Em 2003, o Brasil viu, pela primeira vez, um operário subir a rampa do Planalto. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não apenas governou por dois mandatos, como logrou fazer sua sucessora e correligionária, Dilma Rousseff. Uma série de indicadores positivos, nas áreas da educação, saúde e economia (como o índice de desemprego, que atingiu o nível histórico de 4,8% no ano de 2014), a queda de mais da metade da taxa de pobreza em 2012 na comparação com 1992 (IPEA, 2013) e a duplicação do número de matrículas no ensino superior em 2014 na comparação com 2002 (Gomes, 2022) pareciam atestar mudanças, ainda que tímidas, na histórica e extremamente desigual estrutura de classes da sociedade brasileira. Ademais, o amplo apoio que os setores pobres da sociedade davam aos governos petistas fomentou, na visão de muitos, o fenômeno político do lulismo.

No entanto, a forte crise econômica que assolou o país no começo do segundo governo Dilma – por motivos internos e externos – e o desenrolar da Operação Lava Jato enfraqueceram o apoio popular ao PT e levaram a que o combate à corrupção fosse, mais uma vez, o mote para a construção do consentimento que resultou no impeachment da presidenta Dilma em 2016 e na eleição, em 2018, de um governo de extrema-direita.

Jair Bolsonaro (primeiro PSL, depois PL), eleito nesta disputa polêmica, envolta em notícias falsas pelas redes sociais, apresentou um plano de governo de caráter claramente ultraliberal, propondo o avanço das privatizações, a independência do Banco Central e desmantelamento do que os governos petistas teriam feito, sob o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

De fato, os quatro anos que se seguiram, sob a gestão Bolsonaro e a batuta de seu ministro da economia Paulo Guedes, proporcionaram um enxugamento da máquina pública – como reza a cartilha ultraliberal (Rocha, 2021) – e setores, como a educação, saúde e moradia popular, sofreram em demasiado. Parte dos mais de 687 mil mortos durante a pandemia de COVID-19 poderia ter sido salva se não tivesse havido atraso na compra das vacinas e uma orientação mais assertiva do Governo Federal sobre a conduta a ser realizada. Ao contrário, o então presidente a tratava como uma ‘gripezinha’. O desemprego e a precarização aumentaram, e, com ele, o Brasil voltou ao mapa da fome. A pobreza voltou a assolar o país. O IBGE (2022) atesta que, em 2021, mais de 60 milhões de pessoas (cerca de 30% da população) viviam abaixo da linha da pobreza. Segundo parâmetros do Banco Mundial de Renda, até R$ 486,00 mensais per capita, em termos de Poder de Paridade de Compra (PPC) – maior número desde 2012.

As eleições presidenciais de 2022, em seu segundo turno, presenciaram a disputa entre o então presidente e Lula. “Pelo bem do Brasil”, plano de governo do candidato à reeleição Bolsonaro propunha a continuidade da gestão, sobretudo no tocante ao processo de desestatização e concessões da infraestrutura nacional, ao estímulo ao empreendedorismo, à ‘desideologização’ do ensino, ao fortalecimento do programa ‘telessaúde’, à privatização do saneamento básico e ao acesso à arma de fogo a todos os cidadãos. Por outro lado, o plano “Vamos juntos Brasil”, do candidato Lula, defendia a retomada da política de valorização do salário-mínimo, a revogação do teto de gastos, a renovação e ampliação do bolsa família, o fortalecimento da educação pública, universal, democrática e gratuita, o fortalecimento do SUS público e universal, amplo programa de acesso à moradia, a universalização do saneamento básico e política de redução de homicídios com enfrentamento do crime organizado e das milícias.

Eleições encerradas, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva e seu vice Geraldo Alckmin foram proclamados eleitos pelo Tribunal Superior Eleitoral com 50,9% do total de votos válidos contra 49,1% dos votos recebidos por Jair Bolsonaro. Essa disputa acirrada que, a priori, mostra um ‘país dividido’ aponta a resiliência do que tem sido convencionado chamar de bolsonarismo (Rocha, Solano, Medeiros, 2021), formado por um público fiel ao candidato, de perfil conservador e que milita, sobretudo, nas redes sociais.

Em 2018, Bolsonaro ganhara em praticamente todos os Estados brasileiros. Por região, Fernando Haddad (PT), seu principal adversário, venceu somente no Nordeste. Em 2022, Lula ampliou a margem petista, abarcando também os Estados Amazonas, Pará, Tocantins e Minas Gerais. Como um candidato com plano ultraliberal foi ganhador das eleições de 2018 e referendado por 49% da população em 2022?

Essa e outras indagações conduziram a um projeto em rede, financiado pela Fundação Tide Setúbal, envolvendo pesquisadores(as) de 15 IES, denominado Geopolítica e Desenvolvimento Desigual no Brasil: voto, território e classe (Rede VTC), que tem como universo de estudo 11 colégios eleitorais brasileiros, a saber: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza, Curitiba, Manaus, Recife, Porto Alegre, Belém e Goiânia.

Este livro traz os primeiros resultados do projeto, obtidos a partir da aplicação de uma pesquisa de opinião, de caráter quantitativo e por amostra de conveniência, com mais de 4,5 mil respondentes, eleitores nas 11 capitais, durante os meses de setembro de 2022 a abril de 2023, que buscou captar: i. o reconhecimento de notícias falsas; ii. a identificação com as propostas contidas dos planos de governo dos candidatos mais bem votados. Para apresentá-los e propor reflexões a respeito, os capítulos a seguir estão organizados em dois grandes eixos: i) o recorte por região – no qual apresentamos os resultados para cada colégio eleitoral agrupados segundo as grandes regiões brasileiras: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste, buscando tecer relações entre as diferentes capitais e suas respectivas predileções; ii) o recorte por tema: raça, gênero, escolaridade, religião e moradia. Desta forma, esperamos que o livro possa contribuir para os debates acadêmicos e da esfera pública em geral sobre comportamento político no Brasil contemporâneo. 



Autor: Cristina Pereira de Araujo, Sergio Simoni Junior, Esther Solano Gallego (Org.)
Ano: 2024
Tipo de Publicação: Livro


Download publicação
Contato
Projetos

Projetos

Publicações

Todas
Livros
Relatórios

Contato


Centro de Estudos
Internacionais Sobre Governo

Universidade Federal
do Rio Grande do Sul


Campus do Vale - Prédio 43322
Av. Bento Gonçalves, 9500
Porto Alegre - RS, Brasil
CEP 91509-900
+55 51 33089860
executivo@cegov.ufrgs.br


Centro de Estudos Internacionais sobre Governo
Faculdade de Ciências Econômicas, Anexo - Campus Centro

Av. João Pessoa, 52 - Porto Alegre - RS, Brasil, CEP 90040-000

+55 51 3308-9860 | executivo@cegov.ufrgs.br