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Sensibilidade e Sono Zero

Algumas palavras sobre o capitalismo 24/7

Resenha do livro: CRARY, Jonathan. 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono. Tradução: Joaquim Toledo Jr. São Paulo: Ubu, 2016.

Felipe Fauri1

“Deve-se ir ver, em uma boa manhã, do alto da colina do Sagrado Coração, em Paris, a cidade descobrir seu véu esplêndido, antes de estender seus braços. Uma vez enfim dispersado, congelado, desprezado e sem febre, começa como um navio à grande noite, que faz da imundície e da maravilha uma única coisa.”2
André Breton, “Os Vasos Comunicantes”

A famosa frase de André Breton, em seu ensaio “Os Vasos Comunicantes”, imaginando Paris adormecendo e, com ela, toda uma multidão dormindo com seus sonos portadores de um poder coletivo extraordinário que pode se efetivar no mundo no momento em que os sonhos de cada indivíduo começassem a desejar o Real, é significativa para pensar o livro de Jonathan Crary 24/7 – capitalismo tardio e os fins do sono.

Por detrás da investigação acerca dos mecanismos pelos quais o capitalismo pretende acabar com o sono humano e, com isso, com a própria periodicidade da vida social, Crary busca concatenar diversos processos recentes do capitalismo tardio a fim de lhes atribuir sua função histórica: a dessensibilização e a desumanização do tempo vivido.

Dos novos mecanismos de redução da noite à hipersaturação da imagem renderizada como objeto principal de direcionamento do olho humano, a tese sustentada é de que as áreas da vida humana pouco mercantilizáveis, como o sono, estão se tornando cada vez mais uma mercadoria entre outras.

O projeto começa por meio da investigação do pardal da coroa branca, animal conhecido por possuir uma capacidade impressionante de ficar acordado por um tempo inimaginável. Há alguns anos, pesquisadores de universidades americanas vêm estudando esse tipo específico de ave, tendo em vista o desenvolvimento de novas tecnologias para o aparato militar estadunidense. O objetivo com este estudo é conseguir criar um soldado que não dorme. Atualmente, as técnicas de privação do sono têm se baseado no uso de substâncias neuroquímicas e estimulação magnética transcraniana. A curto prazo, o objetivo é possibilitar a atividade de um soldado por meio de indução à insônia como um estímulo constante para a vigília. No entanto, o objetivo a longo prazo é reduzir a necessidade de sono no corpo humano.

Ainda no universo militar, a tentativa de aproximar cada vez mais o soldado de um mecanismo não humano e reduzir a atividade humana no campo de batalha não começou ontem. A privação do sono e um corpo em eterna vigília são apenas mais um passo dado em direção à configuração total do aparato militar em um aparato não orgânico. Por mais macabro que isso já seja, a história demonstra que, rapidamente, inovações e dispositivos militares adentram na esfera social, e o soldado que não dorme logo vira o trabalhador que não dorme.

Em alguns lugares do mundo, tentativas de criar um sistema de iluminação intermitente visando ao aumento de produtividade em áreas como a exploração industrial, como no leste da Rússia, já foram tentadas. O vínculo entre trabalho, iluminação e atividade constante já pode ser sentido para além desses exemplos remotos, e é nesta imbricação de elementos que reside o capitalismo 24/7.

Embora muitas empresas e instituições já operem em regimes 24/7, somente recentemente o termo pôde começar a denominar um tipo de reorganização de todas as esferas sociais, cuja aparência de uma atividade humana constante esconde a equivalência entre vida social e desempenho robótico. Somente com as investidas contra a necessidade de dormir é que o diagnóstico já feito por diversos autores, entre eles, Lukács, de que o tempo no capitalismo é o tempo vazio e homogêneo da modernidade, se realiza. Crary caracteriza a expressão 24/7 como “uma redundância estática que desautoriza qualquer imbricação com as tessituras rítmicas e periódicas da vida humana” (p. 18).

A experiência temporal de um mundo que não dorme é a de um tempo da indiferença. A ideia do trabalho sem pausa, da disponibilidade constante e, por conseguinte, de necessidades ininterruptas, se tornou normal. O sono seria um tempo roubado do capitalismo, um hiato incontornável que afirma a necessidade de um intervalo, de um tempo que não pode ser calculado; nenhum valor pode ser extraído do sono e, portanto, é algo a ser erradicado da modernidade.

“O sono é o lembrete, tão ubíquo quanto despercebido, de uma pré-modernidade jamais completamente superada, um vestígio do universo agrícola que começou a desaparecer há quatrocentos anos. O escândalo do sono é o enraizamento em nossas vidas das oscilações rítmicas de luz solar e escuridão, de atividade e descanso, de trabalho e recuperação – erradicadas ou neutralizadas em outros âmbitos.” (p. 21)

Outro traço presente no capitalismo 24/7 é a expansão de uma tendência específica do modo de produção capitalista: a força homogeneizadora que abole estruturas de diferenciação como sagrado-profano, máquina-organismo etc. Qualquer lastro de atividade natural que não possa ser ou abolido ou aclimatado se torna um obstáculo ao tipo de produtividade que o 24/7 busca realizar. Talvez o melhor exemplo seja o do sleep mode: uma configuração que deixa o aparelho quase dormindo, mas sempre pronto. O sono seria um estado de operacionalidade diminuída, mas sempre acessível. Nada está verdadeiramente desligado, nem em repouso real.

Capa do livro de Jonathan Crary

O regime 24/7, em sua busca de abolir as distinções entre dia e noite, claro e escuro, ação e descanso, repensa o mundo como um enorme shopping center, sendo razão da insônia e lugar onde se encontra a solução. Basta imaginar uma pessoa com dificuldades para dormir, no meio da noite, pedindo por aplicativo um remédio para dormir vindo de uma farmácia aberta 24h. Esse estado de atuação constante do ser humano retira não só a periodicidade de uma vida natural, como também a possibilidade de sonhar.

“May God us keep From Single vision & Newtons sleep”,William Blake uma vez disse. O sonho, reinterpretado como um lugar onde um novo mundo pode ser imaginado, um lugar onde o poder controlador da sociedade moderna não consegue penetrar, foi objeto de reflexão de muitos artistas e filósofos. O sonambulismo, esse estado comparável ao sleep mode, costuma ser associado a comportamentos rotineiros e habituais, em que um poder de implosão daquela temporalidade vivida fica abolido enquanto aquele regime espectral estiver vigente. A epístola de São Paulo aos romanos evoca o poder disruptivo do despertar: “Sabeis em que momentos estamos: já é hora de despertardes do sono. Agora, a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé” (Romanos, 13:11).

Até os dias atuais, o despertar sempre esteve ligado à recuperação de uma autonomia perdida no ócio do sono. No entanto, a possibilidade de ação reconfiguradora da ordem social que reside no ato de despertar já não mais ameaça um mundo que não dorme. É na ambiguidade do sono que pensadores como Walter Benjamin e os artistas surrealistas vão encontrar possíveis caminhos emancipadores.

A abolição do sono e a instauração de um tempo 24/7 não são, portanto, apenas uma homogeneização temporal, mas também imagética. Já não existem mais momentos da vida que não possam ser gravados ou registrados, ou sonhos que não possam ser renderizados por uma IA. As imagens e informações digitais buscam abolir a unicidade dos lugares e acontecimentos numa cadeia de relações em que a experiência temporal e material dos ambientes se transforma em um novo tipo de experiência compartilhada, muito mais dessensibilizada e reificada. Jean-Luc-Godard, em um lindíssimo filme chamado Elogio do amor, se questiona sobre a crise do olhar (“Quand est-ce-que le regard a basculé”). Procurar a resposta para a pergunta nos levaria a digressões improdutivas, com perigo de cair em formulações desistoricizantes; no entanto, o questionamento vale como afirmação própria. A possibilidade de enxergar tudo e todos nos impossibilitou de imaginar um Algo Diferente.

Crary, em determinado momento do livro, se detém em analisar a famosa pintura de Joseph Wright of Derby (acima), sempre utilizada como exemplo em livros de história da industrialização. A iluminação artificial abole as temporalidades cíclicas da Lua e do Sol e a novidade é essa relação moderna entre trabalho e tempo. A pintura realiza o diagnóstico feito por Marx da relação assimétrica entre capitalismo e vida rural, pois as temporalidades sazonais da agricultura são incompatíveis com o regime de trabalho do qual o capitalismo depende.

Crary consegue ser muito criativo na exposição dos vínculos intrínsecos entre a abolição da experiência temporal e a dessensibilização da vida humana. O que lhe falta é um olhar mais detido para as diferentes maneiras através das quais tal processo se realiza no mundo contemporâneo. A sua tentativa de lavrar uma certidão de nascimento para as novas formas de reorganização do espaço público no início dos anos 1990 explica somente metade do problema. Mesmo aceitando sem ressalvas sua periodicidade, não fica claro como diferentes países e diferentes regiões do mundo se relacionam com a homogeneização do tempo. Que isso ocorra nos países centrais do sistema capitalista é esperado; no entanto, a dinâmica de recepção de novas tecnologias feitas para abolir a experiência temporal e sua função nos mecanismos de regulação social e política de países fora do centro permanece obscura. Todos nós sentimos a mesma dissociação entre tempo e vida orgânica? E se sim, elas possuem a mesma razão histórica?

Com isso, o argumento central do livro não deve ser descartado, mas ao menos localizado. Não só uma rigorosa historicização dos novos mecanismos de dominação tecnológica criados a partir dos anos 1990, especialmente com a emergência da empresa Google, como também suas diversas formas de agir em diferentes partes do globo devem ser revistas com as devidas mediações a fim de predicar, na totalidade social do problema, que o fim do sono no capitalismo tardio ocorre de maneira a nivelar toda experiência humana. Como diagnóstico geral de uma tendência histórica, o livro de Jonathan Crary acerta precisamente. Agora nos resta sedimentar o problema, buscando dar-lhe concretude histórico-mundial.

* * *

  1. Estudante de Letras na UFRGS. Pesquisador de Teoria Literária e Literatura Russa (currículo Lattes). ↩︎
  2. Tradução livre feita por Pedro Manica. ↩︎

Carbono, vol. 19 – junho de 2026.
ISSN: 3085-7066

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