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Dez Coisas Sobre o Ecossocialismo

Ståle Holgersen, autor de “Against the Crisis”, falou na Marxism Conference em Dublin, em março de 2024. Este é o texto da sua palestra, “Dez coisas que eu queria dizer sobre o ecossocialismo”, realizada no evento

Ståle Holgersen1

1. O ecossocialismo é a política e a teoria do amanhã, mas somos assombrados por alguns problemas de ontem

A atual polarização entre o ecomodernismo e o decrescimento, que existe dentro do ecossocialismo, é um problema. Para dizer de modo bem franco: para os ecomodernistas, a industrialização moderna é principalmente progressista, e eles tendem a ter uma visão relativamente positiva do “crescimento”, enquanto o movimento pelo decrescimento fundamentalmente critica essas ideias. Essas são duas tradições heterodoxas, mas elas também representam polos distintos no debate, que refletem pontos de partida muito diferentes para se pensar e se fazer política.

O ecomodernismo sempre foi a posição predominante no marxismo. Talvez isso fosse menos óbvio enquanto o ecomarxismo existiu como uma subdisciplina dentro do marxismo, seguida principalmente por aqueles com um interesse pessoal na ecologia. Com a mudança climática – especialmente nos últimos dez anos – isso mudou. Agora, quem quiser ser levado a sério deve ter uma posição sobre o clima. Quando as principais tendências dentro do marxismo se comprometem com a ecologia, nós temos o ecomodernismo.

2. O gritante binarismo entre o ecomodernismo socialista e o decrescimento obscurece a complexidade necessária

O camarada Matt Huber coloca algumas questões interessantes no seu livro Climate Change as Classes War: queremos uma “política do menos” ou uma “política do mais”? Focamos na produção ou no consumo? O sujeito político que vai deter o aquecimento global é a “classe trabalhadora” ou a “classe administrativa profissional”? São questões interessantes, mas o enquadramento é problemático.

Nós obviamente precisamos de mais de algumas coisas e menos de algumas outras coisas. Eu concordaria que a produção é mais importante – em muitos aspectos – do que o consumo, mas isso não significa que o consumo não é extremamente importante também, tanto analítica, quanto politicamente.

A dicotomia central diante da qual temos que tomar algum partido é a do crescimento. Ela é problemática e confusa, ao mesmo tempo. As pessoas ainda se referem a coisas muito diferentes quando falam de crescimento – e, por conseguinte, decrescimento. O “crescimento” se refere à produtividade biofísica ou material, ao uso de energia, ao potencial humano, à acumulação do capital ou ao Índice de Desenvolvimento Humano? Muito frequentemente se supõe que nós pensamos em um aumento no PIB, mas como se mede isso?

 3. “Crescimento” – entendido, por exemplo, como um PIB sempre crescente ou como a produtividade biofísica – sem dúvida é um problema, mas não podemos começar confrontando o crescimento em si

Investimentos em novas infraestruturas levarão diretamente ao aumento da atividade econômica (PIB crescente) no curto prazo. É claro que esse não é um argumento válido contra tais políticas. Em vez disso, precisamos de discussões importantes sobre quais setores, lugares e indústrias deveriam ser mais economicamente ativas – e quais deveriam ser eliminadas ou desativadas. Essas são questões complexas. Um movimento ecossocialista que almeja mobilizar as pessoas para além do nicho dos círculos intelectuais tem que oferecer respostas concretas e específicas aos diferentes lugares.

Por um lado, contrariando o ecomodernismo, não há como termos crescimento infinito da atividade econômica em um planeta limitado. E, certamente, tampouco décadas e séculos de aumento na produtividade biofísica.

Por outro lado, contrariando o decrescimento, não há como mobilizarmos os setores mais baixos da classe trabalhadora ou qualquer movimento amplo fazendo do “menos crescimento” o ponto central do nosso projeto. Os lemas importam, e eu acho que será impossível unificar a ampla classe trabalhadora em torno desse lema.

4. Essa discussão não é somente sobre “crescimento” – ela vai mais fundo

As discórdias entre os ecomodernistas e o decrescimento estão ligadas a questões mais amplas sobre se a modernização, a industrialização ou o próprio capitalismo são inerentemente progressivos ou reacionários.

Eu penso que é justo dizer que a indústria de larga escala, as novas tecnologias, a produtividade crescente e a urbanização criaram possibilidades para o socialismo que não existiam nas sociedades pré-capitalistas. Dessa perspectiva, podemos ver como o desenvolvimento das forças produtivas e do capitalismo em si mesmo produziu a classe trabalhadora, também conhecida como “os coveiros do capitalismo”.

Mas até onde podemos levar esse argumento?

Se olharmos para o mundo de hoje, alguém consegue ver o capitalismo nos levando em direção ao socialismo? Aqueles que defendem o caráter progressista do capitalismo certamente leram os textos de Marx; essa não é uma conclusão que se tira por meio da observação da realidade – mas sim por meio da leitura.

O capitalismo não está avançando na direção do socialismo; ele está apenas nos levando rumo a uma nova época geológica, a desastres climáticos, a genocídios, a guerras e sempre a novas crises. E assim por diante.

Os pensadores ecossocialistas no século XXI deveriam desenvolver uma crítica mais apurada do produtivismo ou da celebração acrítica do crescimento, em vez de simplesmente dizerem que isso é ruim. Precisamos de uma crítica mais nuançada. Temos que deixar para trás o binarismo que vê o modernismo, o capitalismo, o “desenvolvimento” ou o “crescimento” como inerentemente progressistas ou reacionários.

5. Karl Marx

Um aspecto marcante do debate entre ecomodernistas e partidários do decrescimento é como ambos os campos ativamente recorrem a Karl Marx para sustentar suas posições. Os ecomodernistas podem lançar mão de um mar de citações, ao passo que os partidários do decrescimento dispõem de menos material, mas fazem mais com o que têm. Partindo de novas evidências marxistas, Kohei Saito celebremente alegou que o Marx “maduro” era um comunista do decrescimento.

Nós temos que seguir lendo Karl Marx por várias razões. Sua obra ainda é o melhor ponto de partida para entendermos as raízes da mudança climática. Não podemos compreender o aquecimento global sem entendermos as dinâmicas do incentivo ao lucro, da acumulação de capital, das rupturas metabólicas, da luta de classes e das divisões de classe.  

Porém, como marxistas, temos que nos lembrar de que não é só porque Marx disse alguma coisa, que ela se torna automaticamente verdade. Temos que ser cautelosos ao pôr em prática a retórica que primeiramente alega que Marx “de fato” quis dizer isso ou aquilo para, depois, simplesmente assumir que temos que dizer o mesmo.

6. Ecossocialismo e classe

O maior problema com a polarização entre decrescimento e ecomodernismo é que ela impede discussões frutíferas acerca da luta de classes. Alguns ecomodernistas alegam que existe uma relação antagônica entre a “classe administrativa profissional” e a “classe trabalhadora”, na qual aquela ocupou os movimentos ambientalistas, ao passo que esta de fato pode mudar o mundo.

O antagonismo entre uma classe trabalhadora progressista e uma “classe profissional” reacionária é espelhado, ou melhor, invertido, pelos partidários do decrescimento. Tadzio Müller, um excelente ativista alemão, afirmou que os operários da indústria no Norte Global não apenas serão nossos inimigos, mas sim “nossos inimigos mais eficientes”. Aqui, a conversa sobre classe começa e termina mostrando que os trabalhadores no Norte Global têm um modo de vida “imperial”.

E, sim, de fato há tensões entre vários sindicatos e movimentos ambientalistas. Mas é incorreto chamá-las de antagonismos. Se fosse o caso, haveria lutas de classe entre a “classe trabalhadora” e a “classe” que ocupou o movimento ambientalista? Não é o que acontece.

Ignorar as tensões entre os trabalhadores e as políticas climáticas é intelectualmente desonesto, bem como as questões do racismo e do imperialismo. Mas também é politicamente inútil supor que essas tensões são tão grandes que a classe trabalhadora – como quer que se a defina – não pode ou não deve ser um sujeito da luta contra o aquecimento global.

Para os ecossocialistas, ainda é um pré-requisito absoluto que o operariado organizado (às vezes alienado pelos movimentos a favor do decrescimento) e os movimentos ambientalistas (eventualmente alienados pelos ecomodernistas) sejam não apenas radicalizados e fortalecidos, mas também reunidos.

7. O ativismo climático é luta de classe

O movimento pelo clima que vemos em nossas ruas, ocupando minas de carvão ou organizando greves escolares, é – eu suponho – 99,9% composto por pessoas que não detêm nenhum meio de produção.

Sim, muitas talvez sejam provenientes de casas com pianos e estantes de livros. Não vamos permitir, porém, que Pierre Bourdieu nos distraia de uma análise clara da classe social. A classe não é determinada pela estética, o gosto, a cultura ou a educação. Gosto, estética e cultura certamente importam – para o bem ou para o mal, quando tentamos mudar o mundo –, mas eles não definem a classe no âmbito da sociedade.

Nós partimos de uma posição marxista clássica: pessoas que não acumulam capital fazem parte da ampla e heterogênea classe trabalhadora. É algo que fica muito mais complexo quando nos enfronhamos nisso, e há exceções. Mas é de onde partimos. E de onde partimos é importante.

As pessoas nos sindicatos e nos movimentos ambientalistas pertencem à mesma ampla e heterogênea classe trabalhadora. E, mais do que isso, o principal inimigo identificado pelo movimento em prol do clima é a indústria de combustível fóssil – uma fração da classe capitalista. Isso é luta de classe.

(Pensamos na mudança climática como uma luta de classe indireta. Ela não é a confrontação direta de um trabalhador contra seu patrão, mas antes uma luta indireta. Muito parecido com o modo como enxergamos as lutas contra as privatizações como lutas de classe.)

O fato de que a consciência de classe é pequena – às vezes extremamente pequena – dentro de parte do movimento ambientalista é um problema, sem dúvida. Esse problema é composto por ecomodernistas e partidários do decrescimento que discursivamente reproduzem e celebram o conflito. Nós, enquanto ecossocialistas, temos um trabalho a fazer.

Se a luta para deter o aquecimento global vai liberar todo o seu potencial e vai ser articulada e entendida como luta de classe, isso vai depender das lutas políticas dentro dos movimentos.

Reunir a ampla classe trabalhadora não é uma tarefa fácil. Isso não deveria ser surpresa: é um fato há dois séculos. É tentador romantizar o passado e ver a história da classe trabalhadora como mais homogênea do que ela realmente foi. Questões de gênero, racismo, orientação sexual, nacionalismo etc. sempre foram – e ainda são – questões usadas pelas forças reacionárias para dividir a classe trabalhadora. Unir a classe trabalhadora é uma tarefa difícil – mas é a nossa tarefa.

Há bons exemplos a se tirar, tais como a iniciativa chamada “terapia de casal”, criada pela think tank norueguesa Manifest. Esse projeto reuniu organizações ambientalistas progressistas e sindicatos organizados em torno da indústria do petróleo a fim de sentar e discutir como deveria ser uma política industrial futura na Noruega.

Entretanto, quando se trata de unir o operariado e os movimentos pelo clima, é fato que a maioria das tentativas fracassaram. Falhamos tantas vezes na última década, que desistir pode ser tentador. Mas não vamos – porque esse é o cerne do ecossocialismo.

8. O capitalismo não vai deter a mudança climática, e a mudança climática não vai deter o capitalismo

Frequentemente se presume que o aquecimento global vai pôr um fim no capitalismo. Eu acho que o contrário é mais provável: esse é justamente o tipo de destruição criativa de que o capitalismo precisa para se reproduzir.

Alguns alegam que a mudança ecológica historicamente colocou grandes desafios para os sistemas existentes, e, portanto, a mudança climática deve fazer o mesmo com o capitalismo. Esse ponto de vista desconsidera um fato importante: diferentemente de outros modos de produção, o capitalismo é fundamentalmente baseado na mudança.

Então existe a suposição de que a mudança climática vai criar problemas tão severos – falta de alimentos, colapso da infraestrutura, mortes em massa –, que o capitalismo simplesmente não vai dar conta. Mas o capitalismo sempre foi adepto de situar a morte em alguns cantos do mundo para que a vida – e os lucros – possa seguir em frente em outros lugares. A morte em massa nunca foi um problema fundamental para o capitalismo; o próprio sistema foi construído por sobre o colonialismo, as guerras e os genocídios.

Outro argumento é o de que, uma vez que há tanto capital fixo investido na infraestrutura fóssil, uma rápida mudança em direção aos renováveis vai desencadear uma desvalorização em massa, levando a uma crise econômica que poderia significar o fim do capitalismo. Primeiramente, isso pode ser verdade, mas a desvalorização em massa não leva automaticamente à crise econômica. E, em segundo lugar, se uma tal crise ocorrer, temos que nos lembrar de que o capitalismo historicamente se reproduz por meio de crises. O capitalismo existe por causa das crises econômicas, e não a despeito delas.

Nunca subestimemos a flexibilidade do capitalismo. Hoje em dia, nós podemos ver o capital fóssil e o “capital verde” operando juntos, ininterruptamente. O capital está destruindo o planeta e tentando salvá-lo ao mesmo tempo. E isso não é uma contradição em termos – porque a questão não é o planeta, mas o lucro. O problema é que, se você destrói o planeta enquanto tenta salvá-lo, você o destrói.

9. A mudança climática pode alimentar a ascensão do fascismo

A crise é uma característica definidora do fascismo do século XX. Nas discussões acerca das crises que levaram à sua ascensão, pensadores como Nicos Poulantzas apontaram para as revoltas econômicas, ideológicas e políticas. O aquecimento global poderia se tornar uma outra crise com o potencial de alimentar o fascismo? Há três maneiras de dizer que sim.

Em primeiro lugar, como uma defesa contra movimentos progressistas. O que aconteceria se a pressão popular se tornasse forte o suficiente a ponto de os líderes políticos serem forçados a fazer o que for preciso para limitar o aquecimento a 1,5 ou 2 graus – fechando plataformas de petróleo e minas de carvão, interrompendo a indústria aérea, impedindo o desflorestamento? Quase certamente isso empurraria os interesses do combustível fóssil a formar alianças com a extrema direita, criando mais tarde o que já podemos identificar como fascismo fóssil.

Em segundo lugar, por meio das próprias crises – uma doutrina do choque de segundo nível. As crises são uma oportunidade para o racismo, e os desastres climáticos vão produzir muitas delas. Mais ondas de calor matando as pessoas e destruindo colheitas, escassez de alimentos e milhões forçados a fugir – essas condições podem incitar políticas reacionárias. E se um governo socialista propuser que os fardos sejam divididos de forma igualitária? A cientista política Cara Daggett, em sua obra sobre a petro-masculinidade, pergunta se a crise climática poderia catalisar os anseios fascistas pela Lebensraum.2

Em terceiro lugar, por meio das variantes do assim chamado ecofascismo. E se a extrema direita fizer um giro de 180 graus e reconhecer integralmente que o aquecimento global tem origem humana? Em quem eles colocariam a culpa? Certamente não nos líderes de negócios do Norte Global. Ao invés disso, eles tratariam como bodes expiatórios os “imigrantes”, muçulmanos, judeus ou chineses, ou até mesmo qualquer grupo que pode ser usado para mobilizar o ódio e o racismo.

Mas isso não precisa acontecer – porque estamos aqui.

10. O ecossocialismo vai esmagar o fascismo – e eles vão pagar por isso

A geógrafa Laura Pulido e seus colegas identificaram uma interessante diferença, observada na primeira presidência de Donald Trump, entre o racismo explícito e espetacular de Trump e o silêncio que sucedeu as suas desregulamentações ambientais. Eles alegam que o primeiro – intencionalmente ou não – ajudou a obscurecer o último. Isso é interessante. O negacionismo climático deve circular bastante, e as teorias da conspiração e as fake news são sempre ferramentas importantes nas campanhas da direita. Mas em geral a questão climática também permanece um desafio para elas. Não é algo que elas querem discutir.

Então como reagimos? Nós intensificamos a luta contra o aquecimento global.

Assim como tão eficientemente apontou Samira Ali na sua conferência na sexta-feira, a luta antifascista tem que ser tanto defensiva, quanto ofensiva. Temos que defender o que merece ser defendido e, ao mesmo tempo, ir ampliando e intensificando nossas próprias lutas – especialmente aquelas que a extrema direita não quer encarar. A luta pelo ecossocialismo é exatamente isso.

Unificar a ampla classe trabalhadora deve sempre ser o âmago de qualquer estratégia socialista. Mas sejamos francos – muitas vezes, quando sentamos para conversar, nossas desavenças se aprofundam em vez de dissolverem. Às vezes, a pressão externa unifica mais eficazmente do que as boas intenções.

Talvez esse seja o ponto no qual o fascismo sem querer nos ajuda. A extrema direita – seja no governo ou nas ruas – vai seguir atacando as instituições progressistas, os sindicatos dos trabalhadores, os movimentos feministas e antirracistas e, é claro, o movimento ambientalista. Aqui não há lugar para o otimismo ingênuo. Esses ataques, porém, também podem tornar mais fácil enxergar o que une a ampla classe trabalhadora. Se é assim, essa é uma oportunidade que temos que agarrar. Portanto, vamos unir os sindicatos e os movimentos ambientalistas. Ou melhor – vamos deixar que os fascistas nos unam. Assim seremos fortes. E, então, vamos vencer, porra. Obrigado.

* * *

(Este texto foi originalmente publicado no site da Rebel, em 4 de abril de 2025. Agradecemos encarecidamente ao autor por ceder os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Antonio Barros.)

  1. Professor Sênior de Geografia Humana na Universidade de Estocolmo. Membro do coletivo ecossocialista Zetkin Collective. Autor do livro Against the Crisis: Economy and Ecology in a Burning World. ↩︎
  2. Trata-se do conceito de “espaço vital”, concebido por Friedrich Razel no século XIX e adotado por Adolf Hitler como argumento para a expansão territorial do Terceiro Reich alemão sobre a Europa. [N.T.] ↩︎

Carbono, vol. 7 – junho de 2025.
ISSN: 3085-7066

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