A professora do Departamento de Literaturas em Inglês da Universidade de Cornell, Caroline Levine, tem uma sólida carreira como teórica e crítica literária, investigando a forma do romance do século XIX de uma perspectiva formalista. Seus estudos teóricos nessa área se destacam há anos, propiciando aos estudantes de literatura e aos críticos literários um material crucial para o trabalho de interpretação do texto literário. Outra faceta da carreira da professora Levine são os estudos sobre a ecocrítica, a justiça climática e a infraestrutura. Recentemente, ela tem se dedicado a investigar a importância das infraestruturas materiais que possibilitam a reprodução social da vida no contexto das mudanças e das catástrofes climáticas. É dessa lavra que surge o livro The Activist Humanist,1 que investiga as formas e os métodos envolvidos na consciência e na luta contra a mudança climática. Associando, assim, o seu trabalho teórico e crítico ao seu ativismo climático, Caroline Levine nos oferece um livro que destoa bastante das convencionais abordagens críticas dedicadas ao estudo das relações entre a estética e o Antropoceno. Pondo de lado a predileção dos estudos literários pelo que ela chama de abertura e ruptura como valores estéticos, Levine mostra, no livro, a importância de se focar nas formas estéticas que, através da repetição, do ritual, da estabilidade, do fechamento, nos apresentam modos de conservação da infraestrutura e de organização social. The Activist Humanist é, além disso, uma espécie de programa por meio do qual a crítica literária, juntamente com o ativismo político, pode revalorizar o sentido do humanista, relativamente desgastado na sociedade do capitalismo muito tardio. Fique, portanto, com a excelente entrevista que Caroline Levine concedeu ao Carbono.
ANTONIO BARROS: Seu livro critica as teorias que adotam a abertura e a ruptura como valores estéticos que, por um lado, condenam o status quo do sistema social e econômico que engendra o aquecimento global, mas que, por outro lado, não propõem soluções políticas para confrontar o problema. Em vez disso, você propõe uma concepção do valor estético que está mais próxima do pragmatismo político, a qual você chama de instrumentalidade afirmativa. Como isso funciona em termos metodológicos?
CAROLINE LEVINE: Todos os principais métodos na literatura e nos estudos culturais – a leitura cerrada (close reading), a desconstrução, o historicismo, a teoria queer, os estudos críticos da raça – prezaram as lacunas e quebras e a abertura. Nós aprendemos a ler esperando a surpreendente reviravolta em um poema, a subversão da norma social ou a inovação em um gênero. Se nós deixarmos de lado nosso caso de amor com as rupturas e trabalharmos para revalorizar a contínua e muitas vezes repetitiva atividade de manutenção da vida ao longo do tempo – as rotinas do trabalho, da comida e do sono, que fazem com que a gente siga em frente –, então nós precisaremos não apenas de um novo cânone de objetos artísticos, mas também de novas formas de leitura. As obras estéticas que nos treinam não para a ruptura revolucionária, mas sim para a “continuidade coletiva” incluem muitas formas que foram vistas pela crítica como indignas da nossa atenção: narrativas realistas com finais felizes, uma vez que elas frequentemente são o modelo para as condições necessárias para a manutenção de um futuro; a poesia que rima, cujos padrões possibilitam os prazeres da repetição e da memorização; e as séries de TV, que costuram a trama com estruturas e infraestruturas que sobrevivem ao tempo. Quanto à nova forma de leitura, esta envolve se afastar do nosso foco comum de atenção estética, que é a surpresa – como, por exemplo, o súbito desvio de um padrão estabelecido, ou a subversão das expectativas genéricas –, em direção aos contínuos padrões e convenções que tornam possíveis a percepção dos desvios, para começo de conversa. No fim das contas, os padrões repetitivos sempre foram o pano de fundo do trabalho realizado pelos estudos literários – não se pode obter o inesperado a menos que se tenha expectativas. Ao invés de me direcionar imediatamente para os “detalhes luminosos” que geralmente atraem nosso interesse, eu paro para estudar os padrões que permitem antes de tudo o surgimento dessas expectativas. Onde encontramos as convenções? Como podemos conhecê-las? Isso implica se deter por um bom tempo no caminho da inovação excitante, da abertura revolucionária, da exceção estranha, a fim de reconhecer as múltiplas formas de restrição e estabilidade e o modo como elas moldam os mundos textual e social.
ANTONIO BARROS: Em seu livro, você enfatiza a importância das infraestruturas que possibilitam a reprodução social da vida, especialmente no contexto das catástrofes climáticas. No entanto, parece que a literatura do Antropoceno está mais interessada em representar os eventos extremos como forma de criar consciência acerca da mudança climática, em vez de abordar essas infraestruturas. Como essa mudança na perspectiva teórica ajuda a criar uma consciência social e política mais efetiva?
CAROLINE LEVINE: Eu tenho me sentido frustrada pelo fato de que muita da literatura e muitos dos filmes sobre a mudança climática optaram pela distopia, pela ficção científica e pela fantasia, todos eles imaginando um futuro que representa uma ruptura radical com o presente. Há poucas exceções, tais como Ministry for the Future, de Kim Stanley Robinson, e A Parábola do Semeador, de Octavia Butler, que esboçam meios de se chegar daqui até lá. Porém, a maioria das tecnologias que são imaginadas na ficção especulativa não pode ser criada hoje, e obviamente não podemos convocar os alienígenas para nos ajudar a construir um mundo novo. Se um leitor como você ou eu quiser entender como agir diante da crise climática, esses textos não nos oferecem nada no sentido de um guia ou um mapa. Então, onde estão os modelos culturais para prevenir o desastre climático e criar alternativas melhores? O que podemos fazer agora para evitar que o pior aconteça? No meu trabalho de ativismo climático, eu percebo que muitas pessoas estão conscientes da mudança climática antropogênica, mas elas não fazem nada porque elas veem a crise climática como muito complexa e esmagadora. Na verdade, um punhado de empresas está produzindo a vasta maioria das emissões de gases do efeito estufa, e poderíamos facilmente derrubá-las se as expuséssemos como as vilãs desonestas e destruidoras que elas são. Não seria difícil fazer um filme clássico de Hollywood tendo a Exxon como os vilões! Diferentemente de muitos outros problemas do mundo, esse é na verdade mais simples do que o tornamos. Eu gostaria que também contássemos mais histórias sobre as lutas bem-sucedidas de ativistas – como a ACT UP nos anos 19902 e os protestos contra os oleodutos que funcionaram recentemente ao redor do mundo –, a fim de nos dar inspiração sobre como nos organizar e vencer, em vez de aquiescer com o ecocídio como se ele fosse inevitável. As empresas de combustível fóssil não são deuses!
ANTONIO BARROS: A ideia de ruptura e abertura como valores estéticos também decorre de uma dialética entre inovação e conservadorismo que alguns teóricos – Theodor Adorno, mas também Peter Bürger e Umberto Eco – enxergaram como uma renovação do aparato cognitivo por meio do qual podemos conceber e imaginar o mundo. Ao adotar formas mais convencionais, você não tem receio de que a literatura do Antropoceno possa reproduzir as ideologias do capitalismo e, ao fazê-lo, agravar os problemas estruturais que geram a mudança climática?
CAROLINE LEVINE: Essa é uma questão muito importante. Ao longo da minha obra, eu afirmei que as formas têm múltiplas funcionalidades, de modo que elas não podem simplesmente ser classificadas como politicamente boas ou más, pró-capitalistas ou anticapitalistas. Tomemos como exemplo a interrupção como forma. A maioria dos radicais alegaria que devemos interromper o status quo para inaugurar um mundo novo. Mas o capitalismo em si tem tudo a ver com as interrupções – a novíssima tecnologia de eficiência, a demissão de trabalhadores. E Virginia Woolf salienta que é difícil para as mulheres arrumar tempo e espaço para escrever, porque os outros as interrompem constantemente. Por essa razão, as mulheres precisam de um quarto todo seu e 500 libras por ano – isto é, um espaço fechado e uma renda básica constante, duas formas bem estáticas e estáveis que nos protegem das quebras e interrupções – para que as mulheres possam participar da escrita e do debate na esfera pública. Com a repetição acontece algo parecido: por um lado, as formas culturais repetitivas podem nos enganar e nos fazer aceitar o status quo; por outro lado, rotinas como a alimentação e o sono são o que literalmente asseguram a vida ao longo do tempo. (E o capitalismo é ótimo quando se trata de disruptura; como afirmou Søren Mau, “o capitalismo é a institucionalização da insegurança”.) Portanto eu acredito que é um erro político prender uma determinada política a uma forma qualquer. E, desde que eu venho revalorizando a estabilidade e a previsibilidade, eu tenho descoberto as várias funcionalidades afirmativas da conservação – que é, por um lado, conservadora do ponto da definição, e, por outro lado, é uma precondição para qualquer florescimento humano e animal.
ANTONIO BARROS: Seu livro apresenta alguns exemplos de formas literárias que, por meio do ritmo, da estabilidade, do ritual, do fechamento, do encerramento e das dobradiças, nos permitem valorizar aspectos da vida que podem se tornar plataformas políticas nas quais os movimentos sociais podem se apoiar. Em outras palavras, diferentemente do que Amitav Ghosh pensa, você parece afirmar que as formas literárias já estão adaptadas à tarefa de instrumentalizar o humanista. É isso mesmo? Você é otimista a respeito do que a literatura ainda pode realizar?
CAROLINE LEVINE: Eu não acho que a literatura consegue alcançar sozinha qualquer mudança política. Ela tem que trabalhar dentro e junto com os movimentos sociais em que um grande número de pessoas se junta e exerce pressão durante longos períodos, com planos específicos para construir alternativas ao status quo. Eu vejo o romance, a praça pública e o objetivo todos como formas – e nenhum deles sozinho pode mudar o mundo. Temos que descobrir como juntar as formas para que a esquerda possa vencer. Então, quais formas literárias vão nos ajudar nesse trabalho? Eu acho que a maior parte da literatura que ensinamos hoje nas escolas e nas universidades nos entrega muito pouco no sentido de modelos para a ação coletiva. Quase todas as obras canônicas prezam a complexidade e a ambiguidade, o que nos encoraja a sentar e pensar em vez de agir. Que tipos de obras estéticas de fato ajudarão os movimentos sociais a tomar forma, adquirir coesão e perdurar? Historicamente, algumas das formas mais eficientes para os movimentos sociais são as canções – e especialmente aquelas com refrões repetitivos, que grudam na mente – e cantos de protesto, que são fáceis de memorizar e repetir. Ambos agrupam corpos e vozes. E, por conta de sua extensão, o romance não promove a mesma reunião.
ANTONIO BARROS: Para finalizar, eu gostaria de falar do romance realista, seu campo de estudo. Existe uma percepção de que o romance cria comunidades imaginadas que não conseguem englobar a escala dos problemas climáticos. Você acha que o romance, enquanto forma, precisa se adaptar a essa escala a fim de melhor responder à instrumentalidade afirmativa?
CAROLINE LEVINE: Com o seu foco duradouro em um pequeno punhado de protagonistas, o romance é ótimo em nos fazer entender o que é viver na pobreza ou experienciar a marginalização ou a violência, e o romance realista é bem adequado para organizar um plano exequível para nos tirar deste mundo rumo a um mundo melhor, mas o romance realmente luta para dar conta de grupos ou multidões. Alguns romances fazem experimentações em larga escala – um protagonista pode tipificar todo um grupo social, ou a narrativa pode se movimentar ao longo de um número de personagens maior do que o habitual (assim como A Casa Soturna, de Charles Dickens, ou Their Dogs Came with Them, de Helena María Viramontes), mas mesmo nesses experimentos a escala do romance é sempre restrita. Como formalista, eu quero reconhecer tanto as capacidades quanto as limitações de uma forma qualquer, e eu penso que a escala do indivíduo ou do pequeno grupo é uma das limitações do romance enquanto forma. Ao mesmo tempo, a poesia pode ser surpreendentemente boa quando se trata de grupos e multidões. Peguemos, por exemplo, o poema de Schiller, An Die Freude, musicado na Nona Sinfonia de Beethoven. Esse chamado à solidariedade inspirou os protestantes do Chile, que cantaram a “Ode à Alegria” durante as manifestações contra Augusto Pinochet. Mais tarde, estudantes chineses instalaram autofalantes para reproduzir a música no volume máximo enquanto os militares desciam a Praça Tiananmen. A música “Alright”, de Kendrick Lamar, com o seu enunciador coletivo “nós”, é outro exemplo; ela se tornou o hino informal do movimento Black Lives Matter. Em outras palavras, eu estou à procura de formas estéticas que prontamente permitem uma atenção às grandes escalas, em vez de tentar forçar uma forma como a do romance a realizar algo que para ela é difícil. Dito isso, eu mencionei antes que seria maravilhoso contar histórias sobre o pequeno número de vilões que administram as empresas de combustíveis fósseis, porque as causas da mudança climática não são vastas e dispersas, mas sim chocantemente pequenas e conhecíveis. Portanto, eu adoraria ver romance após romance sobre como os barões dos combustíveis fósseis tomam as decisões bem conscientes de mentir para nós sobre a mudança climática!
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(Revisão de Giulia Santos Menegaz.)
- LEVINE, Caroline. The Activist Humanist: Form and Method in the Climate Crisis. Princeton e Oxford: Princeton University Press, 2023. ↩︎
- AIDS Coalition to Unleash Power (ACT UP), um grupo político formado em 1987, cuja principal bandeira era a luta contra a pandemia de AIDS. ↩︎
Carbono, vol. 8 – julho de 2025.
ISSN: 3085-7066
