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O Quão Pior a Internet Pode Ficar?

A teoria da enshittification de Cory Doctorow parte da premissa de que criamos uma maravilha tecnológica e que a ganância corporativa a arruinou. Mas e se não for esse o caso?

Resenha do livro: DOCTOROW, Cory. Enshittification. Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It. Nova York: MCD, 2025.

Jacob Bacharach1

Nessa última primavera, fui ao Texas visitar uma querida amiga. Ela e seu parceiro fazem parte da classe de estadunidenses que Kurt Vonnegut chamou de “fabulosamente bem-de-vida”, e, no segundo dia da minha visita, decidimos dar um pulo em seu tênis clube para almoçar. Minha amiga dirige um Tesla. Quando entramos, o painel de controle a alertou: o carro precisava de algum tipo de atualização de software. Estávamos com fome. Ela recusou.

Vinte minutos depois, chegamos ao clube e descobrimos que o restaurante estava fechado. Paciência. Caminhamos de volta até o estacionamento e conversamos sobre outras opções. Havia um lugar que ambos gostavam a alguns quilômetros dali. No Texas, tudo fica a pelo menos alguns quilômetros de distância. Entramos no carro. Ele tinha, como se por pura e petulante vontade própria, iniciado a atualização de software que ela tinha recusado há pouco, e ficaria indirigível por 45 minutos. Nós ficamos sobre o asfalto escaldante, derrotados pelo bem inanimado. Poderia ter sido pior. Tivemos sorte de ficar apenas presos no estacionamento no meio da cidade, e não empenhados em algum acostamento a milhares de quilômetros de casa, como foi o caso em outros relatos trágicos envolvendo Teslas.

As tribulações e pequenas inconveniências dos abastados dificilmente são motivo para revoluções – a menos, suponho, que você considere a nossa revolução americana original –, mas parece válido observar que o design horroroso, estúpido e péssimo, bem como o precário atendimento ao cliente dessas espalhafatosas maravilhas tecnológicas que deveriam trazer o futuro até nós, agora afetam até mesmo os ricos, e parece mais e mais como se nós, em vez disso, tivéssemos sido levados até o futuro.

Mecanismos de busca ficaram piores, os resultados de quase toda pesquisa são amálgamas inutilizáveis de anúncios de produtos e baboseira de IA. A inteligência artificial em si (ou ao menos os modelos de linguagem em larga escala que foram batizados como IA), que deveria ser o prenúncio de avanços inimagináveis na ciência, na medicina, no conhecimento e na produtividade, até agora revelou-se como uma máquina para trapacear, seja em sua lição de casa ou no relacionamento. Muitos dos produtos em seus sites de compra favoritos são falsos. Os que não são? Bom, as avaliações dos clientes sobre eles podem ser. É difícil e trabalhoso entrar em contato com o Facebook para remover os perfis de parentes falecidos. Os agricultores têm dificuldade em reparar seus próprios equipamentos agrícolas, e o mecânico da esquina não consegue mais fazer a manutenção do seu carro. Existem empresas inteiras cujo único objetivo é comprar ou criar patentes dúbias e, em seguida, processar outras empresas por violá-las. As redes sociais que prometiam nos conectar com nossos amigos e familiares, interagir com nossos jornalistas e celebridades favoritos, transformaram-se de inocentes timelines em máquinas de indignação movidas por algoritmos, disseminando violência explícita, pornografia indesejada e comentários políticos tóxicos. O que se pode fazer?

Cory Doctorow – escritor, especialista, professor, filósofo e ativista de ONG – vem apontando o declínio da internet e das tecnologias relacionadas a ela há algum tempo. Em 2022, na busca de uma expressão simples, explicativa e de fácil popularização, cunhou o termo “enshittification”. O termo pegou. O apresentador Chris Hayes o invocou em seu livro The Sirens’ Call: How Attention Became the World’s Most Endangered Resource, (“O Canto das Sereias: Como a Atenção se Tornou o Recurso Mais Ameaçado do Mundo”), ao observar como “o ‘sonho de conexão’ que as companhias de tecnologia prometeram e anunciaram” falhou, deixando americanos viciados em telefone “mais isolados e menos sociais” que antes. O economista Paul Krugman usou o termo para explicar por que a “indústria da tecnologia caiu em desgraça aos olhos do público” e seus líderes têm demonstrado um “ódio cada vez mais antidemocrático”. A expressão foi eleita a palavra do ano por vários dicionários em 2023 e 2024. Segundo Doctorow, “ela é provocativa e engraçada de se dizer”. Não tenho certeza do quão provocativa ela é. Sim, restam alguns grandes jornais americanos que ainda seguem rigorosamente seus padrões estilísticos quando se trata de palavrões, o que não se aplica ao resto de nós. De qualquer forma, a expressão se desenrola na língua com maior facilidade e é certamente mais evocativa que o conceito que ela descreve, o qual Doctorow, de forma mais clínica, chama de “súbito colapso da plataforma”.

Recentemente ele escreveu um livro sobre o tema, “Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It” (“Enshitification: Por Que Tudo Piorou de Repente e o Que Fazer Agora”). Podemos questionar o uso de “de repente”, mas não há dúvida de que se trata de uma tendência em aceleração, ainda que não seja nova. Os sites e plataformas que antes eram lugares relativamente agradáveis para postar fotos de férias e convites para festas agora estão inundados por uma enxurrada incompreensível de AI slop (outro termo evocativo de criação recente) e por uma fervilhante verborragia de ofensas políticas; as lojas online onde antes comprávamos livros e camisas-polo agora estão cheias de livros falsos gerados por LLM (Large Language Model) e produtos falsificados de marcas que você adora, como MAGCOMSEN, LETSEE ou TELALEO; a corrida barata de Uber até o aeroporto agora pode ser mais cara que a de um táxi (lembra-se deles?); sua pesquisa online agora tem tanta probabilidade de mostrar resumos de alucinações de IA quanto uma citação que você estava tentando lembrar ou uma receita que estava procurando anteriormente. Como o cartaz do protesto de Occupy Wall Street memoravelmente proclamou: “Essa merda é falsa e fodida.”

A característica mais proeminente do diagnóstico de Doctorow é de que o declínio não é repentino, tampouco acidental, mas sim deliberado. Não se trata de um processo natural de evolução, nem da lenta derrocada rumo à degradação, que chamaríamos simplesmente de depreciação no mundo real e físico. Doctorow acredita que as “plataformas”, ou seja, as empresas, os sistemas e os dispositivos que atuam como meios e intermediários em “mercados bilaterais”, conectando “clientes empresariais e usuários finais”, induzem usuários e empresas a entrar em ecossistemas tecnológicos por meio de vantagens, incentivos, conveniência e bons designs – todos subsidiados pelo capital excedente dos investidores – antes de, proposital e gradualmente, extrair todo o valor e lucro do sistema por meio da redução ou eliminação do investimento em serviços e suporte. Nessa altura, já é tarde demais. Os usuários e as empresas estão presos e, seja devido aos custos de transferência demasiadamente elevados ou porque a monopolização eliminou alternativas, são incapazes de escapar.

Capa do livro de Cory Doctorow

Doctorow utiliza uma abordagem clínica como dispositivo estruturante. Ele divide o livro em quatro partes: “A História Natural”, “A Patologia”, “A Epidemiologia”, e “A Cura”. O plano geral é bastante direto. A plataforma levanta capital – excedente – de investidores e o utiliza em detrimento de seus usuários finais. No caso de uma rede social como o Facebook, ela promete não espionar, fiscalizar e vender os dados dos usuários; no caso da Amazon ou Uber, operam em déficit e criam promoções que prejudicam seus competidores. Assim que os clientes ficam presos, as plataformas começam a ferrar os usuários de modo a oferecer vantagens aos seus parceiros. Subitamente as plataformas de fato começam a espionar, fiscalizar e vender dados. Subitamente elas oferecem oportunidade de manipular algoritmos e colocar seus próprios produtos no topo de cada busca. E, finalmente, quando as próprias empresas também ficam presas, as plataformas cobram taxas de acesso exorbitantes e resgatam todo o valor para si e para seus sócios.

No passado, a variedade de mecanismos disciplinares pode ter imposto restrições à capacidade das empresas de tecnologia de piorar seus próprios produtos. A competição de mercado implicava que usuários iriam migrar para melhores plataformas, produtos e serviços assim que estes entrassem no mercado. A regulamentação teria impedido o excesso de concentração. O “direito de consertar” implicava que usuários e clientes poderiam resolver os seus próprios problemas, limitados apenas pelo conhecimento técnico próprio ou da aptidão de um terceiro. Durante um tempo, trabalhadores da área de tecnologia – os programadores e desenvolvedores que exerceram o trabalho que de fato ergueu essas plataformas e empresas – tiveram uma tremenda força de trabalho derivada de suas habilidades relativamente escassas e singularmente portáteis.

Até certo ponto, essas observações são todas verdadeiras, mas elas não deixam de transparecer um certo tom de teoria econômica básica, e a própria análise de Doctorow enfraquece qualquer noção de que esses fatores tenham de fato restringido o setor de tecnologia. Ele mostra os funcionários do Google ocasionalmente enfrentando seus chefes, especialmente nos intensos movimentos sociais da década de 2010, enquanto a empresa se via confrontada por uma força de trabalho que, comicamente, acreditava no agora abandonado slogan corporativo: “Não seja mau”. Todavia, o que suas ações alcançaram? As maiores companhias de tecnologia sempre operaram de forma predatória e inescrupulosa. Mesmo quando o Google estava no seu ápice de eficácia enquanto ferramenta de busca no início do século, ele atraiu intenso escrutínio do Congresso e da  Federal Trade Comission (Comissão Federal de Comércio) por suas práticas monopolistas em pesquisa e anúncios online. A Apple usou seu controle absoluto sobre sua App Store para extrair monstruosas taxas de vendedores e desenvolvedores desde o advento da era do smartphone. E os éticos do Google? Doctorow também documenta uma dinâmica viciada, em que os funcionários anunciavam empresas subsidiárias especificamente para que elas fossem adquiridas por milhões por seu antigo empregador, para o qual eles, imediatamente, voltavam a trabalhar.

O livro Enshittification é uma leitura breve e divertida, embora muitas vezes revoltante. Seus estudos de caso do Facebook, Amazon, iPhone e Twitter não trazem nenhuma novidade a nível jornalístico. Se você lê Wired, The Wall Street Journal ou The New York Times, você provavelmente está familiarizado com muitos dos casos de planejado, deliberado e estratégico abuso de usuários, clientes e parceiros comerciais. No entanto, muitos dos detalhes ainda são chocantes: Doctorow relata, por exemplo, como a Uber usa a arbitragem salarial algorítmica para punir e disciplinar seus motoristas. É engenhoso e diabólico. Se os motoristas forem muito seletivos com as corridas que aceitam, a Uber começa a oferecer pagamentos mais altos para induzi-los a aceitar mais passageiros e fazerem mais corridas. A Uber não quer motoristas exigentes, ela quer volume. De forma aleatória, mas constante, à medida que os motoristas respondem e se tornam menos criteriosos, o aplicativo começa a reduzir os pagamentos. Isso os incentiva a trabalhar mais e, quando o fazem, a empresa lhes paga menos.

De todos as histórias presentes no livro, talvez a mais sórdida e distópica seja o caso de como a Adobe usou seu domínio de mercado para negar a artistas, fotógrafos e designers o acesso às cores em si. A empresa, que domina o mercado de ilustração e design gráfico, promoveu uma campanha de uma década para convencer seus usuários a migrarem das versões de compra individual e de uso local de seu software para sua versão baseada na nuvem, o Adobe Creative Cloud. E então, em 2022, ela anunciou que, a partir daquele momento, eles teriam que pagar uma taxa de assinatura mensal para ter acesso à gama completa de cores Pantone – um tipo especial de cores que são essenciais ao trabalho de ilustração e design. Alertaram que, sem essa assinatura, quaisquer pixels contendo cores Pantone em imagens criadas pelos usuários seriam substituídos pela cor preta. Receber produtos de baixa qualidade da Amazon é uma coisa, extorquir dinheiro por cores é digno dos vilões marcianos de O Vingador do Futuro, forçando os pobres e oprimidos a pagar pelo ar.

Isso tudo inevitavelmente leva ao que Doctorow e outros chamam de “tecnofeudalismo”, um termo que fará com que qualquer medievalista que esteja lendo este artigo jogue sua cópia do livro longe, uma vez que se baseia em uma compreensão bastante desacreditada da Europa pré-moderna. A comparação histórica de Doctorow parece omitir certa forma de servidão associada à situação dos arrendatários na Inglaterra do século XVIII. Ele compara esses sistemas antigos, nos quais latifundiários extraíam renda de uma classe de arrendatários que estava legal ou informalmente vinculada à terra, com a economia atual, na qual tudo é, de alguma forma, um serviço de assinatura. Até recentemente, as empresas dependiam do consumo – da compra – e do lucro. Mas agora você não mais compra realmente um produto, seja os e-books que você aluga (porque o gerenciamento de direitos digitais, ou DRM, impede o empréstimo, a doação ou a livre revenda da obra), o iPhone pelo qual você paga uma mensalidade à sua operadora, o conteúdo que desaparece rapidamente da sua plataforma de streaming favorita, ou mesmo o seu editor de texto ou planilha, que você também aluga de algum lugar na nuvem. Você é como um camponês, acorrentado a um conjunto de propriedades digitais sobrepostas, pagando mensalmente a um senhor distante pelo seu direito de ser um influenciador, um vendedor ou um telespectador.

Não tenho certeza se essa situação é uma novidade para o capitalismo tal qual Enshittification faz parecer, e esse é um aspecto frustrante do livro. O que foi a crise da hipoteca de alto risco, para citar um exemplo recente, senão um esquema para prender devedores a hipotecas inicialmente atraentes e, em seguida, gradualmente aumentar suas taxas e custos a fim de extrair mais dinheiro? O que eram os golpes da metade do século, como o Columbia House, cujos modelos de cobrança de “opção negativa” (onde eles enviavam um produto e você era cobrado a não ser que o devolvesse), que precederam os modelos de assinatura online de hoje em dia, os quais facilitam a adesão e tornam o cancelamento quase impossível? O que são aqueles nossos clássicos programas de marketing multinível, de Mary Kay à Amway, senão modelos de exploração estilo “todos são empreendedores, ninguém é empregado” de empresas atuais como Uber, DoorDash, ou mesmo as atividades de influencer impulsionadas pelas redes sociais?

Doctorow é um escritor e pensador de esquerda que expressou profundo ceticismo acerca de se “o capitalismo tem futuro”, mas tanto seus diagnósticos quanto os tratamentos que recomenda tendem a circular uma noção bastante nostálgica de um capitalismo americano sindicalizado, altamente regulamentado, quase como o de meados do século, ou talvez apenas uma social-democracia europeia pré-AfD, pré-Reunião Nacional, de mercado comum; nenhum dos quais parece particularmente adequado ao presente momento. Ele também consegue ser frustrantemente descuidado com seus termos. Ele escreve sobre monopólio e monopsônio, palavras com significados bastante específicos, de uma forma despojada e coloquial (e, em uma nota de rodapé bem-humorada, explica que o faz dessa forma pois os termos alternativos, mais precisos, são difíceis de pronunciar). Ele se refere à “hipótese do mercado eficiente” em uma reflexão bastante interessante a respeito dos abusos de direitos autorais e leis de propriedade intelectual, mas a hipótese do mercado eficiente não trata de consumidores ou mercados business-to-business; ela é, na verdade, a hipótese sobre a natureza e a precisão dos preços de ativos nos mercados de capital. Ele usa “ordens de magnitude” para expressar a ideia de “muito”, em vez de uma escala com base em múltiplos de 10, o que é um pecado menor, mas frustrante, vindo de um autor que normalmente é fluente em termos técnicos.

Ainda que os diagnósticos de Doctorow sejam contundentes e revoltantes, sua prescrição é permeada por uma visão sentimental do que ele chama, sem ironia aparente, de “a boa e velha internet”. Eu sou uma década mais jovem que Doctorow, mas também fui um usuário bastante precoce, e compreendo essa nostalgia. Eu também fiz amizades nas primeiras salas de bate-papo, explorei minha sexualidade, participei de debates, adotei e descartei toda sorte de ideologias políticas e linhas intelectuais esquisitas que nunca teria conhecido de outra forma. Eu sinto falta dessa internet, mas voltaria para ela? Seria capaz?

“Reduzir as barreiras à participação na vida digital é algo totalmente positivo”, escreve Doctorow. De forma simples: não. Na verdade, bem pelo contrário. Licencie-a como um carro. Ou uma arma de fogo. Se existe algo que as últimas décadas nos mostraram, é que a “vida digital” – o acesso a ferramentas de informação e comunicação mais potentes e universais que qualquer outra já inventada ou disponível até agora – é algo que a maioria dos indivíduos, e talvez até mesmo os mais responsáveis entre nós, simplesmente não deveria possuir. Sua capacidade de propiciar demagogia, de dissolver ideologias, de promover conspirações e de encorajar violência e comportamento antissocial é perigosa e desenfreada. Os algoritmos corporativos são os únicos a se culpar? Talvez pelo seu tio racista, pela sua tia ativista de hashtags eternamente revoltada, pelo seu pai fã da Fox News e por sua mãe fã da MSNBC. Mas e quanto ao jovem desiludido, revoltado e sem futuro, que se esconde em algum canal estranho do Discord ou cria insultos raciais intraduzíveis para provocar seus companheiros gamers? Muito antes de Elon Musk ter comprado o Twitter, antes do YouTube transformar pick up artists da “machosfera” em celebridades, antes de um grupo do Facebook convencer seu vizinho de que vacinas causam autismo, a internet já provava ser um terreno fértil para esquisitões fanáticos se encontrarem e fortalecerem suas crenças estranhas.  

Hoje não é diferente, seja no Discord, em algum dos “chans” ou nas profundezas do Reddit, onde, longe de qualquer algoritmo corporativo, ódio, bile, violência, e fúria se manifestam independentemente. Quando o organizador e influencer conservador Charlie Kirk foi morto com um tiro em setembro e foi revelado que seu assassino havia inscrito mensagens nas balas, um dos aspectos mais alarmantes não foi a questão da ideologia política do atirador, que dominou as notícias, mas o fato de que a mensagem – obscuro jargão gamer carregado de ironia – vinha da internet. Estou cada vez mais convencido de que dar acesso à internet à maioria de nós é como entregar uma arma a uma criança. O problema é entregá-la a uma criança. Mas o problema também é que se trata de uma arma.

Enshittification baseia-se na ideia de que nós criamos uma maravilha tecnológica (ou um conjunto delas) e que, depois, a ganância e a avareza das empresas a arruinaram. Mas e se não for esse o caso? E se, tal como aconteceu com as armas nucleares, tivermos criado uma tecnologia que ainda não estamos suficientemente maduros para utilizar? E se, na nossa busca por energia infinita, tivermos construído uma bomba?

Doctorow sugere que o problema com a internet consiste no fato de que as plataformas se tornaram muito poderosas. Eu simpatizo com essa ideia. “E se mudássemos nosso foco em ‘tornar as plataformas mais agradáveis’ para ‘tornar as plataformas menos importantes’?”, ele pergunta. E se fosse mais fácil de deixá-las sem perder amigos, clientes, conexões? Ele utiliza alternativas descentralizadas do Twitter como o Mastodon como exemplos de uma possível internet melhor (esqueça o Mastodon, para usar um termo técnico: é uma porcaria). É tentador acreditar que se os Zuckerbergs e Musks do mundo baixassem a bola, se a moderação de conteúdo melhorasse, se o modelo europeu de regulamentação se tornasse norma em mais países, então talvez teríamos um pouco de equidade e utilidade retornando aos nossos mundos virtuais, e voltaríamos às fotos de bebê, às compras de livros e às piadas toscas.  

Será que voltaríamos? Eu duvido muito. Eu penso que a vaca já foi pro brejo. Largaram o boi com as cordas. E ele está correndo em direção ao horizonte, rumo a um futuro que ainda não conseguimos imaginar, e acho que não podemos simplesmente chamar ele de volta. A computação digital foi uma invenção extraordinária; a constelação de tecnologias que hoje chamamos simplesmente de “internet” é ainda mais; os grandes mecanismos de concatenação de textos da “inteligência artificial” de modelos de linguagem de grande escala, que tiram seu poder do treinamento com textos e imagens quase infinitos da internet, são alguns dos mais impressionantes até hoje. Mas a pergunta que Enshittification não faz, não quer fazer, é: e se nada disso fosse uma boa ideia para início de conversa?

* * *

(Este texto foi originalmente publicado na The New Republic, em 13 de novembro de 2025. Agradecemos encarecidamente ao autor por ceder os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Roger Gregory Silveira.)

  1. Romancista e ensaísta estadunidense. Seu livro mais recente é A Cool Customer: Joan Didion’s The Year of Magical Thinking. ↩︎

Carbono, vol. 15 – fevereiro de 2026.
ISSN: 3085-7066

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