Apesar de alguns protestos, cerca de 90% dos holandeses aprovam a medida, conforme as pesquisas
Haia
A Holanda tornou-se ontem o primeiro país do mundo a legalizar a eutanásia.
Por 46 votos a favor e 28 contra, o Senado aprovou a lei que permitirá aos médicos abreviar a vida de doentes terminais.
Do lado de fora do parlamento, com sede em Haia, cerca de 10 mil manifestantes protestaram contra a aprovação da lei, que já havia passado pela Câmara dos Deputados em novembro de 2000. Eles cantavam hinos religiosos e liam passagens da Bíblia.
Apesar dos protestos, pesquisas indicam que cerca de 90% dos holandeses apóiam a eutanásia. A nova legislação, que deverá entrar em vigor em meados do ano, formalizará uma prática que já vinha sendo adotada há décadas em hospitais holandeses.
Isso permitirá que as pessoas façam suas próprias escolhas elogiou Tamora Langley, da Voluntary Euthanasia Society, uma organização britânica pró-eutanásia.
Os médicos terão que obedecer regras rigorosas para praticar a eutanásia (veja no quadro abaixo). O caso também deve ser submetido ao controle de comissões regionais encarregadas de fiscalizar se os requisitos foram cumpridos. As comissões serão integradas por um médico, um jurista e um especialista em ética.
Os menores de idade, entre 12 e 16 anos, também poderão recorrer à eutanásia, desde que tenham o consentimento de seus pais. Segundo a nova lei, a prática só poderá ser realizada por médicos que acompanhem de perto e há muito tempo a saúde de seus pacientes.
A nova lei também permite que pacientes deixem um pedido por escrito. Isso dará aos médicos o direito de usar seus próprios critérios quando seus pacientes não puderem mais decidir por eles mesmos por conta de doenças.
O texto da lei foi aprovado oficialmente ontem, mas, na prática, a eutanásia já era tolerada sob condições especiais desde 1997. Apenas no ano passado, houve 2.123 casos oficiais de eutanásia na Holanda 1.893 doentes de câncer pediram a um médico que terminasse com suas vidas, o que representa 89% do total das eutanásias realizadas no país em 2000. Depois, aparecem pacientes com doenças neurológicas, pulmonares e cardiovasculares.
Nas semanas que precederam o debate da lei, o Senado recebeu mais de 60 mil cartas, a maioria delas pedindo que os parlamentares votassem contra a aprovação da lei. O grupo contrário à eutanásia Cry for Life, por exemplo, juntou 25 mil assinaturas em um abaixo-assinado. Egbert Schuurman, parlamentar da União Cristã, classificou a aprovação da lei de erro histórico.
Ser o primeiro país a legalizar a eutanásia é algo para se ter vergonha disse Schuurman.
As organizações contrárias à prática alegam motivos religiosos e éticos. Ontem, cerca de 8 mil pessoas se reuniram em frente ao Senado, em um protesto silencioso contra a aprovação da medida. A manifestação foi convocada por um organização que agrupa 30 associações religiosas.
Somos contra o assassinato deliberado de pacientes disse Alex van Vuren, do grupo Cry For Life.
REQUISITOS
A eutanásia será permitida na Holanda
se forem cumpridos os seguintes requisitos:
Quando o paciente tiver uma doença incurável
e estiver com dores insuportáveis.
O paciente deve ter pedido, voluntariamente,
para morrer.
Depois que um segundo médico tiver emitido
sua opinião sobre o caso.
CONTRAPONTO
O que diz o padre Augusto Dalvit:
A eutanásia é o ato através
do qual as pessoas se julgam com autoridade para terminar com a vida dos
outros. É uma intromissão no direito à vida. Fere
a lei de Deus, o mandamento Não matarás.
O que diz o médico Oly Lobato:
Em determinadas circunstâncias, sou a
favor da eutanásia passiva. Ativa, jamais. Quando um paciente está
praticamente morto, mantido vivo por recursos artificiais, acho que, se
a família quer e consentir, o médico pode desligar.
O que diz José Roberto Goldin, professor
de Bioética da UFRGS e da PUC-RS:
Como foi aprovada na Holanda, sou contra, porque
pode abrir precedente para que a eutanásia seja feita de maneira
involuntária. A equipe médica poderia tomar as decisões
sem a participação do paciente.
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Holanda legaliza a eutanásia
Prática é considerada crime
no Brasil
RODRIGO LOPES
A prática da eutanásia é considerada crime no Brasil.
A atual Constituição, de 1988, estabelece entre os direitos fundamentais do homem o direito à vida, impedindo, em princípio, qualquer tentativa de tornar legal o suicídio assistido sem que antes a Carta seja modificada.
O Código Penal brasileiro não fala em eutanásia explicitamente, mas em homicídio privilegiado. Os médicos dividem a prática da morte assistida em dois tipos: ativa (com o uso de medicamentos que induzam à morte) e passiva ou ortotanásia (a omissão ou a interrupção do tratamento). Atualmente, no caso de um médico realizar eutanásia, o profissional pode ser condenado por crime de homicídio com pena de prisão de 12 a 30 anos ou auxílio ao suicídio prisão de dois a seis anos.
No
anteprojeto de reformulação do Código Penal brasileiro,
que está tramitando no Congresso, a eutanásia passiva pode
ser permitida. Fernando Weber Matos, 2º secretário do Conselho
Regional de Medicina do Estado (Cremers), explica que, segundo o novo código,
o médico poderia omitir ou interromper a terapia do paciente, desde
que a morte iminente e inevitável seja atestada por dois outros
profissionais. Seria preciso também o consentimento da família
e uma autorização judicial. De acordo com o anteprojeto,
a pena de prisão por prática da eutanásia ativa seria
reduzida em um terço ou à metade.
11/04/2001