Resenha do livro: WOODS, A.J.A. The Cultural Marxism Conspiracy: Why the Right Blames the Frankfurt School for the Decline of the West. Londres; Nova York: Verso, 2026.
Alexander Billet1
Primeiro como tragédia, depois como farsa… depois como neurose, depois como obsessão maluca, depois como pose irônica, depois como absurdo transformado em arma. Nós perdemos a noção de como a história se repete. Sabemos que isso é ruim, sabemos que isso é violento e cruel e sabemos que isso vai continuar a menos que algo seja feito. Ainda assim, a análise escapa de nós: os ciclos estão se tornando rápidos demais para serem compreendidos. Cada ideia e cada gesto já se tornou um meme velho no momento em que ele chega às nossas mentes, quer ele esteja enfraquecido ou esterilizado, quer ele faça parte de uma onda de banalidade que nos derruba.
É assim com o “Marxismo Cultural”. Nos últimos quinze anos – especialmente na última década – o conceito se tornou tão excessivamente usado pela direita dos EUA, que nós quase o abstraímos quando ele é ouvido. O mesmo pode ser dito sobre os vários temas de discussão trumpistas – o “DEI”, a “esquerda radical”, a “síndrome de transtorno de Trump” – que decidimos ignorar. Como acontece com qualquer coisa que é muito usada, nós nos esquecemos do que tornou a ideia tão potente lá no início.
Obviamente, este é o objetivo, e no fim das contas ele atua em favor da direita. “É claro que eles enxergam marxistas em todos os cantos”, nós dizemos. “É ridículo”. E é mesmo. Mas, quando se acredita nessa ideia ridícula e quando ela é promovida pelo homem mais poderoso do mundo (ele, que neste momento está efusivamente bombardeando o Irã sob o pretexto mais esdrúxulo), o que importa a sua “veracidade”? Se, ao fim e ao cabo, você é obrigado a declarar publicamente que “não é um marxista” apenas para acalmar o furor, será que eles já não venceram?
Contra tudo isso, o livro de A.J.A. Woods, The Cultural Marxism Conspiracy: Why the Right Blames the Frankfurt School for the Decline of the West (2026), nos oferece uma correção bem-vinda. Este livro curto – o primeiro de Wood – retraça a genealogia e a evolução desse bicho-papão da direita. É claro, como aponta Woods, o Marxismo Cultural não é real, ao menos não na forma como a direita o concebe. A ideia segundo a qual os marxistas se apropriaram do aparato cultural e educacional dos Estados Unidos, e do mundo todo, é absurdo logo de cara. A verdadeira questão, conforme mostra Woods, é: qual tipo de sociedade, qual curso da história, possibilitou que uma ideia flagrantemente estúpida se enraizasse e se espalhasse tão amplamente?
O que torna a resposta a essa pergunta ainda mais estranha é que a maioria dos defensores da teoria da conspiração do Marxismo Cultural não conseguiria citar um marxista de verdade, mesmo que tentasse. O conservador estadunidense típico nunca ouviu falar de Antonio Gramsci, Theodor Adorno, Walter Benjamin ou Herbert Marcuse. E, mesmo assim, é à obra desses teóricos que os principais arquitetos dessa teoria da conspiração frequentemente se voltam, ainda que eles nem sequer tenham se preocupado em ler uma palavra deles.
O livro de Woods não pretende ser uma defesa das ideias desses pensadores de esquerda, ao menos não em princípio. Defender qualquer pessoa das acusações da brigada que usa chapéu de papel-alumínio é obviamente uma perda de tempo, mesmo que essa brigada seja a maioria no gabinete presidencial. Mas Woods está trabalhando na senda dos estudos culturais, influenciado por Stuart Hall e Raymond Williams, bem como por Gramsci e pela Escola de Frankfurt. Em outras palavras, em vez de se desviar das estridentes acusações de “marxista”, Woods se inclina em direção a elas. De fato, Woods argumenta que “é mais adequado discutir os Marxismos Culturais no plural”, e que estes formam “não uma teoria da conspiração genérica, mas, antes, uma combinação mutável de elementos narrativos que possuem diferentes sentidos e funções em contextos políticos variados”.
Dependendo da época, do escritor ou das circunstâncias, a estridência em torno dos perigos do Marxismo Cultural pode surgir de posições bastante diferentes, muitas vezes contraditórias. O Marxismo Cultural fez parte de praticamente todos os pânicos morais desde os anos 1960; ele é um dos fatores por trás dos ataques ao “politicamente correto” e ao “woke”. Ele é tanto um perigo para as glórias do capitalismo estadunidense, quanto uma intriga que se estende aos mais altos escalões coorporativos dos EUA. Ele é ao mesmo tempo poderoso e uma ameaça ao próprio poder. Assim como muitas ideias e memes hoje em dia, ele é prolífico porque ele faz sentido. A sua durabilidade está na sua incoerência.
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Que essas narrativas sobre o(s) Marxismo(s) Cultural(ais) tenha(m) suas origens em um séquito que costumava se autodenominar marxista pode ou não ser surpreendente, muito embora isso seguramente aumente o espanto. As organizações do falecido Lyndon LaRouche, um excêntrico agitador político marginal, surgiram dos restos fragmentados dos Students for a Democratic Society (SDS) [Estudantes para uma Sociedade Democrática]. No entanto, essas origens tiveram pouca influência naquilo que o movimento se tornou, assim como pode atestar qualquer pessoa que teve algum contato com os larouchistas do mundo real.
É aí que começa a narrativa de Woods. Em menos de uma década após a implosão do SDS, o grupo de LaRouche – que teve diferentes nomes e versões – se transformou integralmente em um culto, cheio de expurgos, teorias da conspiração antissemíticas e rituais de “despojamento do ego” por parte dos seus membros. Os larouchistas interromperam bruscamente reuniões do Partido Comunista e do Partido Socialista dos Trabalhadores para atacar os presentes. Com o próprio LaRouche os encabeçando, eles construíram um prolífico feudo editorial e desenvolveram um modo de análise tão idiossincrático e autorreferencial, que rivaliza com a Cientologia.
A guinada do movimento para a direita ficou clara na miríade de suas publicações. No fim dos anos 1960, Herbert Marcuse era apenas um pensador contra quem o narcisista LaRouche nutria um rancor particular por supostamente ter sido, juntamente com seu “National Caucus of Labor Committes” (NCLC) [Convenção Nacional dos Comitês Trabalhistas], expulso da SDS. Lá pelo final dos anos 1970, a Escola de Frankfurt, por óbvio, já era responsabilizada pelo relaxamento da moral sexual dos jovens e por sua predileção por músicas dissonantes e barulhentas. Por meio da promoção de uma cultura consumista insidiosa, filmes hedonísticos e novelas previsíveis, os pensadores da Escola de Frankfurt estavam rasgando o tecido da cultura ocidental e da civilização.
É claro que qualquer um que estivesse familiarizado com a obra da Escola de Frankfurt, mesmo que superficialmente, identificaria imediatamente o problema. Colocando de forma bem simples, a Escola de Frankfurt – Adorno e Max Horkheimer, principalmente – manifestavam um completo desdém pela maioria das formas de expressão da cultura popular. Para eles, a produção industrial massiva de filmes, músicas pop e programas de TV – a temida “indústria cultural” – servia para colonizar o ócio do ser humano, metabolizando o tempo livre em uma espécie de trabalho.
Antes da guerra, o Instituto para a Pesquisa Social, situado em Frankfurt, havia se dedicado a responder por que a revolução socialista não tinha sido bem-sucedida na Alemanha. As respostas não seriam encontradas apenas na economia política ou na estratégia revolucionária, mas também na cultura, na psicanálise, na própria formatação da vida. Depois que os pensadores do Instituto – todos marxistas, quase todos judeus – fugiram do Terceiro Reich, sua preocupação primordial começou a se deslocar para uma tentativa de compreender o sucesso do fascismo e como ele poderia retornar. Ecos da dominação fascista haviam se inserido no tecido do capitalismo de consumo do pós-guerra, e a Escola de Frankfurt buscou destacá-los em suas investigações, em suas pesquisas acadêmicas, em sua obra filosófica e na sua crítica cultural. Esse objetivo é nítido para qualquer pessoa que lê Estudos sobre a personalidade autoritária (1950), de Adorno et alii, Critique of Instrumental Reason (1967), de Horkheimer, ou One-Dimensional Man: Studies in the Ideology of Advanced Industrial Society (1964).2
Que os larouchistas – ou os seus futuros herdeiros – tenham considerado que essas ideias promoviam o seu exato oposto é algo peculiar, para dizer o mínimo. Nas páginas da New Solidarity, Executive Intelligence Review e outras publicações larouchistas, tanto a Nova Esquerda quanto a Escola de Frankfurt foram transformadas em espiões de prontidão pagos pelos Rockefellers, conspirando com figuras como Henry Kissinger e a Rainha Elizabeth II. Porém, como Woods demonstra, a preocupação incidia majoritariamente sobre a forma como esse movimento foi concebido como um tipo de vanguarda intelectual, capaz de insights que ninguém podia produzir:
“Essas leituras ‘geométricas’ específicas da Escola de Frankfurt geraram uma imagem do ‘inimigo’ que o movimento de LaRouche pôde continuamente contestar, se definindo como uma elite intelectual. Nos anos 1970 e 1980, a NCLC expandiria essa noção de elite a fim de incluir seus novos aliados conservadores de direita. Essas mudanças nas afiliações políticas afetariam o tom e a magnitude de suas polêmicas contra a Escola de Frankfurt.”
Logo, Marxismo Cultural. Embora o movimento de LaRouche nunca tenha usado o termo, suas publicações e ideias seguiram em frente nas mãos de pensadores paleoconservadores como Paul Weyrich e William S. Lind, figuras fundamentais no Center for Cultural Conservatism [Centro para o Conservadorismo Cultural], a Free Congress Foundation [Fundação Congresso Livre] e a formação da Nova Direita durante os anos do governo Reagan. A partir daí, o termo foi se infiltrando nos escalões do Tea Party e nos decretos do Projeto 2025. Ele apareceu em manifestos de terroristas, incluindo Anders Breivik, nos tweets de Elon Musk e na doutrina de “legítimos” think-tankers tais como Christopher Rufo. Ele foi adaptado e adotado por figuras como Nigel Farage da Reform UK, os bolsonaristas no Brasil e Javier Milei na Argentina. Em que pese todo esse suposto medo de que os marxistas haviam dado início a uma longa jornada rumo às nossas instituições, é a direita que claramente está no controle delas. Sem dúvida, neste momento, a direita está em vias de esvaziar completamente essas instituições.
Alguém poderia dizer que essa teoria da conspiração percorreu um longo caminho desde suas origens larouchianas, mas, como escreve Woods, todas as versões e usos do tropos do Marxismo Cultural contêm uma característica central. A despeito de toda sua retórica antielitista, a despeito de seus apelos à tradição e à “natureza humana”, seu objetivo final é simplesmente substituir uma elite pela outra: substituir uma elite multirracial por uma elite branca, substituir o consumismo positivo em relação ao sexo pela família patriarcal, substituir um capitalismo “woke” por um que tenha abandonado qualquer pretensão de igualdade social.

Tudo isso é muito nefasto, como a maioria das coisas hoje em dia. E, no entanto, essa não é a única narrativa que o livro de Woods tece. Assim como qualquer ideia venenosa, essa teoria da conspiração ocorre no contexto de uma cultura mais ampla. E, como bom gramsciano, Woods enxerga essa cultura como algo que não se limita uma história unilateral de dominação. Existe um lado democrático também, e até mesmo um lado radical. Embora a política não seja “decorrente da cultura”, como alegam muitos guerreiros conservadores da cultura, Woods também insiste no fato de que separamos a cultura da política por nossa própria conta e risco. “As práticas da arte, da cultura e da educação não são meros acessórios da existência humana”, Woods escreve; “elas fazem parte do nosso modo de vida”.
Enfrentamos, portanto, uma tarefa aterrorizante: criar uma cultura que almeje não apenas transformar as ideias, mas também fazer da vida cotidiana um experimento de democracia radical. Que a direita possa sem hesitação colar a etiqueta de marxista naquilo que é basicamente a política do liberalismo, é algo que nos mostra não a força da esquerda nos últimos cinquenta anos, mas sim a sua fraqueza. Apesar de algumas vitórias significativas e do crescimento no número de pessoas que se identificam como socialistas nos últimos anos, essa fraqueza persiste. O marxismo de que a direita fala é espectral, está e não está ali, é anticomunismo sem comunismo, um mero potencial que é inflado ao nível de um poder real e concreto.
Mas por que esse espectro de mentirinha assombra de modo tão eficaz? Levar a sério os delírios febris do pânico anticomunista leva inevitavelmente a pensar por que a direita ainda está tentando tanto exorcizar os fantasmas dos anos 1960? Não foram só os fanáticos da extrema direita que temeram o que o questionamento das glórias do capitalismo do pós-guerra poderia fazer com a juventude. Ninguém menos que Ronald Reagan, durante seu mandato como governador da Califórnia, pressionou veementemente pela demissão de Marcuse de seu cargo de professor na Universidade da Califórnia. Duas décadas antes, na posição de chefe do Sindicato dos Atores de Cinema, Reagan avidamente ajudou a expurgar os comunistas de Hollywood. Para não falar da brutal destruição dos sindicatos e da revogação dos direitos conquistados durante os anos 1960, que caracterizaram seu período como presidente e abriram caminho para imitadores ainda mais perversos.
No entanto, estudantes mal comportados não eram o que realmente assustava o establishment. Era o potencial que as ideias desses estudantes tinham de se espalhar para além de seu círculo. Os anos 1960 são frequentemente considerados como uma coisa de estudantes, uma onda de crianças rebeldes voltando-se contra seus próprios privilégios. Mas a dicotomia “hippies” versus “hardhats”3 nunca foi tão simples como fizeram parecer. Quanto mais baixo na escala dos rendimentos, mais provável era a oposição à Guerra do Vietnã. E altos índices de pobreza e privação levaram muitas pessoas de cor a apoiar grupos como os Panteras Negras ou os Boinas Marrons.
Marcuse – que, naquela época, era o único membro da Escola de Frankfurt que valia a pena, de acordo com a Nova Esquerda – tampouco desdenhava a classe trabalhadora, diferentemente daquilo que as caricaturas nos levaram a crer. Seu Essay on Liberation (1969) afirma explicitamente que os estudantes não podiam fazer tudo sozinhos, que a classe trabalhadora é indispensável para qualquer revolução significativa. Se elas, as pessoas mais aptas a materialmente interromper os fluxos de capital, pudessem ser convencidas, então o que Marcuse chamou de “nova sensibilidade” – o desejo coletivo pela utopia – poderia ganhar mais tração. E, com isso, as pessoas poderiam parar de lutar pela sua servidão como se se tratasse de sua liberdade.
A lógica por trás desse impulso é, muito pelo contrário, ainda mais urgente no momento atual. Parece até que, antes de nos remeter a qualquer coisa como o Marxismo Cultural, temos antes que levar em consideração o capitalismo cultural. Hoje, as ideologias que produzem o consenso e até mesmo o entusiasmo pela dominação capitalista são mantidas vivas por uma infraestrutura cultural e tecnológica mais complexa, mais diversamente ramificada e mais sutilmente influente do que nunca. Ao mesmo tempo, aqueles que mantêm essa infraestrutura de pé estão fortemente proletarizados, sujeitos à precariedade que se assemelha bastante às condições dos trabalhadores industriais itinerantes nos anos 1900. É preciso apenas olhar para os escritores em greve, os professores universitários temporários e os moderadores de conteúdo traumatizados para constatarmos isso. E isso nem sequer dá conta das devastações que a IA está começando a causar nessas profissões, ou os impactos ecológicos em muitas comunidades.
Esses desenvolvimentos levantam espectros ainda mais assustadores – de um futuro atomizado e fragmentado, privado de prazeres humanos ou mesmo de necessidades básicas. Se a ideia de Marxismo Cultural é em grande parte um mito, então ela precisa urgentemente se tornar realidade.
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(Este texto foi originalmente publicado no site do Los Angeles Reviews of Books, em 30 de abril de 2026. Agradecemos encarecidamente ao autor e os editores por cederem os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Antonio Barros.)
- Escritor e crítico residente em Los Angeles. Contribuiu para vários veículos de mídia, incluindo Jacobin, Los Angeles Review of Books e Protean. É autor do livro Abalar a cidade: música e capitalismo, espaço e tempo. ↩︎
- No Brasil, o livro foi traduzido sob o título Ideologia da sociedade industrial, publicado em 1967, com tradução de Giasone Rebuá, pela Zahar Editores. [N.T.] ↩︎
- Hardhats, em referência aos operários da construção (que usavam capacetes, daí o nome) que formaram um movimento, juntamente com outros operários conservadores, que atacou estudantes que protestavam contra a Guerra do Vietnã em 8 de maio de 1970 em Nova York. [N.T.] ↩︎
Carbono, vol. 20 – julho de 2026.
ISSN: 3085-7066
