Conhecimento Perigoso


Prof. José Roberto Goldim

A noção de que o conhecimento pode ser perigoso não é nova, já foi utilizada na própria Biblia. Segundo o relato do Livro do Gênesis, Adão foi expulso do paraíso por ter comido a fruta da árvore do conhecimento.

Samuel Johnson (1709-1784), em seu romance Rasselas, o Príncipe da Abissínia, de 1759, escreveu:

A integridade sem conhecimento é débil e inútil e o conhecimento sem integridade é perigoso e temível.


 Em 1963, Karl Popper, citado por Ben-David, afirmou:

A ciência e o crecimento do conhecimento estão sempre partindo de problemas e talvez terminando em problemas - problemas de profundidade sempre crescente e com uma fertilidade sempre crescente para sugerir novos problemas.


 Van Rensselaer Potter, baseando-se em um artigo seu publicado em 1967, definiu conhecimento perigoso como sendo aquele conhecimento que se acumulou muito mais rapidamente que a sabedoria necessária para gerenciá-lo.

Ele caracterizava a sabedoria como o conhecimento necessário para utilizar o conhecimento para o bem social. O conhecimento torna-se perigoso nas mãos de especialistas aos quais falta um referencial amplo para visualizarem todas as implicações de seu trabalho.

Isto tornou-se evidente, em 1974, quando um grupo de pesquisadores sugeriu uma moratória nas pesquisas que envolvessem manipulação genética. Esta sugestão foi publicada simultaneamente nas revistas Nature e Science. Em abril deste mesmo ano, esta moratória foi discutida e implantada em uma reunião científica realizada no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Esta moratória permaneceu até fevereiro de 1975. Nesta data foi realizada uma nova reunião de cientistas, envolvendo 140 especialistas norte-americanos e estrangeiros, no que ficou sendo conhecida como Reunião de Asilomar. Nesta ocasião ficou decidido que o Comitê Assessor para DNA recombinante (RAC), que havia sido criado em 1974, seria o responsável pela elaboração das diretrizes de Asilomar para a segurança dos experimentos com DNA recombinante. Este documento ficou pronto em 23 de junho de 1976.

Em 1982, Edgar Morin, no seu livro Ciência com Consciência, apresentou sua preocupação com uma observação que se observa a si mesma, desenvolve-se e metamorfoseia-se em preocupação permanente de um conhecimento que se conhece a si mesmo. Assim formulou o problema central de um conhecimento do conhecimento, e singularmente do conhecimento do conhecimento científico. Desta reflexão é que surgiu o título "Ciência com Consciência".

A questão que envolve a manutenção ou não das amostras de vírus de varíola tem um forte componente de conhecimento perigoso. As discussões que vem sendo mantidas desde 1978 sobre a destruição ou não das amostras preservadas se baseiam, fundamentalmente, em duas diferentes posições. Os cientistas são atraídos pelas possibilidades de realizar pesquisas com este vírus que tem muitas semelhanças com outras substâncias do sistema imunológico humano. Por outro lado, existe o risco de que este vírus sendo liberado, acidental ou deliberadamente, possa causar uma mortalidade muito significativa entre as pessoas contaminadas, estimada em 20%.

Outro exemplo é o atual debate sobre as questões éticas. legais e sociais do Projeto Genoma Humano. Esta nova área de conhecimento gera uma situação de crise, onde estão sempre presentes os componentes de risco e oportunidades. Os riscos assustam e geram temores, as oportunidades atraem pelas possibilidades de prevenção, cura e ganhos financeiros. Por ser um conjunto de conhecimentos extremamente recente, ainda não foi possível refletir adequadamente sobre todas as suas eventuais consequencias. Além do mais, é uma área onde a inovação é tão drástica, que muitos conceitos e reflexões anteriormente realizadas não tem transposição direta. É uma situação que exige uma nova e profunda reflexão ética.

Reconhecer um conhecimento como sendo perigoso não significa impedir, a priori, o seu avanço. Isto seria uma medida obscurantista. Em 1956 já foi dito, conforme citado por Potter, que
 

a melhor maneira de se lidar com o conhecimento perigoso é buscando mais conhecimento".


Desta forma, o diálogo entre a Ciência (conhecimento) com a Filosofia (sabedoria) é uma das bases para a reflexão bioética.



Potter VR. Bioethics. Bridge to the future. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1971:69,70,183.

Ben-David J. Sociologia da Ciência. São Paulo: EFGV, 1975:38.

Morin E. Ciência com consciência. Lisboa: Europa-América, sd (1983?):17.


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Página de Abertura - Bioética
Texto atualizado em 27/07/2000
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