Benjamin Noys1
Por que chutar o cadáver do aceleracionismo? Mais de dez anos depois de eu ter cunhado o termo, ele agora parece ter desaparecido ou sido ofuscado por debates mais urgentes. Se o aceleracionismo pode ser definido como o movimento cultural que argumenta em favor da adoção da tecnologia e do pensamento abstrato a fim de romper em direção a um futuro pós-capitalista, parece que sobraram muito poucos aceleracionistas. Não seria arriscado, principalmente para um crítico do aceleracionismo como eu, manter vivo algo que, com razão, deveria ser agora um cachorro morto? É verdade que as paixões despertadas pelo movimento aceleracionista arrefeceram, e o movimento que havia, especialmente na esquerda, assume hoje em dia formas mais sóbrias e contidas. Se o aceleracionismo é um movimento de vanguarda, na mesma pegada do Futurismo, então, assim como muitos desses movimentos, ele parece ter se esgotado. Isso não necessariamente é algo para se lamentar, até mesmo por aqueles que o endossam. Os futuristas italianos viram o seu movimento a favor da velocidade como algo que se tornaria obsoleto graças às forças que eles desencadearam. De um ponto de vista cultural e político bastante diferente, Guy Debord, líder dos situacionistas nas décadas de 1960 e 1970, pensava que o papel das vanguardas era desaparecer assim que o seu trabalho estivesse concluído. Os pró-aceleracionistas podem até alegar que o aceleracionismo atingiu seus objetivos ao colocar a tecnologia e a mudança no centro dos debates, e, por isso, eles podem deixar o campo de forma honrosa.
Os rumores sobre a morte do aceleracionismo foram exagerados. Em uma época muito afeita à metáfora gótica, poderíamos acrescentar que o aceleracionismo, se está morto, permanece como uma alma penada que domina a paisagem cultural. As questões acerca do papel da tecnologia em nossa cultura e na relação com a mudança política não esvaneceram. Os debates recentes em torno dos modelos de linguagem de grande escala (large language models, ou LLM, em inglês) e a inteligência artificial demonstram o quão urgentes ainda são, e como vão persistir, os problemas relativos à substituição dos humanos por máquinas e ao controle da tecnologia. Se o aceleracionismo foi o primeiro movimento do pensamento na era das mídias sociais, então essa era ainda não acabou. O aceleracionismo incialmente prosperou no espaço dos debates em blog, permitindo discussões mais longas, e no Twitter (hoje, X), dando a esses debates uma forma abreviada e pungente. Atualmente, as mídias sociais estão cada vez mais tomadas pelos robôs, pelos memes, pela IA e pela monetização. A deterioração de várias plataformas online levou embora algo da força utópica desses espaços virtuais, deixando em seu lugar um cenário mais árido e virulento.
Isso ainda levanta questões sobre como devemos nos envolver com a tecnologia e seus potenciais e perigos (mesmo se esses perigos não parecem oferecer muitas chances de se reverter em benefícios). Embora o aceleracionismo tenha enfraquecido enquanto movimento – juntamente com as plataformas de que ele dependia – esse próprio enfraquecimento impõe questões. Podemos, é claro, apontar a dominação dos espaços online por parte das corporações, com uma série de nomes conhecidos (Google, Amazon, Netflix etc.). Os zaibatsus da Sprawl, trilogia de ficção cyberpunk de William Gibson – megacorporações enormes, possivelmente inteligentes – certamente estão entre nós. Ao mesmo tempo, agentes estatais ainda estão na ativa, e, acompanhando isso, um espaço automatizado crescente de robôs e IA emergente, na forma dos modelos de linguagem de grande escala. É claro, mesmo no começo nos anos 2010, 90% de todo o tráfico diário de e-mails, conforme estimativa, eram spam, o precursor de algumas formas da IA contemporânea. O espaço da internet, à sua maneira, tem sido marcado por uma guerra e uma crise contínuas, e pensar sobre isso é uma tarefa vital.
Eu diria que o fracasso do aceleracionismo em se manter no nosso momento atual evidencia algo de sua falta de engajamento crítico com a tecnologia. Embora estivesse certa ao levantar questões acerca da tecnofobia de alguns elementos da esquerda e da sociedade em geral, a tecnofilia que a substituiu era em grande parte apenas uma inversão. Esse argumento seria apresentado com força devastadora por Harisson Fluss e Landon Frim em Prometheus and Gaia (2022). Esse livro observou a coincidência de opostos entre o aceleracionismo e seus críticos, como Bruno Latour, que endossou um pensamento de Gaia e da Terra aparentemente alternativo. Fluss e Frim alegam que o que foi compartilhado entre essas visões de mundo foram compromissos irracionais, incluindo a adoção do mito como modo de construir nosso pensamento. O pensamento da tecnologia ficou obscurecido por esse modo mítico. Pode ser que o tipo de questionamento que o aceleracionismo ao menos iniciou precisava ser feito e continua relevante, mesmo se os modos como essas críticas foram feitas não se mostraram duráveis.
O que aconteceu com o aceleracionismo de lá para cá? Se o aceleracionismo desapareceu ou se modificou, então uma breve retrospectiva dos últimos dez anos poderia nos orientar? Entre o primeiro manifesto aceleracionista (2013), a primeira edição do meu livro Malign Velocities (2014) e hoje, houve uma avalanche de manifestos, frequentemente inspirados pelo aceleracionismo. A inspiração original, e que pode ser considerada o primeiro manifesto aceleracionista, foi o Manifesto for Philosophy (1999, na edição em inglês), de Alain Badiou. Badiou já tinha insistido na necessidade da filosofia, na carência de uma forma matemática abstrata para o pensamento, e tinha feito críticas divertidas às invocações cafonas aos camponeses e à Floresta Negra feitas por Heidegger. Verificou-se que, apesar da adesão à alta tecnologia por parte de Badiou, o seu modo de pensar permaneceu fortemente influenciado por Heidegger. No entanto, foram a verve polêmica de Badiou, sua adesão à filosofia e sua inclinação em favor da tecnologia que se mostraram influentes. Houve uma curta era de manifestos e, é claro, antimanifestos, conforme a batalha sobre o aceleracionismo se ampliava e se intensificava.
Isso não é só para tirar sarro. O manifesto não foi só uma forma condizente com as janelas de atenção curtas; ele também representava um desejo de romper com a linguagem hierática, cansativa e muitas vezes mistificadora da teoria anterior (principalmente aquela conhecida como pós-estruturalismo). A própria hostilidade contra a linguagem demonstrada por Badiou e sua insistência na matemática foram decisivas nesse desejo de dizer e fazer as coisas de fato, em vez de ficar falando sobre dizer e fazer as coisas. A tendência derridiana de iniciar qualquer discussão com uma meditação sobre como começar e sobre os títulos passou a ser vista como a mais maliciosa das táticas de procrastinação. Dito isso, a forma curta e agressiva do manifesto poderia deixar muitas coisas para o leitor pensar. Parte da intenção original de Malign Velocities era pesquisar a história e o contexto das várias formas do gesto aceleracionista. Como disse Mao, as ideias não caem do céu, mas surgem da prática social. A tempestade de manifestos lançada do Monte Olimpo das mídias sociais poderia ter sido revigorante, mas também irritante. O terreno movediço, as especulações sobre a autoria, os vários coletivos que poderiam ou não ser coletivos, as excomunhões e as denúncias levaram a uma paisagem agitada e muitas vezes confusa.
Uma das características desse período foi a impaciência com os modos de pensamento anteriormente existentes, com algumas exceções (Badiou, por exemplo). Isso só não abrangia a denúncia da política popular feita pelo aceleracionismo, que alegava que a política de esquerda vigente estava ligada ao humano, à comunidade, à natureza e aos limites. Tivemos também, por parte do realismo especulativo, a rejeição do correlacionismo, segundo o qual todo o pensamento prévio estava fixado na relação do humano com o não humano e, portanto, o pensamento não poderia ter acesso à grande realidade exterior. Os comunisadores2 afirmavam que a política de esquerda estava dominada pelo programatismo, no qual a esquerda tentou desenvolver programas que liderassem os trabalhadores, em vez de seguir a dissolução da identidade do operário. Um exemplo mais recente é o ataque do Afropessimismo aos radicalismos antinegritude anteriores, que ignoram o papel decisivo da escravatura para a sociedade e o pensamento.
A ironia é que esse pensamento se assemelhava muito à tentativa heideggeriana (e derridiana) de pensar para além do fim da metafísica. Embora Heidegger estivesse errado sobre a tecnologia – que, conforme ele alegava, era a última forma de metafísica –, aparentemente ele estava certo em rejeitar vastas camadas do pensamento como sendo metafísicas. O jogo podia começar: quem foi o último metafísico? Foi Nietzsche, com sua vontade de poder, conforme afirmou Heidegger? Que tal Antonin Artaud e sua exaustão da presença na própria loucura, como sugere Derrida? Derrida poderia também insinuar que o próprio Heidegger ficou preso nesse modo de pensar. Ainda que os movimentos dos anos 2010 buscassem se furtar daquilo que eles acreditavam ser debates inúteis, a ironia é que eles os repetiram de novas formas.
Nessa fogueira do passado, houve alguns grandes sobreviventes, especialmente Nietzsche e Deleuze. Embora, em Malign Velocities, eu tenha apontado a influência de ambos, eu subestimei a influência de Nietzsche, principalmente. Nietzsche não apenas proporcionou aos aceleracionistas um tom agressivo, mas também uma política cultural antiburguesa, um antagonismo com a metafísica e a adoção do mito e da estética. Desde a publicação em inglês do livro de Domenico Losurdo Nietzsche, the Aristocratic Rebel (2020) e da reedição de The Destruction of Reason (2021), de Georg Lukács, obtivemos recursos valiosos para uma crítica de Nietzsche. O problema não é simplesmente a política declarada de Nietzsche, que é a de um aristocrata rebelde, mas também como o seu pensamento é dominado pelo político e por uma fragmentação da razão em nome da contingência. É esse ataque metafísico à razão que precisa ser considerado e respondido.
Em se tratando de aceleracionismo, esse não é somente o problema do aceleracionismo reacionário e de direita, encarnado na figura de Nick Land – “nosso Nietzsche”, de acordo com Mark Fisher. O aceleracionismo reacionário e de direita fica contente em adotar o radicalismo aristocrático nietzscheano e sua política de casta, seleção e aniquilação. O problema é que as posições aceleracionistas de esquerda também estão comprometidas pelos compromissos irracionalistas nietzscheanos. Essa é a combinação indesejável, de acordo com Lukács, de ética de esquerda com epistemologia de direita. Eu deveria acrescentar que essa crítica de Nietzsche também impactou o meu próprio trabalho, que ficou vulnerável por conta da adoção da politização nietzschiana que dependia da vontade e da escolha. Algumas figuras associadas ao aceleracionismo, mesmo de maneira periférica, seguiram um caminho diferente – na direção da razão e de Hegel. Isso parece contradizer minha análise. No entanto, ao enfatizar a escolha, essa tendência continua sendo existencial, e, ao enfatizar a vontade, continua sendo nietzschiana. Sua fonte preferida é um Hegel supostamente não metafísico, e uma de suas principais referências hegelianas, Robert B. Pippin, recentemente se converteu a Heidegger.
Talvez tudo isso é para dizer que os últimos dez anos não foram tão estranhos quanto eles aparentam a princípio. Por baixo da aparência de mudança radical e da reviravolta nas posições e ideias, tem havido mais continuidade do que imaginamos. Conforme eu sugeri, Deleuze, um dos mais influentes formuladores do aceleracionismo (com Guattari), continua sendo muito importante, e Nietzsche também continua exercendo sua influência. A ênfase dos pensadores pós-estruturalistas na linguagem e na mediação diminuiu, mas persiste o compromisso com uma materialidade fragmentada de uma alteridade caótica e instável. O que podemos dizer é que os principais compromissos filosóficos ou metafísicos (mesmo sendo considerados como antimetafísicos) não mudaram de modo significativo.
As aparências contam, é claro. O aceleracionismo é cada vez menos reivindicado como uma posição nos debates. Suas raras aparições parecem agora surgir entre aqueles na extrema direita que estão cometendo violências. Eles usam o aceleracionismo para se referir à aceleração do conflito quando miram espaços de crença e de hibridismo que vão contra os desejos racistas de purificação. Nesse caso, o aceleracionismo é mais parecido com a estratégia de tensão na Itália dos anos 1970, em que agentes da extrema direita tentaram levar a cabo atos de violência que poderiam desestabilizar a ordem vigente e encorajar soluções autoritárias. Essas são, também, ações de lobos solitários, nas quais a ideologia funciona mais como um rótulo ou até mesmo um meme com o qual a pessoa se identifica. Podemos perceber novamente a influência das mídias sociais, com esses agentes da extrema direita adotando o manifesto, o streaming ao vivo e o meme para justificar e espalhar sua ideologia. O aceleracionista, nesse caso, é um influenciador maligno.
Além disso, recentemente o aceleracionismo ressurgiu outra vez nos altos níveis do mundo corporativo, por meio do aceleracionismo efetivo (e/acc, na sigla em inglês). Agora o objetivo é usar a tecnologia a fim de manter e espalhar a consciência humana (ou o que quer que seja que vai substituir essa consciência) ao redor do universo. Tomando emprestado as ideias de Nick Land e da ficção científica, o aceleracionismo efetivo pretende criar o desenvolvimento desregulado da tecnologia, principalmente da inteligência artificial, nos permitindo transcender aquilo que William Gibson chamou de “a carne”. Aqui podemos perceber que o aceleracionismo converge com o mercado capitalista, e a noção distópica das corporações como seres sencientes emergentes, que encontramos em Gibson, é revertida na promessa de um novo futuro radical.
O que podemos ver nesses dois exemplos são a força e a persistência do aceleracionismo de direita. Embora o Futurismo Italiano tenha sido um movimento heterogêneo, com suas tendências nietzschianas, anarquistas e protofascistas, ele pode nos dar um alerta útil acerca do destino do movimento aceleracionista. Podemos apontar o fato de que o Futurismo foi um movimento cultural sujeito a inflexões diferentes, como, por exemplo, o Futurismo Russo, mais à esquerda. Essa diversidade, contudo, obscurece compromissos centrais com uma política estética do mito que transforma a tecnologia de uma realidade social em uma força mítica. A necessidade se entender a tecnologia – e principalmente o controle da tecnologia (o que costumava se chamar de o controlo dos meios de produção) – ameaça desaparecer em um movimento que só oferece a pseudo-solução da fusão com a tecnologia.
Em muitos sentidos, o aceleracionismo foi uma tentativa autoconsciente de reinventar um movimento de vanguarda numa época em que esse tipo de movimento era supostamente impossível. Ele também concedeu a Nietzsche um papel central, por conta de sua política da vontade e do mito, exatamente do mesmo modo que as vanguardas anteriores o fizeram. A adesão ao aceleracionismo da parte dos artistas, vituperada por muitos pensadores aceleracionistas, também aponta para essa ideia do aceleracionismo como um movimento cultural amplo. Isso não significa negar o papel das ideias ou negar a possibilidade de compreensões erradas; significa, antes, insistir no fato de que essas ideias e as interpretações erradas se desenvolveram a partir das ambiguidades e tensões do próprio aceleracionismo. Malign Velocities foi e continua sendo uma tentativa de entender algumas dessas ambiguidades e tensões, tanto historicamente, quanto no seu ressurgimento.
Analisar e compreender o aceleracionismo é entender algo sobre o que tem acontecido nos últimos dez anos aproximadamente. Pode-se dizer que se tratou de um movimento muito restrito, desconhecido da maioria da humanidade – quase um estalar de dedos em comparação com todos os problemas e forças reais que dão forma a esses anos todos. Isso seria verdade; porém, os modos com que o aceleracionismo reencenou os gestos do passado, bem como prometeu novos futuros tecnológicos utópicos para a era das mídias sociais, ainda impressionam. Ele representou algo das forças e do trabalho reais, tanto quanto de sua expressão ideológica nesse período. Se, como sugeriu Hegel, precisamos compreender nosso próprio tempo no pensamento, isso inclui entender onde ele pode ter perdido o rumo. É por isso que eu ainda acredito que vale a pena rastrear as velocidades malignas do aceleracionismo e suas mutações.
* * *
(Este texto foi originalmente publicado no substack das editoras Repeater e Zer0 Books, em 29 de outubro de 2025. Agradecemos encarecidamente ao autor por ceder os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Antonio Barros.)
- Professor de Teoria Crítica na Universidade de Chichester. É autor do livro Malign Velocities. Accelerationism and Capitalism. ↩︎
- Possivelmente o autor está se referindo ao movimento surgido na década de 1970 que reivindicou para si o legado do comunismo após o desaparecimento da Internacional Situacionista, modernizando-o. Essa nova corrente se denominada “comunisadores” porque alegavam ser os únicos verdadeiros comunistas, os únicos que entenderam a obra de Marx. [N.T.] ↩︎
Carbono, vol. 13 – dezembro de 2025.
ISSN: 3085-7066
