A apresentação de Laura Cattani, Munir Klamt e Túlio Pinto, sobre suas experiências de “residência” no Espacio de Arte Contemporáneo, em Montevidéu, me fez pensar sobre esse tipo de proposta, que tem sido oferecida por centros de arte no Brasil e no exterior. A residência no EAC, em Montevidéu, foi a terceira realizada pela instituição, mas a primeira a contar com a participação de artistas estrangeiros. Ela resultou de uma parceria com o Instituto de Artes Visuais da Secretaria de Cultura do RS, tendo os artistas enviado projetos que foram selecionados pela direção do centro. O trabalho se desenvolveu durante três meses, no espaço cultural localizado em uma antiga prisão. Cada artista recebeu duas celas para trabalhar e expor, sendo possível aos outros artistas envolvidos na residência (seis) e ao público acompanhar os processos de criação. A duração da atividade com um mesmo grupo foi especialmente interessante, pois permitiu um afastamento total do cotidiano, e a realização de tocas entre eles e uma imersão na experiência vivencial, tanto dos processos artísticos como da cultura local.
As residências de artistas são experiências bastante enriquecedoras e frutíferas, que respondem à necessidade de diálogo entre esses indivíduos, quase sempre envolvidos em um fazer bastante solitário em seu ateliê. A circulação desses profissionais, cruzando fronteiras, compartilhando conhecimentos e experiências, embora não seja um fenômeno recente, ganhou uma dimensão internacional a partir dos anos 90, quando começaram a se proliferar pelo mundo. As primeiras experiências nesses programas datam de 1889, em Worpswede, Alemanha, com a participação de Rainer Maria Rilke e Henrich Vogeler. Em Nova York, em 1900, a Take the Corporation of Yaddo implementou uma proposta nesse sentido, e, ainda em 1903, o Woodstock/Byrdcliffe Colony Arts organizou, também, uma atividade desse tipo.
A diversidade de modelos de residências corresponde à realidade de cada espaço, variando em termos de conteúdos, propostas e linguagens. Cada programa conta com infraestrutura, objetivos e tempo de duração específicos. Alguns se destinam a apenas uma modalidade artística (artes visuais, literatura, música, cinema, teatro etc.), enquanto outros estimulam diversos meios expressivos e a interação entre eles. A duração das residências, em geral, varia de duas semanas a seis meses, chegando, às vezes, a mais de um ano. As diferenças evidenciam-se, ainda, quanto às condições de financiamento, alojamento, seleção, acompanhamento e exposição do projeto desenvolvido. Basicamente, elas são realizadas contando com apoio de instituições que oferecem um lugar onde os artistas possam conviver e criar, facilitando a interação e a colaboração entre eles. Algumas são subvencionadas e gratuitas, mas outras são pagas pelos artistas residentes. Elas têm o objetivo ativar o campo artístico, dando visibilidade e reconhecimento ao local e à instituição que as promovem. Com diferentes estruturas, elas tiveram um importante impulso nos anos 60, quando apresentaram características underground e alternativas. Atualmente, elas têm caráter mais profissionalizante e buscam colocar os artistas em interação com as comunidades onde são inseridos pelo projeto financiador. Em seus diversos modelos, esta é uma das formas mais características de apoio e incentivo ao desenvolvimento das artes e, a partir dos anos 80, disseminou-se em várias cidades da Europa, dos Estados Unidos, do Canadá, do Japão e da América Latina.
O fenômeno tomou tanto porte que ensejou a criação da Rede Mundial de Residências Artísticas, “Resartis” , uma associação de mais de 400 centros e organizações,em mais de 70 países. Os membros dessa rede são dedicados a “oferecer a artistas, curadores e toda sorte de pessoas criativas um tempo e lugar longe de sua vida de todos os dias, uma experiência moldada dentro de um contexto geográfico e cultural única”. Artistas interessados podem aceder ao site para se informar sobre os lugares que fazem parte dessa associação.
A Aliança de Comunidades de Artistas , entidade dedicada a apoiar os espaços que oferecem residências em sua organização e manutenção, divulga os seguintes dados. Existem, atualmente, cerca de 500 comunidades de artistas nos EUA e mais de mil em todo o mundo. Em torno de 30 mil artistas realizam residências a cada ano, sendo 10 mil nos EUA. Esse tipo de atividade, nos EUA, movimenta, anualmente, em torno de US$ 40 milhões em apoios. Dessas residências, 70% são multidisciplinares, servindo artistas plásticos, escritores, compositores, cineastas, coreógrafos. Os locais de residências estão 60% em áreas rurais e pequenas cidades, enquanto 40% estão em áreas urbanas. Uma porcentagem de 90% deles têm programas públicos que se dedicam à comunidade local. A inscrição de candidatos, na maioria dos casos, é feita online.
Maristela Salvatori, artista que esteve no Frans Masereel Centrum, em Kasterlee , Bélgica, comentou que a instituição recebe cerca de dez artistas ao mesmo tempo, cada um deles para períodos de duas ou três semanas de trabalho autônomo. Cerca de metade dos artistas são belgas e os demais, das mais variadas procedências. Cada artista fica alojado em um chalé muito bem organizado e mantido. O centro conta com ótimos e muito bem equipados ateliês coletivos para trabalho com xilogravura, gravura em metal, litografia e serigrafia e algum suporte tecnológico (computadores, máquinas de xerox…), além de técnicos muito prestativos e competentes. Além de receber artistas em residência, eventualmente, o centro promove cursos, e quando isso ocorre os chalés são compartilhados entre os vários participantes. Em contrapartida pela residência, cada artista doa ao centro 10% de cada edição de gravuras realizada (ou um mínimo de cinco exemplares). Dessas obras, parte passa a incorporar o acervo do Royal Museum of Fine Arts, e parte fica circulando. Desse modo, o artista participa de muitas exposições promovidas pelo CFM.
Salvatori também fez residência na bem conhecida Cité Internationale des Arts, em Paris. Ter seu dossiê aprovado para residir na Cité des Arts significou, além de um importante reconhecimento da qualidade de seu trabalho, condições bastante favoráveis de poder desenvolver sua prática artística. A Cité abriga artistas visuais e também músicos e escritores, ali é possível conhecer muita gente interessante, com maior ou menor afinidades artísticas, frequentadores ou não dos ateliês. Nessa movimentada residência se estreitam laços com outros profissionais e se participa de muitas exposições, desde as promovidas pela própria instituição, quanto outras decorrentes deste convívio.
Conforme os dados da Aliança de Comunidades de artistas, mais da metade das residências se encontram na área rural. Nuno Sacramento, diretor do Scottish Sculpture Workshop, esteve em Porto Alegre, divulgando um desses espaços rurais na Escócia. Criado em 1979, ali são oferecidas residências, com ateliês montados, materiais e assistência técnica. O local é bem integrado com o entorno e com a comunidade, possibilitando uma experiência bastante original. No Brasil, o Instituto Sacatar, localizado na ilha de Itaparica, na Bahia, é um dos espaços rurais mais conhecidos, atuante desde 2001 ele oferece residências para diferentes áreas artísticas.
Uma experiência original – uma residência relâmpago – foi proposta nas comemorações de 50 anos do Ateliê Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Durante 72 horas, realizou-se uma vivência artística coletiva, com artistas de diferentes tradições e lógicas de organização da imagem, assumindo um compromisso com a diversidade e a interação. Os trabalhos resultantes dessa prática imersiva foram expostos no Museu de Arte Contemporânea do RS.
Para os interessados em ter mais informações sobre esse tipo de experiência, há, disponível online, um “Manual de Residências Artísticas” com dados e links de acesso a cada uma delas, organizadas por país. Considerando as condições internacionalizantes da cultura atual, as residências oferecem dinâmicas muito estimulantes, que tiram o artista plástico de seu mundo mais fechado, no ateliê, para vivenciar experiências coletivas desafiadoras. Um problema que parece se evidenciar, no entanto, é que a maioria das propostas está voltada para jovens artistas, quando, também, os mais maduros, com trabalhos consolidados, muitas vezes precisam desse oxigênio para dinamizar e dar novas perspectivas a sua vida profissional.
Originalmente postado no Jornal Sul 21, 7/dez/2013, 10h28min








