Caso
ACT - Clonagem Humana
José Roberto Goldim

No dia 25 de novembro de 2001, um domingo, foi feito o anúncio público de que uma empresa de biotecnologia norte-americana - Advanced Cell Tecnology (ACT) - tinha conseguido fazer o primeiro clone humano a partir de células somáticas, utilizando fibroblastos.  A publicação dos dados foi feita em uma revista científica eletrônica - E-biomed: The Journal of Regenerative Medicine - com data de publicação de 26 de novembro de 2001. A equipe de pesquisadores tem experiência na área, já tendo realizado clonagem de bovinos. Todos os autores são apresentados na publicação como sendo vinculados a empresas privadas (Advaced Cell Technology e Duncan Holly Biomedical) e não a instituições acadêmicas. O artigo apresenta, de forma sumária,  alguns dados sobre os métodos utilizados e sobre os resultados obtidos.  Os recursos financeiros utilizados na pesquisa foram todos de origem privada.

A repercusão da notícia foi imediata, com as agências de notícias divulgando esta informação em todo o mundo. Na segunda-feira, 26 de novembro de 2001, a maioria dos jornais do mundo colocou esta notícia em destaque, muitos tendo utilizado como manchete principal.

Questões que podem ser comentadas

Forma de Divulgação

No dia 25 de novembro de 2001 a empresa Advanced Cell Technology (ACT) divulgou em seu site na internet um pacote de informações sobre a produção em laboratório do primeiro clone humano. Estavam incluídos um informe para meios de comunicação, um artigo científico, um artigo de divulgação científica e uma reportagem leiga. Este conjunto de informações, divulgados de forma simultânea, é pouco usual. Habitualmente ocorre a divulgação científica, em revista reconhecida pela comunidade científica. Após ocorre a repercussão na imprensa leiga, com a publicação de reprotagens que possam esclarecer adequadamente o público sobre os aspectos científicos e s uas repercussões e finalmente as revistas de divulgação apresentam artigos que apresentam as informações científicas de forma mais acessível, porém preservando o conteúdo científico da matéria. As datas de publicação também chamam a atenção. O artigo científico estava datado de 26/11/2001, a matéria de divulgação será publicada no número de janeiro de 2002 e a reportagem leiga está datada em 03/12/2201. De modo geral, os jornalistas tem dificuldades para elaborar a pauta de reportagem para a edição de segundas-feiras, devido a escassez de notícias que ocorrem no domingo, exceto nas áreas esportivas e de acidentes. A divulgação de uma notícia de impacto, como a clonagem de um ser humano, feita num domingo potencializa a sua divulgação. Esta é a opinião de alguns ombudsman de jornais. A divulgação antecipada ou simultânea na imprensa leiga e na científica, que infelizmente não é incomum nos dias de hoje, é tida como inadequada pois não permite que outros cientistas possam fazer uma revisão crítica sobre o que está sendo proposto, que a própria comunidade científica reflita sobre o ocorrido. Isto ficou evidente nas matérias publicadas nos jornais, quando a maioria dos cientistas e outros rofissionais entrevistados desconheciam o teor dos resultados, opinando com base nas informações da própria imprensa. Outro fator que gerou algum desconforto, foi a publicação na revista de divulgação Scientific American e na revista US News. As reportagens já estavam totalmente elaboradas, incluíndo entrevistas com participantes, e apresentando detalhes que não constam no próprio artigo publicado. A matéria da US News afirma que seus reporteres já estavam trabalhando dentro da ACT desde 18 meses antes dad divulgação. A reporter da Scientific American já tinha as informações sobre a clonagem desde 13 de outubro de 2001.


Meio de Divulgação Científica

A revista utilizada para divulgação  - E-biomed: The Journal of Regenerative Medicine - não é indexada nem catalogada em registros internacionais. A indicação de que o material é todo eletrônico, inclusive a revisão por comitê editorial deixa algumas dúvidas quanto a qualidade do processo de seleção e aceitação de materiais para a publicação. O Dr. Michael D. West, propietário da Advanced Cell Technology, é membro deste comitê editorial. A revista tem um nome (E-biomed) que pode gerar confusão com uma proposta de contrução de uma base de dados pelo Instituto Nacional de Saude (NIH) dos Estados Unidos feita no final dos anos 1990. O e-biomed acabou sendo transformado no PUBMED, que é a nova interface da MEDLINE.


Equipe de Pesquisadores

O grupo de pesquisadores citados no artigo tem experiência e qualificação para realizar este tipo de projeto. Chama a atenção que um dos pesquisadores sempre esteja trabalhando com temas polêmicos. Esta caracteristica poderia levar a suposição de que este pesquisador é partidário da proposta de Bacon: tudo que é possível deve ser realizado.


Comitê de Ética em Pesquisa

De acordo com o artigo publicado, o projeto foi aprovado pelo Comitê Consultor de Ética, vinculado à Advanced Cell Technology. Este Comitê é coordenado pelo Prof. Ronald Green, que tem renome na área de aspectos éticos em pesquisas e usos de embriões. Chama a atenção que dois dos pesquisadores (Ann A. Kiessling e Michael D. West) são membros do referido Comitê. Da mesma forma,. dois artigos foram publicados pelos pesquisadores em coautoria com o coordenador do Comitê ressaltando a adequação da pesquisa em embriões para fins de clonagem terapêutica, um na revista Science e outro no JAMA. O Prof. Green publicou um artigo no mesmo número da revista Scientific American justificando os aspectos éticos da pesquisa. O nome da Prof. Kiessling foi omitido na reportagem quando foram listados os membros do Comitê. O principal questionamento é o que se refere a independencia que um comitê com estas características e vínculos. O comitê limitou o projeto de pesquisa impondo um prazo máximo de 14 dias pós-concepção para o desenvolimento embrionário. Este critério é o  usualmente utilizado na legislação inglesa. Este critério deve ter sido utilizado como uma cautela contra eventuais legislações norte-americas que pudessem ser aprovadas durante o trnascurso do experimento. Vale lembrar que havia a previsão de votar uma lei federal norte-america sobre o tema da clonagem para o início do mes de setembro de 2001, que teve a sua apreciação postergada em função dos atentados de 11 de setembro em Nova Iorque.
Forma de Obtenção dos Óvulos
No artigo é citado apenas que foram obtidos 71 óvulos de 7 mulheres. Não houve qualquer referência quanto ao processo de obtenção do consentimento informado nem se houve ou não pagamento associado ao procedimento. No artigo publicado na revista Scientific American os autores explicam que as mulheres foram recrutadas por um chamamento através da imprensa e selecionadas de acordo com os critérios de seleção (idade, ter filhos...).
Forma de Obtenção dos Fibroblastos
No artigo científico não é feita qualquer referência sobre a forma de obtenção dos fibroblastos nem sobre os doadores . No artigo da revista US News consta o nome dos doadores toda a sua história de vida, posição ideológica, religião e outras características. O fato de um dos doadores ser uma pessoa portadora de lesão neurológica e outro ser diabético poderia estimular a idéia da possibilidade uso imediato destas células produzidas para benefício direto destes pacientes. Esta possibilidade não era técnicamente viável nas condições existentes na época da pesquisa.
Status dos Embriões
Nos artigos da revista US News e da Scientifica American, escrito pelo responsável do Comitê de Ética, existe uma série de justificativas para a utilização de embrões como fonte de células-tronco. O Prof. Ronald Green utiliza o termo "entidade humana", e não ser humano ou pessoa ao se referir aos embriões, caracterizando-os como um novo tipo de ser até agora ainda não existente e desta forma merecedor de um novo status. No artigo a revista US News consta a opinião de membro da Igreja Episcopal, que era a denominação religiosa de um dos doadores de fibroblastos, onde ele expressa que não há impedimento religioso, pois são células da própria pessoa e não serão utilizadas para fins reprodutivos, mas como uma simples cultura de células. A associação destes argumentos éticos e religiosos, com a finalidade terapêutica do experimento, gera um clima de aceitação para este tipo de pesquisa, sem contudo esclarecer os demais aspectos que podem ser levantados. Dentre estes aspectos podem ser destacados que os embriões são sempre eliminados ao final deste tipo de experimento, nem que o processo para obtenção dos embriões é o mesmo da clonagem reprodutiva, diferindo apenas a finalidade de ambos.


Resultados Obtidos

Os resultados obtidos são bastante questionáveis. Todos os embriões produzidos supostamente por clonagem se inviabilizaram em etapas muito precoces, 4 a 6 células. Inúmeros pesquisadores, inclusive o Prof. Ian Wilnut, chegaram a supor que, de fato não houve clonagem, mas sim uma ativação do óvulo devida a manipulação. Caso tivesse havido clonagem neste mesmo período de tempo de acompanhamento, deveriam ter sido geradas 60 células e não apenas 4 ou 6 células. O Prof. Wilnut e vários outros cientistas levantaram a questão de que esta pesquisa não se constituiria em um avanço científico para a linha de pesquisa em clonagem humana, devido a deficiência de seus resultados.

Nota:
As questões levantadas anteriormente devem servir para reflexão sobre os aspectos éticos e metodológicos envolvidos em uma pesquisa científica, não se constituíndo em um julgamento sobre a conduta dos pesquisadores, meios de comunicação ou empresas citadas.


Clonagem em seres humanos
Página de Abertura - Bioética

Texto incluído em 02/12/2001
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