O TÊNUE LIMITE ENTRE O PÚBLICO E PRIVADO


David Coimbra

A morte da princesa Diana (mais especificamente as circunstâncias da morte da princesa Diana) escancarou à sociedade uma questão antes debatida quase que só nas redações de jornal: até que ponto a vida de uma personagem pública pode ser abordada e explorada pela imprensa?

Nas primeiras horas que sucederam ao acidente que vitimou a princesa, os jornalistas entraram em polvorosa. Os paparazzi tinham sido eleitos como os vilões, os assassinos. Alguns foram presos pela polícia francesa. Os noticiários abriram espaço para discutir a atuação desses caçadores de celebridades. E algumas celebridades aproveitaram para reclamar que são perseguidas sem clemência pelos jornalistas.

Houve também a reação de alguns fotógrafos argumentando que essas pessoas públicas são, exatamente, "públicas". Ou seja: uma vez que exercem funções de interesse de toda a comunidade, suas atividades, sua vida, enfim, também são de interesse da comunidade, e por isso despertam a atenção das pessoas, e por isso merecem espaço na imprensa.

Outro argumento apresentado pelos jornalistas: essas pessoas públicas, antes de se tornarem celebridades, procuram a imprensa e, muitas vezes, imploram por espaço nos noticiários. Aí estão os releases, os assessores de imprensa, os empresários que passam os dias cavando espaço em jornais, rádios e TVs. Logo, depois de se tornarem celebridades as chamadas pessoas públicas conseguem o que querem e não podem ficar se queixando disso.

Há, porém, outras ramificações do problema: alguém que é suspeito de algum crime pode ter seu nome e imagem expostos publicamente enquanto não for julgado ou indiciado? Hoje, muitos jornais não publicam nomes de suspeitos, a não ser que haja muitos indícios apontando para ele.

Na área médica: doentes de AIDS devem ter suas identidades reveladas? E se o doente for uma pessoa pública, como Cazuza ou o centroavante Gérson, que era do Inter? O prontuário de uma pessoa pública pode ser divulgado? Há pouco tempo, um jogador de futebol teve um surto psicótico e foi internado numa casa de saúde. Alguns veículos divulgaram o fato, outros não. Que doenças podem ser divulgadas?

Ainda há o clássico caso do suicídio. Está comprovado que divulgar suicídios causa mais suicídios. Assim, a maioria dos jornais não publica casos de suicídio, exceto nos das tais pessoas públicas. Mas, e uma tentativa de suicídio de uma pessoa pública, deve ser divulgada? Aconteceu um caso recentemente e os jornais não divulgaram.

São muitas as dúvidas, portanto. Estão sendo discutidas e resolvidas no dia-a-dia das redações. Mas ainda se está longe de um critério único, ou de uma regra geral. Só mesmo se discutindo caso a caso pode-se chegar a algum denominador comum.

David Coimbra é jornalista de Zero Hora.


Texto de Referência - Ruy Carlos Ostermann
Página de Abertura - Bioética

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