Quem esteve no Museu de Arte de São Paulo, o MASP, entre os dias 10 de outubro de 2025 e 1° de fevereiro de 2026 pôde prestigiar, com entusiasmo, a exposição de parte da obra da artista plástica Clarissa Tossin, sob o título Ponto Sem Retorno, com curadoria de Adriano Pedrosa e Guilherme Giufrida. Situada em uma das alas do prédio mais antigo e tradicional do Museu, as obras de Tossin se espalhavam pelo espaço, agrupando-se tematicamente sob a perspectiva de uma questão importante para a artista e extremamente pungente no nosso cotidiano marcado pelas mudanças climáticas e pelas catástrofes ambientais associadas a elas. Ao adentrar a exposição, o espectador já se deparava com um ambiente de paredes brancas, pintadas, porém, com a terra de três localidades que sofreram com as históricas enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 – uma faixa de tons marrons que se elevava à altura das marcas deixadas pelas águas do Guaíba nas fachadas dos lugares mais afetados de Porto Alegre. Trata-se da obra Volume morto (2025), que já definia o tom da amostra, que seguia com outras obras que problematizavam as relações entre a cultura do consumo, o capitalismo globalizado, as fronteiras geográficas e os riscos para o meio ambiente. Nesse sentido, destacava-se Death by Heat Wave (2021), um modelo em escala real de uma árvore morta por uma onda de calor, feito de silicone, pigmento e casca de árvore. A disposição horizontal do molde da árvore, toda em branco, sugeria não apenas a sua mumificação, mas também o seu sepultamento devido ao calor extremo. Em uma série de obras que lança mão de caixas de papelão da Amazon, Tossin imprimiu mapas cartográficos de diferentes épocas, aproximando cronologicamente os diferentes períodos da expansão marítima colonial da Europa e a atual colonização e poluição do mundo pela empresa de varejo eletrônico (dos quais o exemplo mais marcante era Facsímil de la disputada carta portulana de Cristóbal Colón, de 2023). Essa dimensão planetária se repetia na obra We Are Stardust (2024), um conjunto de bandeiras de países que têm no mito de sua fundação a presença de astros e estrelas, numa tentativa de evidenciar não apenas o caráter global e transfronteiriço da mudança climática, mas também no intuito de manejar as escalas do problema ecológico, ao apontar para o espaço sideral e a excepcionalidade da Terra como lugar da vida em meio à aridez da Lua e outros planetas. Depois de percorrer o espaço – povoado de pinturas com decalques do próprio corpo da artista e do corpo de sua mãe (as séries Mortalha e Piante vagabonde) –, o espectador retornava à saída, onde encontrava uma obra que, pelo seu método e pelo tema, resumia a exposição: Future Fossil (2018) é uma esfera que simula um planeta – que se assemelha a Marte, mas pode perfeitamente ser a Terra no futuro –, feita de terra, areia, cimento, silicone, espuma, resina, papel-alumínio e lixo eletrônico, submetidos a temperaturas de fusão e manipulados no formato esférico. Por tudo o que se viu na exposição, torna-se nítida a preocupação da artista com as questões climáticas e o destino do planeta. Essas e outras questões foram respondidas a convite do Carbono, na entrevista que Clarissa Tossin, nascida em Porto Alegre, mas residente nos EUA há algumas décadas, concedeu tão amavelmente. Agradecemos a ela e recomendamos ao leitor que acompanhe as obras da artista.
ANTONIO BARROS: Podemos começar pelo subtítulo da exposição, “Ponto sem retorno”. Trata-se de uma afirmação que antecipa os prognósticos científicos, se mantidas as condições econômicas, sociais e políticas vigentes. Você acredita que já atingimos esse ponto? Como você tentou materializar isso em suas obras?
CLARISSA TOSSIN: Possivelmente, mas a noção de um “ponto sem retorno” não me paralisa; pelo contrário, ela clarifica as minhas prioridades. Parei de esperar mudanças sistêmicas. Aceitar pontos de inflexão irreversíveis nos liberta da ilusão de retornar a um equilíbrio anterior e muda o foco para as relações e práticas que queremos nutrir no mundo que habitamos. A fragilidade da vida humana e não humana é um fio condutor do meu trabalho, explorado por meio de materiais e estratégias variadas.
ANTONIO BARROS: Uma das peças centrais da exposição é o conjunto de obras que utiliza embalagens da Amazon. Elas estão presentes, por exemplo, servindo de suporte para a série de cartas náuticas do tempo das plantations, e em Future Geography, entrelaçadas com reproduções de imagens de galáxias. Você poderia comentar mais sobre a escolha dessa empresa como um símbolo das relações comerciais que ligam o passado ao futuro climático?
CLARISSA TOSSIN: Seguindo uma ética ecológica na escolha de materiais, frequentemente reaproveito resíduos do consumo. Desde 2016, reaproveito caixas de entrega da Amazon em elaboradas tecelagens, criando obras que contrapõem a vastidão do espaço sideral aos detritos descartáveis que se tornaram emblemáticos do nosso mundo movido pelo consumo. No processo lento e laborioso de achatar caixas, cortá-las em tiras e tecê-las, encontro um contraponto aos ciclos rápidos e desperdiçadores da extração e do consumo em massa que construíram e destroem nosso mundo. Na série Geografia Futura [Future Geography], fotografias espaciais da NASA de locais como a Cratera Shackleton – proposta como a primeira mina de gelo lunar dos Estados Unidos –, a Cratera Jezero, em Marte – apelidada de “Aterrissagem de Octavia E. Butler”, onde o rover Perseverance pousou em 2021 –, e imagens recentes do Telescópio James Webb são entrelaçadas com caixas descartadas da Amazon, chamando atenção para como o mapeamento de territórios inexplorados se torna o primeiro passo para planejar futuras extrações – da mesma forma que os mapas europeus da era das navegações serviram à colonização. Esse gesto de reaproveitar materiais descartados reforça a ideia do impulso colonizador e extrativista presente na privatização da exploração espacial no século XXI.
ANTONIO BARROS: Sua exposição trabalha bastante com a ideia de escala. De um lado, o olhar se volta aos astros, como em We Are Stardust, para salientar o caráter transnacional das mudanças climáticas; de outro, na série Mortalhas, a ancestralidade e o corpo são invocados para lembrar os efeitos concretos do clima nas diferentes gerações. Como é o trabalho de conjugar essas diferentes escalas em um objeto de arte?
CLARISSA TOSSIN: Minha prática está enraizada no pensamento ecológico e em geografias moldadas pela colonização e pela extração. Por meio de uma perspectiva ecofeminista, entrelaço narrativas míticas, indígenas, feministas, pessoais e especulativas para questionar sistemas de dominação. Nos últimos anos, meu trabalho se deslocou dos grandes “hiperobjetos” – mineração celeste, devastação amazônica, resíduos sintéticos – em direção ao microcosmos do meu próprio corpo e ao cultivo de vínculos com os seres e materiais do meu ecossistema imediato. Essa virada para o interior abriu uma nova linha de investigação na minha prática, em que a representação do corpo feminino e da natureza é interrogada nas séries Mortalhas e Piante vagabonde. Esse novo corpo de trabalho emerge da complexa interseção entre exploração ambiental no Antropoceno e opressão sistêmica do feminino. A perigosa ficção de juventude e renovação infinitas, projetada tanto nos corpos das mulheres quanto nos recursos naturais, tem levado nossos ecossistemas ao ponto de ruptura. À medida que vivencio os estágios iniciais da menopausa (meu próprio ponto sem retorno, minha própria mudança climática), sinto a força da natureza de dentro para fora, de maneira análoga às perturbações climáticas que se desenrolam para além da minha pele. No meu microcosmo corporal, descubro padrões de resistência, adaptação e transformação que refletem a resposta do planeta ao estresse ecológico.


ANTONIO BARROS: A exposição também trabalha com os elementos. O calor está presente em Death by Heat Wave, que usa um molde em silicone de uma árvore morta pelo calor excessivo. E temos a presença da água e da lama em Volume morto, que usa resíduos da enchente de 2024, no Rio Grande do Sul, para cobrir as paredes da galeria. Você poderia nos falar um pouco mais sobre como a percepção das mudanças climáticas impactou seu processo criativo?
CLARISSA TOSSIN: O último ano foi profundamente desestabilizador, pois testemunhei perturbações ambientais tanto em esferas íntimas quanto em grande escala. As enchentes no Rio Grande do Sul deslocaram membros da minha família e devastaram comunidades que conheço intimamente. Acompanhar a catástrofe pela mídia me fez sentir impotente. Poucos meses depois, em janeiro de 2025, os incêndios de Eaton e Palisades devastaram Los Angeles, consumindo bairros inteiros. Uma das minhas obras foi destruída no incêndio de Palisades, e esse episódio gerou uma nova obra na exposição: Incêndio de Palisades (É preciso criar seus próprios mundos) (2019), presente apenas como legenda — um verbete-obituário sem objeto físico.
Essa é a realidade do século XXI, onde eventos climáticos extremos continuam a se intensificar e nossos ecossistemas desestabilizados gritam, por meio de catástrofes, por uma mudança de paradigma. Volume morto surgiu dessas experiências emocionalmente exaustivas. Quis levar para o espaço expositivo esse profundo sentimento de perda e a realidade de viver entre estilhaços. Procurei criar uma obra fenomenológica capaz de provocar uma resposta emocional imediata, ao mesmo tempo que oferecesse camadas mais profundas de significado para os espectadores curiosos.
A instalação transforma as paredes da galeria em um testemunho da memória das enchentes. Pedi à minha prima Cecília Daudt que coletasse terra saturada por águas das enchentes na Cidade Baixa e Sarandi (bairros de Porto Alegre) e em Eldorado do Sul. Ela enviou vinte quilos dessas terras para São Paulo, onde meu amigo de longa data e artista Frank Dezeuxis as secou e triturou, transformando-as em um pigmento fino para a preparação da tinta. Essa tinta-terra foi usada para replicar as linhas d’água deixadas nos edifícios após o recuo das enchentes lamacentas, os rastros físicos do trauma inscritos nas paredes. O título, Volume morto, surgiu numa conversa com Guilherme Giufrida, co-curador da exposição, sobre a crise hídrica de São Paulo, quando essa expressão era usada para descrever o sedimento lamacento no fundo dos reservatórios após a água potável desaparecer. Por meio de seu material e título, a instalação condensa ausência e excesso, as forças antagônicas que desencadearão nosso futuro climático. A reconstrução sempre começa entre os resíduos, e eu quis que essas marcas das enchentes se transformassem em solo fértil para o crescimento das demais obras na exposição.
ANTONIO BARROS: The Only Lasting True is Change, uma esfera formada por materiais derretidos e que se assemelha a uma miniatura de planeta estéril, me parece uma imagem figurativa do que a Terra se tornará devido às mudanças climáticas. Você poderia nos falar um pouco mais sobre o uso do calor e dos materiais na composição dessa obra, e de como ela sintetiza bem o processo de ruptura ecológica atual?
CLARISSA TOSSIN: Meus objetos-fósseis partem de moldes de silicone de árvores mortas por falta de umidade ou de partes do meu próprio corpo. Em Fóssil do futuro [Future fóssil], derreti e reciclei meu lixo plástico em camadas que evocam um núcleo amostral do futuro; em Devir mineral (2021), fiz máscaras mortuárias do meu rosto com argila do ateliê durante o lockdown. A única verdade duradoura é a mudança [The Only Lasting True is Change] aprofunda essa lógica, combinando camadas de restos de materiais do ateliê para evocar mais um futuro fossilizado. O título vem das primeiras frases de A parábola do semeador (1993), de Octavia E. Butler – cuja distopia profética da Califórnia de 2024, marcada por colapso ecológico, desigualdade e regime autoritário, ressoa de forma perturbadora com o presente. O que me atrai em Butler é sua recusa do fatalismo tecnológico: ela foca na psicologia humana e nas relações sociais para oferecer modelos de adaptação em meio à catástrofe.


ANTONIO BARROS: Para finalizar, seu trabalho é importantíssimo para criar consciência sobre as mudanças climáticas. Como você tem acompanhado a evolução das formas artísticas nessa relação com os movimentos ecológicos e as políticas climáticas? Como você situa a sua obra nesse panorama?
CLARISSA TOSSIN: Estou em conversa constante com muitos artistas que lidam com temas ecológicos, mas em vez de tentar resumir essas questões complexas ainda em aberto como práticas artísticas do presente, sugiro a leitura de dois textos que as abordam com muito mais precisão do que eu conseguiria fazer aqui. O primeiro é o ensaio “Ponto sem retorno: As escalas do Antropoceno em Clarissa Tossin”, do co-curador da exposição no MASP, Guilherme Giufrida, escrito para o catálogo. O segundo é o ensaio crítico “Gaia in Exhaustion: Clarissa Tossin Ponders How We Walk Down a Path of No Return”, de Luiz Armando Bagolin, publicado na New City Brazil.
Carbono, vol. 17 – abril de 2026.
ISSN: 3085-7066
