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Genealogias do Deslocamento Climático

Em seu romance escrito em 2014, Yoko Tawada, escritora japonesa residente em Berlim, escreve a história de três gerações de ursos polares que testemunham os avanços do caos climático

Resenha do livro: TAWADA, Yoko. Memórias de um urso-polar. Tradução: Lucia Collischonn de Abreu. São Paulo: Todavia, 2019.   

Eduardo Spieler1

Em Etüden im Schnee2– ou Memórias de um urso-polar –, três gerações de ursos polares atravessam a memória profunda de um Ártico ainda preservado até chegar à figura de uma ursa em um zoológico totalmente dependente de humanos. A genealogia, tendo como pano de fundo a relação humana com as mudanças climáticas, combina autobiografia fictícia, alegoria política e reflexão ecológica.

A dimensão climática manifesta-se primeiramente no encadeamento geracional, o que permite uma narrativa que abarque múltiplas temporalidades da transformação eco-evolutiva. Na reconfiguração por meio de um realismo fantástico, as gerações de ursos evocam, além da complexidade identitária, os limites porosos entre espécies. Justapondo a escala da vida individual à temporalidade evolutiva, a narrativa propõe uma reflexão sobre as temporalidades desajustadas da aceleração global.

A primeira figura da genealogia, a avó ursa, ex-estrela de circo e escritora na União Soviética, vive no exílio e lida com as dificuldades de adaptação cultural e as pressões de um regime político opressor. Sua voz, repleta de ironia e melancolia, evoca uma época em que a espécie ainda estava completamente integrada ao ecossistema do Ártico. Nesse registro, o corpo do urso-polar é descrito como um testemunho vivo de processos evolutivos milenares: seu pelo translúcido, isolamento térmico e camuflagem são resultados de uma longa interação com o gelo, o vento e a falta de alimento. Essa herança corporal atua como um arquivo climático, guardando conhecimentos e táticas de sobrevivência que são passadas de geração em geração. No entanto, apesar de ser guardiã dessa memória profunda, a avó já se encontra deslocada, inserida em um contexto urbano e humano que sinaliza a deterioração progressiva da autonomia ecológica.

Ela aparece entre humanos – força evolutiva dominante e principal agente de extinção –, mas não se insere no discurso tradicional da superioridade humana. A proposta de Tawada contraria esse relato e aproxima-se de uma metáfora de adaptação: a evolução vivida pelos ursos-polares para resistir a um mundo que já começava a revelar sinais de um colapso ambiental.

Tawada amplia o quadro narrativo para abarcar uma escala profunda de tempo, mas mantém o foco nos aspectos materiais da sobrevivência. A evolução aparece como processo corpóreo:

“o pelo grosso e oco do urso-polar dispersa a luz, conduzindo energia térmica até a pele negra que repousa sob um denso subpelo. Esse isolamento é tão eficaz que aprisiona o calor corporal. Uma parte mínima da radiação solar que escapa é refletida de volta, dando ao pelo seu branco característico e permitindo a camuflagem na neve e no gelo. Por fornecer pouco calor adicional, acredita-se que esse mecanismo tenha surgido recentemente na história evolutiva da espécie”.3

A descrição do pelo carrega a marca de um passado profundo. É um tempo que se mede em gerações, enraizado em processos relacionais, no qual cada vida é um presente herdado e, com o passar dos séculos, os indivíduos compõem, juntos, a própria espécie.

Nesse contexto, há um paralelo evolutivo com o tornar-se humano da avó-ursa. A marca da evolução com características humanas chama a atenção para a capacidade limitada humana de se igualar ao próximo, podendo ser associada à fase inicial da narrativa das mudanças climáticas – um tempo em que o Ártico ainda oferece condições para a vida polar, mas onde já se insinuam sinais de transformação.

Filha da avó ursa, Tosca, artista de circo na Alemanha Oriental, vive sob as normas de um regime socialista. Ela habita um mundo artificial e coreografado, onde a liberdade é apenas uma ilusão e a sobrevivência depende do espetáculo. Tosca vive em um estado intermediário: não é totalmente selvagem, nem completamente domesticada. Essa condição retrata a realidade de várias espécies, que vivem em ambientes drasticamente modificados pela intervenção humana, transformados em habitats fragmentados ou espaços monitorados. A incessante mobilidade de Tosca, viajando com o circo, caracterizada por deslocamentos geográficos e culturais, reflete o destino de seres humanos e não humanos obrigados a migrar devido a transformações ambientais drásticas. No plano climático, Tosca representa a fase de mudança: um mundo onde a natureza ainda persiste, mas já fortemente mediada por estruturas humanas, e onde a adaptação não é escolha, mas imposição.

Capa do livro de Yoko Tawada

A ursa Tosca pode ser lida como aquela que encarna os efeitos e tensões de um mundo em transição – o que abre espaço para uma relação simbólica com as mudanças climáticas. Tosca vive em um contexto de deslocamento contínuo, tanto geográfico quanto identitário. Sua trajetória, marcada por migrações e pela necessidade de adaptação a diferentes ambientes humanos, reflete o modo como as espécies, diante de pressões ambientais abruptas, são forçadas a ajustar-se para sobreviver. Essa adaptação compulsória dialoga com o destino das populações – humanas e não humanas – diante do aquecimento global, para as quais a mobilidade deixa de ser uma escolha. Além disso, Tosca atua no universo do circo, um espaço artificial, controlado e espetacularizado, que pode ser visto como um microcosmo de um ambiente natural modificado pelo ser humano. Nessa leitura, o circo se torna um simulacro de habitat, assim como os espaços remanescentes para espécies ameaçadas tornam-se “cenários” cada vez mais restritos e mediados pela ação humana.

Há também uma dimensão intergeracional que se conecta ao discurso climático: Tosca ocupa a posição de elo entre a avó, que viveu em um Ártico mais íntegro, e o neto, Knut, que já nasce em um mundo radicalmente transformado e dependente do cuidado humano para sobreviver. Essa posição intermediária a coloca como testemunha das perdas graduais e das adaptações forçadas.

A narrativa segue para Knut, urso-polar real nascido no Zoológico de Berlim em 2006, filho de Tosca. A vida de Knut tornou-se um fenômeno midiático global. Rejeitado pela mãe ao nascer, seu nascimento e sobrevivência acontecem exclusivamente sob cuidado humano, o que o transformou rapidamente em símbolo de afeição e empatia pública. Sua imagem, estampada ao lado do ator Leonardo DiCaprio na capa verde da Vanity Fair (2007), sobre um pequeno iceberg cenográfico, evoca a cena icônica de Titanic (1997), gerando um efeito ao mesmo tempo trágico e irônico – como se a fragilidade daquela plataforma de gelo resumisse, em uma única imagem, a precariedade do futuro comum entre humanos e animais.

Ao contrário de suas antecessoras, Knut não possui qualquer relação direta com o ambiente natural que moldou sua espécie: nunca conheceu o mar gelado, o gelo espesso ou a caça. Sua existência é inseparável de um habitat artificial, onde a sobrevivência é monitorada, mediada e controlada pelo homem. Essa condição radicaliza a questão central do romance: no contexto do aquecimento global, a adaptação pode já não ser suficiente; a sobrevivência de certas espécies passa a depender integralmente da tutela humana.

Knut pode ser lido como a representação mais aguda da vulnerabilidade diante das mudanças climáticas e da perda de habitat. Diferentemente da avó e de Tosca, Knut já nasce totalmente imerso em um mundo no qual o ambiente natural que deveria sustentá-lo praticamente não existe mais. Essa condição de dependência total reflete o estágio extremo em que muitas espécies se encontram devido ao aquecimento global: não é mais apenas uma questão de adaptação, mas de sobrevivência mediada, artificializada e controlada por humanos. Sua vida se restringe a um espaço delimitado, onde sua existência se torna, ao mesmo tempo, objeto de fascínio e produto de um espetáculo público. A própria figura do urso-polar dialoga diretamente com a maneira como as mudanças climáticas transformam animais icônicos em símbolos de uma crise ambiental, muitas vezes mais presentes em campanhas de conscientização do que em seus ecossistemas originais.

A relação de Knut com o público humano, algo que se mistura com a realidade do próprio animal na cidade de Berlim, é mostrado através de uma comoção, uma afeição e uma mobilização momentânea em relação ao animal, mas sem mudanças estruturais capazes de provocar algum efeito na trajetória de degradação ambiental. Em uma comparação rápida, é possível remeter isso à espetacularização da crise climática. Sua figura, nesse sentido, concentra tanto a fragilidade biológica quanto a carga simbólica de uma espécie cujo futuro está profundamente atrelado às decisões humanas.

O livro levanta uma questão tão urgente quanto delicada: seria a vida capaz de se adaptar às transformações climáticas causadas pela ação humana?

Mais do que tematizar o aquecimento global, Etüden im Schnee inscreve a crise climática na própria estrutura genealógica da narrativa. Ao acompanhar três gerações de ursos polares, Tawada torna visível uma transformação histórica que atravessa corpos, habitats e modos de existência. Da avó, ainda ligada à memória profunda de um Ártico relativamente íntegro, passando por Tosca, figura de adaptação forçada em um mundo progressivamente artificializado, até Knut, cuja sobrevivência depende inteiramente da tutela humana, o romance delineia uma genealogia do deslocamento climático.

Nesse percurso, a mudança ambiental não aparece como pano de fundo, mas como força que reorganiza as condições mesmas de vida. O que está em jogo já não é apenas a capacidade de adaptação das espécies, mas a perda gradual da autonomia ecológica e a crescente substituição do habitat por espaços artificiais de sobrevivência. Tawada, assim, desloca a crise climática do campo da abstração para o da experiência sensível, mostrando que o aquecimento global não transforma apenas paisagens, mas também corpos, temporalidades e formas de pertencimento.

* * *

  1. Doutorando em Teoria, Crítica e Comparatismo pelo PPG-Letras da UFRGS. ↩︎
  2. Yoko Tawada. Etüden im Schnee: Roman. Konkursbuch-Verl. Gehrke, 2014. ↩︎
  3. Yoko Twada. Memórias de um urso-polar. Tradução: Lucia Collischonn de Abreu. São Paulo: Todavia, 2019, p. 5-6. ↩︎

Carbono, vol. 18 – maio de 2026.
ISSN: 3085-7066

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