Medicina e Espiritualidade:

Redescobrindo uma antiga aliança


 Resenha elaborada por
Jennifer Braathen Salgueiro, PhD
 GPPG/HCPA


 

Neste capítulo o autor nos coloca diante de importantes questões:

·         A enfermidade e a dor tem acompanhado a vida humana desde sua origem; p.891

·         O teólogo Antonio Autiero propõem três modelos interpretativos da enfermidade; o modelo mágico, a interpretação religiosa e o modelo científico-empírico moderno; p.891

·         A medicina passou de um período mágico-religioso iniciado no ano 500 a.C. até a medicina científica do séc. XIX, baseada na experimentação e não só na mera experiência. A partir disto três etapas são descritas por Larry Dossey: 1) a medicina materialista e fisicalista: etapa que começa no meio do séc. XIX, genuinamente científica, tem a física de Newton como modelo: o universo inteiro, incluindo o corpo humano, é como um relógio regido pelos princípios da casualidade determinista; 2) o modelo mente-corpo: inicia após a segunda guerra e admite a influência das percepções, emoções, atitudes e pensamentos sobre o corpo humano. A mente está localizada no cérebro e tem a capacidade de influenciar o seu próprio corpo; 3) a medicina transpersonal e translocal: exige uma compreensão que a relação mente-corpo transcende os limites de espaço e tempo. A mente é não local; p.892-95

·         Dados que indicam que as crenças espirituais e religiosas tem um efeito positivo na saúde dos pacientes: - Nos EUA, 95% da população crê em Deus e 57% reza ao menos uma vez por dia; - Os médicos são menos religiosos que a população em geral; - Estudo com 272 pacientes da terceira idade, encontrou que os que praticavam atividades religiosas tinham maiores índices de felicidade, de sentirem-se úteis e de ajuste pessoal; - Estudo clássico do Dr. Comstock encontrou que as pessoas que iam as igrejas pelo menos uma vez por semana, tinham 50% menos falecimentos por doenças coronárias, enfisema e suicídio e 75% menos de morte por cirrose; p.896

·         Benson, professor da Faculdade de Medicina de Harvard, está convencido que as crenças têm repercussões físicas e possuem um papel importante na prevenção e tratamento de enfermidades. Na sua opinião a medicina é como um banco com três pés: farmacologia, cirurgia e outros procedimentos médicos e o cuidado consigo mesmo (que inclui o exercício, o descanso, a nutrição e suas crenças); p.896

·         Toda pessoa é necessariamente espiritual, enquanto está dotada de espírito. A palavra espírito não se refere a divindade, mas a um ser dotado de autoconsciência e de capacidade de reflexão sobre si mesmo. A espiritualidade não implica necessariamente na fé em uma divindade pessoal, ao estilo do Deus dos cristãos. O ser humano seria um ser intrinsecamente espiritual, pois demonstra capacidade para reflexionar e auto-transcender-se; p.900

·         A espiritualidade pode estar ligada a religião, mas não necessariamente; p. 902

·         A busca de sentido e de significado é uma das necessidades fundamentais do ser humano, que o distingue, até onde nós sabemos, das demais espécies; p.902

·         O ser humano é um ser em relação: consigo mesmo, com seus semelhantes, com a natureza, com a divindade. No fundo, a espiritualidade sempre tem a ver com o transcender a si mesmo e para transcender a si mesmo é preciso entrar em relação; p.903

·         A pessoa espiritual sabe que não está só no universo e que não pode encontrar-se a si mesmo, alcançando sua própria plenitude, sem estar em relação com outros seres humanos e com outras criaturas. Na verdade, a experiência de sentido mais profundo é o amor ( de uma pessoa, de uma comunidade, de um ideal, da divindade) e o amor é, certamente, uma relação; p.903

·         ...o valor mais alto e importante que confere sentido a existência. Para a pessoa religiosa, este valor é deus. Para a não religiosa, este valor pode ser a liberdade, a justiça, a verdade, a humanidade, etc. Mas a pessoa não espiritual encontra-se centrada em si mesmo, de uma maneira míope e egocêntrica. O egocentrismo é o mais oposto a uma genuína espiritualidade; p.904

·         Os médicos resistem a espiritualidade e a oração para a saúde humana porque isto foi internalizado durante o processo de sua formação; p.904

·         Benson sustenta que a tendência dos seres humanos a religião e a experiência espiritual está inscrita em nossos genes. Nós fomos desenhados para crer. Para ele a fé em deus é tão natural para a humanidade como o instinto de lutar e fugir; p.906

·         Estudos de Newbwerg e D′ Aquili sugerem que a religião está intimamente ligada a constituição biológica do ser humano. Através do uso de tomografia (SPECT), encontraram que durante a experiência religiosa (oração), as áreas de maior atividade eram os lóbulos frontais, que governam a atenção, enquanto eram muito baixas as atividades do lóbulo posterior superior parietal, associada ao espaço físico; p.908

·         Desde 1994, algumas faculdades americanas começaram a incluir componentes de espiritualidade no seu ensino. Por exemplo: ensinar ao aluno a incluir o elemento de espiritualidade como parte da história clínica, apresentar bibliografia existente sobre a importância das espiritualidade para a assistência sanitária, apresentar casos em que as crenças espirituais afetaram os pacientes, ensinar a reconhecer conselheiros espirituais como parte integrante do corpo clínico, animar os alunos a ver seus próprios sistemas de crenças, avaliando como podem ajudar ou impedir a relação de ajuda ao paciente, introduzir as principais tradições religiosas, pondo em relevo sua relação com a medicina e as decisões no campo da saúde; p.911.

·         Os médicos devem ser, ao menos, sensíveis e respeitosos diante das crenças, sobretudo em situações de crise. Isto constitui um ingrediente indispensável para uma boa prática clínica; p.912.

·         Um problema distinto encontra-se quando o enfermo quer que a equipe ore com ele...a oração feita pelo médico é aceitável em três condições: não há agentes pastorais, o paciente deseja orar com seu médico e o médico pode orar com fé sincera e sem inibir o paciente. Se o médico não pode orar sinceramente deve limitar-se a escutar respeitosamente a oração feita pelo paciente; p.914

·         Tem que ficar claro, que a espiritualidade não pode reduzir-se a mais uma terapia, que os médicos podem receitar, da mesma maneira, por exemplo, que receitam antibióticos para uma infecção. A espiritualidade e a oração tem sentido em si mesmas e por si mesmas. Não são meros meios para melhorar a saúde; p.915.

·         Nem a oração necessita ser justificada pela medicina, nem a medicina pela religião. Ambas são atividades genuínas e valiosas, que se justificam a si mesmas em sua própria esfera; p.916.

·         Pessoas são seres bio-psico-sociais-espirituais, que se realizam na comunidade de pessoas e na comunidade dos povos do mundo. p.917

 


Referência:
Ferrer, J. Medicina y Espiritualidad: redescubriendo uma antigua alianza. In: Bioética: um diálogo Plural (Homenaje a Javier Gafo Fernández). Madrid: Ed. Univ. Pontificia Camillas, 2002:891-917.


Material de apoio - Bioética e Espiritualidade
Página de Abertura - Bioética

Texto incluído em 07/08/2003
(c)
Salgueiro/2003