


NOTA À COMUNIDADE
A inundação gerada pela catástrofe climática que assola o estado e atinge centenas de municípios, já causou mais de uma centena de mortes, deixou milhares de desabrigados e devastou casas, lavouras e obras de infraestrutura. Diante desta catástrofe, é natural que se busquem soluções buscando evitar a repetição de uma tragédia semelhante.
A extensa Bacia Hidrográfica do Guaíba com 84.763 km2, produz uma vazão média anual elevada junto à desembocadura na Ponta de Itapuã, em volumes suficientes para manter o sistema hídrico da Lagoa dos Patos com uma cota um pouco acima do nível do mar e, principalmente, manter as características tipicamente límnicas (de água doce) na parte norte da laguna.
A Lagoa dos Patos possui um escoamento das águas, desde Itapuã até a desembocadura no Canal de Rio Grande, controlado pela ação dos ventos, diferente da Bacia do Guaíba onde a vazão ocorre por força da gravidade. Por estas características, a movimentação das águas até o canal no sul da laguna ocorre lentamente, enquanto a vazão fluvial introduz um volume considerável d’água em proporções superiores àquelas em Rio Grande. Este desequilíbrio no balanço hídrico causa elevações nos níveis d’água da Lagoa dos Patos e, consequentemente, as inundações se estendem também para este sistema hídrico.
Com o objetivo de facilitar o escoamento das águas da Lagoa e evitar ou reduzir o impacto de novos episódios de chuva extrema, nas últimas semanas tem se aventado a possibilidade da construção de um canal de drenagem sobre a restinga (a barreira arenosa) que separa a Lagoa dos Patos do Oceano Atlântico. No entanto, esta proposição demanda muita precaução.
As obras de Engenharia Costeira exigem especial compreensão da natureza, da complexidade das variáveis que controlam o desenvolvimento dos habitats, o movimento dos sedimentos, tanto pela água como pelo vento, e da própria hidrodinâmica da zona costeira. A história é rica em exemplos de intervenções humanas na zona costeira que fracassaram, resultando em fortes impactos negativos tais como assoreamento, erosão e salinização. No caso da comunicação entre a célula norte da Lagoa dos Patos e o mar, os impactos potenciais não se restringiriam ao ambiente da barreira costeira. Deve-se considerar, por exemplo, o risco da introdução de água salgada em áreas onde a água é utilizada para agricultura e para abastecimento de água potável. A entrada de água salobre no norte da Lagoa implicaria em forte impacto nos ecossistemas terrestres e límnicos, adaptados há milhares de anos nesta zona costeira, repercutindo também nas atividades pesqueiras.
A eficiência em termos de aceleração da vazão lagunar pela construção de um canal sobre a barreira na parte norte da laguna precisa ser rigorosamente avaliada. Um projeto desta envergadura pode causar mais prejuízos do que benefícios, dada a extensão da área sobre a barreira, das características litológicas do terreno, dos ecossistemas terrestres e límnicos envolvidos, dos impactos hidrodinâmicos, tanto no corpo lagunar como nas praias oceânicas, exigindo uma compreensão detalhada de cada impacto.
Portanto, para que não seja introduzida uma solução técnica que produza desequilíbrios irreversíveis na estrutura econômica, social e natural, da região, um projeto desta natureza deve ser precedido por uma avaliação rigorosa dos impactos e sua repercussão em todos os níveis.
Centro de Estudos de Geologia Costeira e Oceânica (CECO)
Instituto de Geociências – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
e Grupo de Ações Integradas em Gerenciamento Costeiro (GAIGERCO)
Universidade Federal do Rio Grande (FURG)
(publicado em 18 de maio de 2024)