Uma antropóloga, professora do Museu Nacional da UFRJ, e um doutor em química se juntaram para escrever um livro de contos que recupera sua experiência comum nos trabalhos de campo na Amazônia. Aparecida e Francisco não são apenas coautores; são mãe e filho, que durante anos mantiveram contato estreito com os Wari’, tribo indígena da região amazônica. No livro, encontram-se histórias de encontros improváveis, de metamorfoses, de conflitos sobre a terra, de evangelização e choque cultural, numa mescla de representação social da realidade sociopolítica dos habitantes nativos da Amazônia e valorização da poética do mito. Os autores não se alternam na assinatura dos contos; pelo contrário, como obra a quatro mãos, cada conto leva a marca de ambos, algo que, de certo modo, aponta para uma das especificidades literárias da obra, a saber, os atravessamentos múltiplos e contínuos entre as diferentes espécies presentes no ecossistema amazônico. Ao utilizar o formato consagrado do conto, Aparecida e Francisco renovam as perspectivas para a literatura, na medida em que congregam os pontos de vista indígena e as formas literárias convencionais. Ao mesmo tempo, Ficções Amazônicas1 lança luz sobre algumas das questões urgentes do presente climático, explorando, com sutileza, as temáticas do parentesco entre as espécies e da comunhão da natureza e da cultura. Não é exagero dizer que, a seu modo, o livro propõe caminhos para a reconstrução do mundo. Nesta entrevista gentilmente concedida pelos autores ao Carbono, ficamos a par do seu processo criativo e de suas concepções sobre a literatura, sobre ecologia e outros assuntos. Acompanhe!
ANTONIO BARROS: Podemos começar pelo processo criativo de vocês. Há duas coisas que chamam a atenção: primeiramente, se trata de um livro a quatro mãos, escrito por uma antropóloga e um químico. E, além disso, é um livro de ficção que se inspira nos conhecimentos antropológicos sobre os povos indígenas. Como se deu o processo de integração desses conhecimentos científicos ao trabalho de ficção? E como foi entre vocês o processo criativo de escrita dos contos a quatro mãos?
APARECIDA VILAÇA e FRANCISCO VILAÇA GASPAR: Mais do que um processo a quatro mãos entre uma antropóloga e um químico, o livro foi escrito por uma mãe e seu filho, que desde criança frequentou aldeias dos indígenas Wari’ na Amazônia. Juntos escolhíamos temas que nos interessavam explorar, como por exemplo o ritual de puberdade feminina, o canibalismo funerário e a iniciação de jovens, e buscávamos etnografias de povos indígenas que tratassem desses temas, escolhendo um povo específico para oferecer a base etnográfica do conto. A partir daí criávamos a narrativa ficcional, situando os dados etnográficos em contextos de encontros com brancos ou outras alteridades imaginados por nós, mas com forte base em nossa experiência empírica na Amazônia. Todos os contos, sem exceção, foram escritos em conjunto, cada um de nós adicionando partes ao que o outro havia escrito. A escrita da maior parte dos contos foi realizada durante a pandemia, cada um dos autores confinado em uma casa diferente, de modo que nossas interações davam-se por e-mail ou telefone. A experiência de escrita em coautoria mostrou-nos como a troca de ideias e percepções pode produzir textos mais complexos e, esperamos, mais interessantes, pois nos permitiu romper os limites das subjetividades individuais.
ANTONIO BARROS: As histórias que fazem parte do livro contêm humanos metamorfoseados em animais, viagens entre a Inglaterra e a Amazônia em uma cabine de banheiro, visões de espíritos, entre outras coisas. Porém, esses elementos, que poderiam situar o livro dentro dos gêneros mais tradicionais da literatura, não se configuram como ficção científica ou realismo mágico. De que modo o livro de vocês subverte os gêneros e inaugura um novo tipo de literatura? E o quanto isso está ligado às formas orais e tradicionais da cultura indígena?
APARECIDA e FRANCISCO: Essa é uma ótima pergunta. O ímpeto de classificar o livro como “realismo mágico”, dado que várias situações são incomuns do nosso ponto de vista, não nos parece ideal. Como nossa base são as culturas indígenas, fundadas em visões de mundo muito distintas da nossa, o que nos parece irreal ou mágico, para os indígenas que protagonizam os contos são ocorrências perfeitamente comuns fundadas em ontologias animistas e perspectivistas. Atravessar de um banheiro em Bristol e sair na floresta amazônica, por meio da manipulação casual de uma foto de parede, é tão plausível quanto um encontro com um branco na cidade ou na beira do rio. Um dos autores que escreveu a contracapa, Hermano Vianna, fala exatamente isso. Os contos exploram realidades amazônicas, que são diferentes das nossas.
ANTONIO BARROS: O conto que inaugura o livro, “Cinco amigos e um funeral”, traz uma história de antropofagia entre amigos brancos. É uma história que lida com um aspecto da cultura ameríndia que é tabu na cultura ocidental. Pensando justamente na importância desse tabu – e em como, por exemplo, os lestrigões e Polifemo são representados na Odisseia, livro fundante da literatura ocidental –, de que modo esse conto redefine a antropofagia para a nossa cultura?
APARECIDA e FRANCISCO: Oswald de Andrade foi o autor que melhor situou a antropofagia no contexto da cultura brasileira, como uma forma de relação com o outro, de captura de suas qualidades ou posição. Não se trata, no caso do canibalismo funerário retratado no conto, de um canibalismo de vingança, como aquele realizado pelo cíclope na Odisseia. Não se trata tampouco, como o conto deixa claro, de um ato violento, mas de um ato de compaixão e cuidado, de modo a dar ao morto o destino póstumo desejado. Isso fica claro nas mais diferentes etnografias do hoje extinto canibalismo funerário entre alguns povos Amazônicos.
ANTONIO BARROS: Outro conto que chama a atenção é “O Garrincha da floresta”. Se estou correto, creio que vocês deram forma literária à ideia de perspectivismo, conceito que apreende o tipo de relação imanentista presente nas culturas indígenas da Amazônia. Vocês acreditam que uma visão imanentista falta à cultura ocidental? A falta dessa visão prejudica as nossas relações ecológicas, precipitando a catástrofe ambiental?
APARECIDA e FRANCISCO: Não nos parece adequado classificar o perspectivismo ameríndio como imanentismo, ideia mais compatível com o dogma cristão da onipresença divina ou com os fundamentos de algumas religiões orientais. No perspectivismo as chamadas coisas ou forças invisíveis não estão presentes o tempo todo e quando se fazem presentes só podem ser vistas por determinadas pessoas, de um modo geral pelos xamãs. Não se trata de uma “realidade” única impregnada de subjetividades outras, mas de diferentes realidades, vividas de modo distinto dependendo da pessoa e seu contexto relacional. Indígenas, animais e alguns vegetais são ditos humanos, embora os indígenas em seu cotidiano não os vejam dessa forma. As relações entre essas diferentes subjetividades se dão dentro de um contexto de embate de perspectivas, onde o que um vê é diferente do que o outro vê. Os encontros são disputas e não contextos para contemplação mística de seres onipresentes. Voltando à alusão ao imanentismo, se pensarmos na aceleração da destruição ambiental na China hoje, a visão de uma natureza imbuída de espíritos não parece ser relevante diante dos interesses econômicos.
ANTONIO BARROS: Ainda sobre a questão ambiental e a catástrofe climática: é correto afirmar que, embora não diretamente, o livro de vocês toca nesses temas, pelo fato de lidarem com perspectivas culturais distintas do nosso modelo capitalista ecocida? E vocês acreditam que os contos podem contribuir de alguma forma para reestruturar a nossa visão ocidental em relação aos ecossistemas e ao nosso modo de vida?
APARECIDA e FRANCISCO: Certamente as relações indígenas com aquilo que chamamos de natureza são muito distintas das nossas. Mas isso não é devido ao que poderíamos compreender como uma devoção religiosa aos outros seres. Como dissemos acima, esses seres outro-que-humanos têm agência própria. Veem-se como humanos, vivem em casas, fazem festas, têm famílias. Quando são atacados, como na caçada, podem revidar, tornando-se eles mesmos predadores dos humanos. Devem ser respeitados em seus desejos, tais como nos cuidados que os indígenas devem ter com as presas mortas e com as maneiras de preparo e ingestão. O respeito e o cuidado têm como função a autopreservação e o medo das retaliações, ou seja, a vida dos indígenas, embora os efeitos de tal pensamento sejam evidentes no controle da destruição ambiental. Como sabemos, as áreas indígenas são as mais preservadas ao redor do globo. A saga etnocida não faz qualquer sentido para eles, pois sabem que os efeitos sobre si mesmos logo serão sentidos, fato que parece não ter sido bem compreendido por nós. Nesse sentido, os contos certamente contribuem para a difusão dessa visão relacional com a “natureza” que funda a vida dos povos indígenas. Embora não sejam contos didáticos ou que tenham os problemas decorrentes do Antropoceno como centro, oferecem ao leitor visões bem concretas do cotidiano dos indígenas amazônicos hoje. O tratamento ficcional dos dados etnográficos, com a criação de personagens bem definidos, convida o leitor a entrar na trama e a experimentar a vida indígena por meio de sua imaginação. Entendemos que essa seja uma forma privilegiada de apresentação dessas culturas para o leitor não-acadêmico e não-especialista, e esperamos que, a partir da experiência de leitura, possam, dentre outras coisas, ter contato com um modo diferente de relação entre humanos e “natureza”, e assim desenvolver uma visão crítica sobre as nossas ações predatórias.
ANTONIO BARROS: Para finalizar, tem havido um aumento no interesse pela cultura indígena brasileira. Autores como Ailton Krenak, Graça Graúna, Davi Kopenawa, Eliane Potiguara, entre outros, tornaram-se mais conhecidos do público. O livro de vocês de certo modo se associa a essa tendência, fortalecendo-a junto à comunidade de leitores de literatura. Na opinião de vocês, como a ficção contemporânea brasileira deveria se comportar diante desse alargamento do campo literário?
APARECIDA e FRANCISCO: Qualquer expansão do campo literário é essencialmente positiva. No caso da inclusão da literatura produzida por autores indígenas como parte da literatura brasileira, isso ainda é mais importante, pois dá acesso aos leitores ao pensamento desses povos tão mal-conhecidos pela maioria de nossa população. Mas há um ponto que gostaríamos de mencionar. Embora a produção de autores indígenas tenha crescido (especialmente, deve-se notar, pelo acesso à escolarização, incluindo ao ensino de nível superior, pois suas culturas são originalmente de base oral), de um modo geral elas se concentram em relatos biográficos (de indivíduos ou coletivos) e políticos ou tratados filosóficos, como no caso dos livros recentes de Ailton Krenak. Quando os indígenas escrevem seus mitos, ficcionalizando-os ou não, como no caso da obra de Cristino Wapichana, seus livros são classificados como literatura infantil. Ao que parece, os editores entendem que animais ou rios que falam, pessoas que se transformam ou que podem frequentar lugares distintos ao mesmo tempo, coisas que tematizamos em nossos contos, fazem parte da imaginação infantil. Seriam meras fantasias. Pode ser que os autores indígenas não tenham qualquer problema em ser classificados como autores para crianças, mas esse tipo de classificação revela claramente a nossa incompreensão daquilo que se entende por realidade indígena. Nesse sentido (e em vários outros) o livro coautorado por Davi Kopenawa e Bruce Albert é um marco, pois ali a visão xamânica é apresentada em toda a sua complexidade, em uma linguagem adulta para o público adulto. Fica claro que não se trata de fantasia ou imaginação de Kopenawa, mas de experiências vividas por ele. É assim que, a nosso ver, livros de autoria indígena que contam mitos ou estórias ficcionais baseadas no pensamento indígena deveriam ser tratados, como assunto de adultos, que têm assim acesso a um pensamento muito diferente. É evidente que isso não exclui o seu interesse para o público infantil; o que criticamos aqui é a exclusividade dada e ele. Cultura indígena é assunto para todo mundo e quanto mais gente ler, melhor. Nosso desejo é que nosso livro de ficção, voltado ao público adulto, possa inspirar autores indígenas a produzir mais ficção, e os editores a vê-las com outros olhos.
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Carbono, vol. 6 – maio de 2025.
ISSN: 3085-7066
