O clima foi favorável, a 9ª Bienal do Mercosul está aí


Publicado em: outubro 5, 2013

Consolidada por oito anteriores edições, em que a arte contemporânea foi se impondo no meio local, abrindo caminho para experimentos e ampliando sua atuação, inaugurou-se a 9ªedição da Bienal do Mercosul/Porto Alegre. Distribuídas em vários espaços museográficos – Santander Cultural, Memorial do Rio Grande do Sul, Museu de Arte do RGS (MARGS) e Usina do Gasômetro –, encontram-se as obras de um reduzido número de artistas, no total 59, dos quais 15 brasileiros e 10 gaúchos. Na sua maioria são projetos originais, desenvolvidos para essa mostra e também trabalhos pouco vistos, de artistas dos anos 1960 e 1970. A mostra, que estará aberta até 10 de novembro, apresenta um intenso calendário de atividades, que pode ser consultado no excelente site da mostra.

A curadora geral da Bienal, Sofía Hernández Chong Cuy (México-Nova Iorque), trabalhou com uma equipe curatorial que inclui Raimundas Malašauskas (Lituânia), Mônica Hoff (Porto Alegre, Brasil), Bernardo de Souza (Porto Alegre, Brasil), Sarah Demeuse (Nova Iorque), Daniela Pérez (México), Júlia Rebouças(Belo Horizonte), Dominic Willsdon (São Francisco, EUA) e Luiza Proença (São Paulo, Brasil), coordenadora editorial. O trabalho dessa equipe, cujos membros vivem em diferentes lugares, contou com uma forte base local nas figuras de Mônica Hoff e de Bernardo Souza. Sob o ambíguo título Se o clima for favorável, o projeto da Bienal envolve uma ampla gama de atividades, como a mostra das obras, performances e outros eventos que estão no espaço interstício de experimentos e invenções. A mostra como um todo pode ser percebida como um grande e complexo acontecimento criativo, de bastante repercussão midiática e contando com um importante apoio de assessoria de imprensa.

No seu lançamento, em agosto de 2012, deixou sair uma nuvem de fumaça na chaminé da Usina do Gasômetro. Na mesma linha, a abertura oficial contou com a colocação em frente ao Acampamento Farroupilha de uma instalação, com mais de 20m de comprimento, da artista polonesa Aleksandra Mir, divulgada como “destroços da queda de um satélite na orla do Guaíba”.

A proposta curatorial da Bienal se estruturou a partir de uma ampla pesquisa sobre projetos colaborativos comissionados realizados no mundo desde os anos 1960, recuperando a memória desses experimentos que envolveram artistas em interação com os processos produtivos e as tecnologias de seu tempo. Com o foco nas relações entre a natureza, a arte e a ciência, a mostra aposta em experimentação, imaginação e invenção, festejando a criatividade. Conectar artistas pesquisadores, que se comprometem com processos colaborativos e que se inserem no mundo tecnológico, foi a mais forte vertente conceitual desta mostra. Pensada como um “ambiente” de interação entre natureza e cultura, a Bienal desenvolve explorações estéticas do mundo natural e dos conhecimentos humanos.

A 9ª edição da Bienal do Mercosul, que se propõe a ser mais que uma grande exposição, está organizada em torno de três grandes eixos de atuação. Portais, previsões e arquipélagos é o segmento específico da exposição de obras, e tem como forças gravitacionais alguns artistas e propostas, tais como: Takis e seus experimentos em campos energéticos; Marta Minujín com suas performances envolvendo diferentes vias de comunicação, conectando vários lugares e pessoas; Robert Rauschenberg e Tony Smith com propostas de interações com a indústria; e Hans Haacke com a discussão dos sistemas. Cada um deles aponta de uma maneira contundente os pontos de desenvolvimento da mostra como um todo. Disposta de forma a estabelecer diálogos nos diferentes espaços expositivos, as obras um mesmo artista podem estar em mais de um local. Um texto colocado na entrada de cada um dos espaços dá indicações de como foram pensadas as interações ali presentes.

Porto Alegre, RS, Brasil, 25/09/13. 9a Bienal do Mercosul. Obra: Musa de Lama. Artista: Robert Rauschenberg. Espaco: Santander Cultural. Foto: Tarlis Schneider/Indicefoto

PORTO ALEGRE-RS, BRASIL, 20.09.13: 9a Bienal do Mercosul – Obra Caverna do Morcego, 1971 do artista Tony Smith no Museu de Artes do Rio Grande do Sul. Foto Eduardo Seidl/índicefoto

A emergência das práticas colaborativas na arte contemporânea já foi apontada por diversos autores, que destacam o envolvimento dos artistas com comunidades ou grupos marginalizados e que fazem do trabalho artístico uma pauta de desenvolvimento social e de cidadania. Alguns exemplos dessas experiências foram inclusive apresentados na edição anterior da Bienal do Mercosul. O que marca esta edição da Bienal é um levantamento específico de práticas colaborativas desenvolvida, preponderantemente, junto a empresas e centros de pesquisa e promovendo uma íntima articulação entre arte e conhecimento tecnológico. Nesse sentido, para seleção dos artista, foi realizado um trabalho de pesquisa sobre experimentos em centros de pesquisa e programas desse tipo desenvolvidos em diferentes regiões do mundo. Assim, a mostra tem um caráter ao mesmo tempo histórico e atual.

Foi especialmente concebido e implementado, além disso, um projeto para esta Bienal, denominadoMáquinas da imaginação, constituído por cinco trabalhos colaborativos comissionados, desenvolvidos por artistas junto a empresas, institutos de pesquisa e comunidades. Foram eles: Audrey Cottin (Centro de Microgravidade PUC-RS); Cintia Marcelle (Siderúrgica Guerdau); Daniel Mangrané ( Polo Naval da Petrobras); Lucy Skaer (Indústria Irani, de produção de breu); Luiz Roque (Programa de Transtorno de Identidade de Gênero da UFRGS e Centro de Engenharia Mecatrônica da PUC-RS). Esse programa aposta nos processos colaborativos como forma de inserção da arte no mundo da produção e da pesquisa científica e contou com o apoio de empresas e instituições locais. Desse modo, oportunizou interações de artistas com os processos industriais e de investigação que resultaram em instigantes trabalhos artísticos.

PORTO ALEGRE-RS, BRASIL, 20.09.13: 9a Bienal do Mercosul – Obra Viajante devorado pelo espaço da artista Cinthia Marcelle no Memorial do Rio Grande do Sul. Foto Eduardo Seidl/índicefoto

Um segundo eixo é Encontros na ilha, constituído como um programa processual, engajando artistas e pensadores teóricos para refletir sobre as experiências vivenciais em ilhas, a partir de visitas realizadas à Ilha da Pedras Brancas, ou Ilha do Presídio, como é comunmente conhecida. Ao longo dos meses de maio a novembro de 2013, estão sendo realizadas viagens mensais com um grupo de convidados a essa ilha do Guaíba. As reflexões produzidas a partir desta proposta encontram-se disponibilizados no site da Bienal. Fizeram parte desse núcleo artistas que realizaram trabalhos a partir dessa proposta deflagradora de emoções e criações: Danilo Christidis, Fernanda Gassen, Romy Pocztaruk, Katia Prates, Leticia Ramos, Leonardo Lemor e Tiago Rivaldo.

O terceiro eixo foi Redes de formação, que buscou dar continuidade e ampliar o projeto pedagógico, tradicionalmente relevante nas Bienais do Mercosul. Pensada como um conjunto de atividades, ela engloba sala de aula, auditório, visitas à minas a beira do rio, a parques eólicos, observações sensoriais e empíricas, aprendizados dialógicos e contradiscursivos. As publicações foram fundamentais nesse projeto, englobando Nuvem, uma antologia de textos influentes no pensamento da equipe curatorial, Manual para cuiriosos, material com atividades para professores, e os textos e vídeos disponibilizados no web site.

Aproveitando o tempo e dedicando-se a explorar as inúmeras atividades oferecidas pela Bienal, será possível vivenciar uma experiência estética que envolve arte, tecnologia e muitos outros tipos de conhecimento, em uma proposta que pensa as práticas artísticas se espalhando pelos espaços e pela vida cotidiana da cidade.

Link de acesso: https://www.sul21.com.br/postsrascunho/2013/10/o-clima-foi-favoravel-a-9a-bienal-do-mercosul-esta-ai/

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