Danos morais


Ruy Carlos Ostermann

A absolvição de Anderson não é inteiramente reparadora; desde o anúncio do doping, Anderson é um dopado com denúncia pública. O fato de que deveria ser julgado e só então penalizado é apenas formalidade da lei. Não cogita da integridade moral do jogador que, até provar-se o contrário e ser unânime a decisão dos juízes, era culpado.

É um problema velho já, do jornalismo e da Justiça: toda notícia desse porte contém a sua totalidade, não fica pela metade nem permite considerações parciais. Será sempre a maior dificuldade da Comissão antidoping. Ela não deveria divulgar sua suspeitas. Mas é como o preso. Ele está preso, algemado, levado no camburão. Pode-se dizer que é o principal suspeito ou um dos suspeitos, mas as algemas e a foto são decisivos para um julgamento sumário.

Deu-se o mesmo com Anderson. Caberia até uma ação de reparação por danos morais.

O que deve interessar agora é a reintegração plena e limpa de Anderson no convívio dos companheiros e na consideração da mídia e do público. Mas para a política do antidoping será preciso sentar em torno de uma mesa, fechar a porta e pensar um pouco a respeito. Não se pode repetir o caso Anderson. Mesmo que tenha sido o primeiro caso de absolvição, esta possibilidade é a que mais interessa. E, se não valesse o depoimento indispensável de Eduardo de Rose, uma autoridade mundial no assunto, valeria a simples constatação de que o exame punitivo era sobre matéria inócua. O que é inaceitável. Quando se está diante da evidência da injustiça é impossível prosseguir com os mesmos métodos. É sobre isso que se deve decidir logo.

Publicado em Zero Hora 30/1/98 página 65


Texto de Referência - David Coimbra
Página de Abertura - Bioética

(C)1998