Christiane Silveira Kammsetzer1
“Havia um planeta que não conseguia entender onde estava todo mundo. Ele morreu de solidão. Isso aconteceu bilhões de vezes só na nossa galáxia.”
Richard Powers, Deslumbramento
Robin aterrissa em planetas modelados por seu pai, Theo, em expedições imaginárias em que se lançam antes da hora de dormir. Para cada noite, um planeta. Na companhia do pai, explora algumas das incontáveis possibilidades de vida que a plasticidade da composição química do universo permitiria. Fazem isso em um mundo que queima, em que as águas degeladas do Ártico jorram sobre o Atlântico, em que as vidas naturais se tornam inviáveis e desaparecem. Buscam sobreviver à devastação de um luto em um planeta dominado por governantes que perpetuam um sistema econômico que vem, há centenas de anos, levando a Terra a um estado de não-retorno, o Antropoceno, onde a agência humana se tornou agente geológico, sendo capaz de produzir alterações climáticas e ambientais de efeitos nefastos para a vida no planeta.2 Como fazer morada quando o que dá sustentação à vida não está mais aí?
Em Deslumbramento, tradução de “Bewilderment”, o escritor estadunidense Richard Powers, premiado com o Pulitzer na categoria Ficção em 2019 por seu romance anterior, Overstory, que foi publicado no Brasil pela Editora Todavia como A trama das árvores, constrói a narrativa de um homem que busca dar condições de vida para o filho de nove anos, ao mesmo tempo que vive o luto pela morte da esposa Alyssa, ocorrido dois anos antes. Seu filho Robin diverge da norma social em seu comportamento e expressão afetiva. É um garoto atravessado por perdas: da mãe, do cachorro Chester, de um planeta que lhe é hostil e que faz desaparecer espécies animais, vegetais, que o faz desaparecer em um sistema educacional que não lhe propicia um lugar seguro. Robin sente raiva, revolta e saudades. Assim como o pai, luta para que a memória da mãe não desapareça, ao identificar-se com seu ethos de ativista ambiental. Ao mesmo tempo é testemunha de um pai que sucumbe, melancólico, diante da constatação de que nada está sob seu controle.
Theo modela planetas em que ele e o filho tentam fazer morada para sua solidão, tanto pela esperança evocada de recuperação da vida em condições precaríssimas, quanto por espelharem nesses outros mundos os afetos que vivenciam em seu percurso de luto. Enquanto viajam pelo espaço, pisam no solo, adentrando os bosques e trilhas das montanhas Smoky, lugar onde pai e filho se aproximam da vida natural e das memórias de Alyssa. O garoto observa e registra, em seu caderno, espécies em vias de extinção. Imerso no mundo capitalista em que habita, o menino inventa um modo de dar condições de sobrevivência a esses seres por meio da venda de seus desenhos. No entanto, isso só se torna possível quando o menino, guiado pelo pai, escapa da vigilância social – da escola e dos tratamentos convencionais – e ingressa em um curioso tratamento experimental realizado com o uso de inteligência artificial, mas que não lhe deixa imune à sociedade midiática em que vive.
Ainda que pai e filho vivessem em uma sociedade hostil e pouco inclusiva às peculiaridades de Robin, por uma suposta proteção da infância estavam sujeitos aos sólidos mecanismos de controle das vidas humanas. No entanto, resistindo à lógica de cuidado associada ao mercado, Theo tira o filho da mira da indústria farmacêutica buscando, como alternativa ao tratamento psiquiátrico convencional, recomendado pela escola, um cientista, amigo de Alyssa, conhecido por realizar um tratamento baseado em um experimento de Decoded Neurofeedback do qual Theo e Alyssa haviam participado anos antes. Robin passa, então, a ter suas respostas cognitivas e emocionais remodeladas pelo padrão neuronal de sua mãe, a partir de registros guardados pelo cientista de quando ela fora sugestionada a entrar em um estado emocional de êxtase. Os efeitos são surpreendentes, sobretudo pela capacidade adaptativa do menino, que vive o tratamento como um jogo que o leva de volta à mãe, como se estivesse sob os comandos de seu cérebro.

A eficácia do tratamento e do modo como Theo oferece segurança afetiva ao filho, respeitando sua condição humana singular e propiciando condições para que o menino encontre seus modos de estar no mundo devastado, revela a atenção da abordagem do escritor a temáticas sensíveis e atuais que perpassam o romance. Evitando a leitura dos personagens em uma chave única, ele traz o tema da neurodiversidade, das possibilidades que os cérebros, assim como os planetas, têm de variar em termos de arranjos neuroquímicos, permitindo configurações cognitivas e emocionais diversas, conforme as condições que se apresentam. Dentro dessa perspectiva, aborda o tema da neurodivergência, mostrando recursos subjetivos construídos na relação do menino com o pai, com o mundo natural e com o experimento de que faz parte, em que aparecem questões que têm sido estudadas, sobretudo em pesquisas recentes sobre o autismo, como a constituição de Duplo e as Ilhas de Competência que mediam a relação entre o eu e o Outro social.3
O romance traz ainda o tema do luto, que com Freud4 compreendemos como um trabalho de desinvestimento da libido no ser amado, o que não acontece sem resistência. Tal trabalho de luto se apresenta como a tentativa de incorporar algo de Alyssa, o que Robin faz, tanto em sua aproximação com a história da mãe por meio do ativismo ambiental, quanto ao estabelecer uma relação em alguma medida simbiótica com algo que restou dela, através da programação a partir dos registros deixados no experimento. No entanto, diferentemente de outros romances que tratam de subjetividade e de saúde mental, em Deslumbramento encontramo-nos com condições emocionais ainda pouco ficcionalizadas como o ecotrauma e a ecoansiedade, que acomete crianças e adolescentes que nasceram após a virada do século XXI e que sofrem com o que os adultos fizeram do mundo em que vivem.
O ponto de vista do pai nos guia no percurso que o menino faz na busca de manutenção da vida na Terra. Acompanhamos as consequências que Robin sofre – sobretudo devido à viralização de sua história nas mídias digitais – em um momento geológico e político em que não cabem a diversidade e a pluralidade, em que se exerce domínio por meio dos mesmos recursos tecnológicos que podem multiplicar as possibilidades de existência. Richard Powers revela, portanto, as contradições de uma sociedade em que a agência humana construiu tecnologias extremamente potentes, mas que têm seu uso limitado por relações de poder retrógradas.
A Theo resta o narrar, que revela sua potência diante das perdas que se sucedem ao longo do romance e que o levam ao estado de desorientação e perplexidade de sentir-se “perdido em um bosque” – recuperando a etimologia do vocábulo “bewilderment” em uma de suas acepções. Dessa forma, o escritor configura, no romance, uma perspectiva de que fala em entrevistas, a de que se há ainda alguma forma de criar conexão e empatia para a situação limite em que vivemos em termos éticos, políticos e ambientais, é pela via da arte, sobretudo da literatura. Para o escritor, o estético possibilita um caminho, através do sensível, para o atravessamento de barreiras erguidas por uma racionalidade humana obturada por compreensões de vida precárias. Dessa forma, Powers constitui, através de sua escrita, um modo de navegação diverso das “barcas habituais da narração”,5 em que o centro das histórias é o encontro do humano com os outros seres vivos e com os territórios. Busca, assim, dar agência ao mundo natural. Segundo ele, “precisamos contar novas histórias para um novo mundo”.6 Para o leitor, fica a desorientação em que o fim não traz o consolo do “viveram felizes para sempre”, mas nos apresenta a sombra da solidão de quem, ainda que buscando sustentar-se nos restos de memórias recuperadas em registros neuronais armazenados por IA, em um gesto limite de tentar religar-se a sua família, sucumbe a forças destrutivas de um lugar em que não haverá outros mundos possíveis para a “NextGen”.
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- Doutoranda em Letras: Estudos de Literatura na linha Teoria, Crítica e Comparatismo, pela UFRGS; mestre em Psicologia Social e Institucional também pela UFRGS. ↩︎
- Mark Bould. The Anthropocene Unconscious. Climate Catastrophe Culture. Londres; Nova York: Verso, 2021. ↩︎
- Jean-Claude Maleval. O autista e a sua voz. São Paulo: Blucher, 2017. ↩︎
- Sigmund Freud. Luto e melancolia, 1917[1915]. In: Sigmund Freud. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996. ↩︎
- Amitav Ghosh. O Grande Desatino. Mudanças climáticas e o impensável. Tradução: Renato Prelorentzou. São Paulo: Quina, 2022, p. 14. ↩︎
- The Conduit. Richard Powers in conversation on his new book Bewilderment. YouTube, 25/08/2021. Acesso em: 09/08/2025. ↩︎
Carbono, vol. 16 – março de 2026.
ISSN: 3085-7066
