Despertando interesse e construindo olhares


Neste país enorme, uma questão importante a se colocar é sobre a necessidade de a arte ser cada vez mais descentralizada, de forma semelhante ao que se demanda de todos os demais serviços oferecidos à população. Se a centralização das artes em São Paulo e no Rio de janeiro, por um lado, pode ser prática, pois com uma ou duas viagens se pode ver tudo que acontece de importante no País, por outro, alija desta participação boa parte da população que não pode realizar essas viagens continuamente. Assim, é com satisfação que se verifica que Curitiba ostenta um magnífico espaço para a arte contemporânea, o Museu Oscar Niemeyer, MON.  Instalado em um prédio especialmente adaptado para essa função por projeto do mais famoso arquiteto brasileiro, o museu assume seu nome. O museu está instalado em um complexo de 144 mil metros quadrados, com mais de 35 mil metros quadrados de área construída e em torno de 17 mil metros quadrados de área expositiva. Oscar Niemeyer utilizou no prédio a tecnologia do concreto protendido, criando grandes vãos livres entre as colunas e grandes balanços. O traço sinuoso do arquiteto evidencia leveza formal e arrojo estrutural, explorando ao máximo as possibilidades formais do espaço. É gratificante verificar que fora dos grandes núcleos também existem espaços importantes para grandes mostras de artes visuais.

Neste momento, em comemoração a seus dez anos de atividade, o MON apresenta, entre outras exposições, uma especialmente digna de destaque: “1911-2011 Arte Brasileira e depois”. Constituída por 187 obras de 138 artistas, pertencentes a Coleção Itaú, a mostra, com curadoria de Teixeira Coelho, foi já apresentada no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, e no Paço Imperial, no Rio de Janeiro.

A exposição, que faz uma revisão histórica da produção artística no Brasil, sem se ater a uma cronologia rígida, está organizada em doze módulos. O primeiro, denominado “A marca humana”, está centrado na representação da figura humana, com ênfase nos primeiros anos do século XX, e na formação do modernismo. O segundo, ainda bastante focado no início do século e no modernismo, se intitula “Irrealismos”. Sob esta designação é apresentada toda uma gama poética de derivações não objetivas da realidade. O terceiro módulo, denominado “Modos de Abstração”, foca o desenvolvimento das correntes abstratas – geométrica e informal – como importante momento de formação da arte no País. No quarto módulo, “Na linha da ideia”, a curadoria enfoca a arte conceitual, com obras em que a idéia e o conceito se sobrepõem às formulações plásticas. No quinto, denominado “Arte antiarte”, são apresentadas obras que buscam romper com o sistema da arte, colocando-se à margem do mercado e negando-se como objetos artísticos. No sexto módulo, “A contestação Pop”, são acolhidas obras que fazem, em termos locais, uma leitura da arte Pop que se desenvolveu internacionalmente. Apropriando-se de ícones da cultura de massa e assumindo o banal como tema e recurso formal, elas estabelecem uma nova visualidade. No sétimo módulo, intitulado ”O juízo jocoso”, encontra-se um conjunto de obras que lidam com a ironia, o ceticismo e o cinismo, para estabelecer uma forma crítica e divertida de olhar o mundo. No oitavo módulo, “Arte como arte”, há uma ênfase na apropriação da história da arte pelas produções contemporâneas. De forma mais irônica ou mais reflexiva, conhecidas obras históricas retornam como ícones e como tema. O nono módulo, “A palavra imagem”, agrupa um conjunto de trabalhos nos quais a palavra é fundamental, seja como signo plástico, seja como informação. No décimo, “Pintura pós-pintura”, são apresentadas reflexões pictóricas sobre a pintura. São trabalhos que tanto se elaboram sobre a tradição da pintura como a desconstroem ou a reconstroem. O módulo, “Não objetos, antiformas”, enfoca trabalhos preponderantemente tri-dimensionais, em que a matéria e a fatura são exploradas como elementos de significação. No último módulo, “Outras mídias, outros modos”, são apresentadas propostas artísticas que utilizam as tecnologias digitais, vídeos, holografia e videoinstalação como recurso para sua construção poética.

As diferentes seções em que a exposição está dividida funcionam com certa flexibilidade, e algumas obras poderiam estar em diversos módulos, não há um rigor classificatório. A grande quantidade de módulos pode, em alguns momentos, dificultar a compreensão do público em relação ao conjunto que lhe é apresentado. Entretanto, por outro lado, esta segmentação estabelece pausas no percurso, o que parece ser bem adequado em uma exposição de grande porte como esta. Seja como for, esta é uma mostra importante, que oferece uma ampla visão da produção artística nacional. Através dela, é possível fazer um recorrido por diferentes e fundamentais momentos da arte que aqui se produziu e se produz. Contando com importantes artistas e obras, que vêm desde o modernismo percorrendo todos os demais momentos dessa trajetória artística, ela oferece ao público uma verdadeira aula de História da Arte no Brasil. Nela é possível perceber como os artistas nacionais acompanham os grandes movimentos da arte internacional, fazendo dela suas versões pessoais, criativas, versáteis e bem articuladas com as questões locais.

Na coluna da semana passada um leitor comentou que fora daqui (na Itália) pode ver a verdadeira arte, que a produção local é muito fraca e decepcionante. Talvez se possa pensar na importância de reconhecermos que esta é a “nossa arte”. Ela diz de nós e de nossa realidade. Talvez conhecê-la melhor seja uma forma de criar laços e sensibilizar o olhar. Para isso exposições de grandes coleções são fundamentais. Elas são fatores preponderantes para a construção de uma memória cultural e artística. Assim, instituições privadas como o Banco Itaú, organizando e mantendo uma coleção de 3.600 peças, das quais parte está apresentada na mostra “1911-2011 Arte Brasileira e depois”, concorrem para esta construção. Apresentando esta mostra, o MON, traz ao Sul do País uma oportunidade para a formação visual da população, permitindo que se construa uma relação mais íntima com as obras que fazem a nossa história da arte. Atraindo público não só de Curitiba, mas de toda a região paranaense e catarinense, o museu funciona como importante polo artístico cultural na região e merece uma visita.

http://www.sul21.com.br/jornal/despertando-interesse-e-construindo-olhares/

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