formato, procurando preservar a naturalidade com que os transeuntes se manifestam no espaço urbano. Ela faz de seu percurso uma forma de documentação das proximidades e dos afastamentos que as cidades propiciam. As imagens, em preto e branco, com baixa resolução, parecem estancar o tempo. Colocadas em conjuntos de quatro, elas mostram como a artista foi construindo seu olhar de viajante, como foi encontrando as significações em cada diferente cidade visitada. Os nomes das cidades – Délhi, Hong Kong, Los Angeles … – colocados junto a cada conjunto de imagens projetado, permitem que o visitante acompanhe o percurso da artista, percebendo a rede de inter-relações que emerge da combinação desses fragmentos, em uma espécie de narrativa ao mesmo tempo documental e ficcional.
Christa Ziegler – Cidades
Essas diferentes formas de pensar e elaborar poeticamente as caminhadas, dão unidade ao conjunto dos trabalhos apresentados e oferecem ao espectador uma possibilidade de pensar suas próprias experiências diárias de deslocamento, mais além de um ir e vir mecânico e alienado. Talvez seja essa uma das contribuições da arte, hoje: fazer pensar e oferecer meios de reelaborar o cotidiano. Afinal, como já dizia o poeta, “faz-se o caminho ao andar”.
Texto de arquivo, escrito por Maria Amélia Bulhões para o Jornal Sul 21, originalmente publicado em 30/03/2013.
Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/faz-se-o-caminho-ao-andar/











