Quem tudo quer tudo pode


Um exercício de poder do desejo é o que se evidencia na exposição O triunfo do contemporâneo, que se inaugurou dia 6 de março, no Santander Cultural http://www.santandercultural.com.br/programacao/artesvisuais.asp, com curadoria de Gaudêncio Fidelis. A mostra, concebida a partir do acervo do Museu de Arte Contemporânea – MAC – do Rio Grande do Sul, comemora seus vinte anos de existência. A ata de criação, o acervo e um conjunto de exposições realizadas em diferentes locais são os trunfos dessa instituição, que segue buscando um espaço físico adequado para sua instalação. Resultante do desejo de um grupo de artistas e intelectuais comprometidos com a superação da tradição moderna no estado, a criação do Museu foi um ato simbólico significativo na consolidação das tendências artísticas contemporâneas. A criação do MAC fez parte de um conjunto de muitos esforços, como a criação do Mestrado e Doutorado em Artes Visuais da UFRGS, da Bienal do MERCOSUL, da Fundação Iberê Camargo e da Fundação Vera Chaves, entre outros, que concorreram para que, hoje, se possa dizer que a arte contemporânea no estado é uma corrente consolidada.

Gestado e mantido sob a ótica da inclusão, este acervo não se propõe a estabelecer seleções de qualidade e hierarquização das obras, mas valorizá-las como contribuições culturais, históricas e artísticas do meio em que se inserem. Assim, o desejo de contemporaneidade, evidente na proposta da exposição e no texto do catálogo, dialoga com o conjunto das obras mostradas. Um largo espectro de trabalhos, com predomínio da pintura, da escultura e da fotografia, com poucos vídeos e nenhuma instalação ou performance, categorias artísticas mais representativas da contemporaneidade. Presentes obras de artistas de outros estados do Brasil (o Pará está bastante representado), o destaque numérico é para os nomes locais, e, praticamente, inexistem as conexões internacionais, típicas da arte contemporânea. A qualidade dos trabalhos apresentados não oculta os limites deste acervo, constituído predominantemente de obras doadas por artistas, em que alguns nomes referenciais estão ausentes.

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Na contemporaneidade, podem ser vistas exposições em que predominam telas e esculturas mais tradicionais e de viés moderno, assim como também exposições de objetos, instalações, vídeos ou performances, mais ousadas e contestadoras. Os que aceitam um tipo de obra, em geral, são bastante refratários às outras, e, no cerne do sistema da arte, uma ferrenha disputa entre regimes artísticos diversos se desenvolve. A variedade de produções, bem como a inexistência de critérios minimamente aceitos por todos dificultam, hoje, a definição do que é ou não arte, dilacerando os limites do sistema institucional e questionando a atuação dos museus.

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Tentando aclarar estas disputas, Nathalie Heinisch, em um livro cujo título já demonstra a complexidade da situação – Pour en finir avec la querele de l’art contemporain – propõe distinguir três maneiras diferentes de conceber a arte hoje. A primeira, seria clássica, baseada na figuração e respeitando as regras acadêmicas de imitação do real. Os artistas inseridos nesta tendência trabalham com os grandes temas: natureza morta, paisagem, retratos e respeitam os suportes tradicionais (pintura, escultura, gravura, desenho). Sua aceitação, em geral, é local, restrito ao grupo que a reconhece. Uma Segunda tendência seria moderna, baseada na expressão da subjetividade do artista, valorizada por sua autenticidade, garantida pela assinatura e pelo estilo de cada autor. Os seus seguidores respeitam e valorizam a obra de arte e os limites dos suportes tradicionais, renegando a dimensão idealizada da figura e adotando relações formais que fogem à representação do mundo.

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A terceira tendência seria a contemporânea, que repousa essencialmente sobre a experimentação de todo tipo de ruptura e transgressão, desde os critérios artísticos aos quadros disciplinares, morais e jurídicos. O valor da arte para eles não reside mais no objeto, mas num conjunto de mediações que se estabelecem entre o artista e o espectador, e pelas redes relacionais que se estabelecem através de eventos/espetáculos.

A convivência conflitiva entre esses diversificados regimes estéticos, além do uso de espaços marginais, tais como galpões, bares e a própria rua, incorporados como locais de exposição pressionam as instituições museológicas a lidarem de maneira articulada com objetos e criadores de diferentes origens. Campos e atores à margem do circuito oficial são integrados ao sistema institucional através de inúmeras e diversificadas estratégias.

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Segundo o curador Gaudêncio Fidelis, “O título da exposição no Santander Cultural faz uma alusão ao domínio da atualidade sobre o terreno da arte e da cultura e sua capacidade de mobilizar sentimentos de inclusão, cosmopolitismo, barreiras culturais, liberdade de expressão e solução de problemas de tradução cultural que, se postos em contraposição a uma perspectiva historicista, podem propiciar significativas fontes de aprendizado e experiência do mundo”. Para desenvolver esse pensamento, Fidelis optou por uma estratégia de exibição das obras seguindo a tendência labiríntica, já proposta por ele anteriormente, que recusa historicidades, criando inúmeras possibilidades de leitura a partir de justaposições. Na museografia, ou design da exposição, propôs romper com o cubo branco da galeria imposto pela modernidade, mesmo considerando que o espaço do Santander já é, em si, uma ruptura com este modelo. Para tal o curador, partindo de sua experiência na escultura, criou uma série de displays que, ao mesmo tempo, servem de suporte para algumas obras e funcionam, como ele mesmo afirma, como uma exposição dentro de outra. Um momento interessante foi a apropriação pelo artista Carlos Asp, de um desses displays, para intervir diretamente sobre ele, instaurando uma obra original e dialógica.

Um aspecto importante dessa mostra é chamar a atenção do público e das autoridades para a importância e a abrangência da arte contemporânea no estado, com artistas que ultrapassam as fronteiras locais e, ao mesmo tempo, com a ausência de um espaço adequado, que abrigue essa produção, construindo sua memória. Visitar a exposição oportuniza uma experiência de diversidade e uma vivência do desejo do contemporâneo que todos merecem se dar.

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