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27 de outubro de 2026
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Centro de Memórias da Educação

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Apresentação

Como pensar o patrimônio da Faculdade de Educação/UFRGS? Magalhães (2004) nos explica que cada instituição educativa produz uma cultura própria, sedimentada historicamente, que configura o seu patrimônio. Neste sentido, Felgueiras (2011, p. 85) nos fala do papel fundamental dos arquivos institucionais “na construção da memória e da identidade histórica de uma escola”. O arquivo, para a autora, constitui “o núcleo duro de informações sobre a instituição”.

Há alguns anos, diante da emergência do conceito de patrimônio educativo, começou-se a ponderar se seria importante prestar mais atenção nas memórias da Faculdade de Educação/UFRGS. Inicialmente, um vislumbre assustador: muitas e muitas caixas, em plástico e papelão, sobrepostas, em condições insalubres, esquecidas, abandonadas, com papeis misturados, alguns danificados. Estávamos diante de uma massa acumulada que insistiu em não desaparecer. E seriam essas materialidades significativas para melhor compreender as camadas de tempo que atravessam a Faculdade? No prefácio do clássico Tecendo nexos… (Magalhães, 2004), Rogério Fernandes explica que esses “mundos por vezes quase fantasmagóricos dos arquivos institucionais são indispensáveis se queremos reconstruir o passado da educação na sua possível verdade” (p.14). Tendo como referência essa posição, deu-se a largada para um complexo trabalho de organização documental.

Enfrentou-se a tarefa de abertura daquelas caixas que pareciam infinitas, muitas delas contendo documentos de ordem corrente, sem aparente valor histórico. Aos poucos, com ajuda de estudantes, fomos abrindo, higienizando, percebendo o volume documental, difícil de calcular. Afinal, trata-se de um repositório de informações provenientes da antiga Faculdade de Filosofia (anos 1940, 1950, 1960), dos três departamentos da Faculdade, a partir de 1970, (Departamento de Estudos Básicos, Departamento de Ensino e Currículo e Departamento de Estudos Especializados), do Colégio de Aplicação e do Programa de Pós-graduação em Educação.  

Para preservar este acervo, é preciso ir além da atividade própria dos historiadores e buscar orientação nos campos da Arquivística e Museologia, para melhor entender os trâmites do exercício de arquivamento, descarte, técnicas de conservação. Ou seja, é preciso encarar esse trabalho em sua interdisciplinaridade, contar com o saber técnico de arquivistas e com o apoio da instituição em questão. Essas interlocuções qualificam o debate em torno da seleção, preservação e valorização dos documentos. Além disso, é preciso manter o convencimento de estudantes das licenciaturas a engajarem-se nessas atividades, que põem em questão as fronteiras da formação docente. Atualmente, o trabalho de organização arquivística encontra-se em fase avançada. Foram higienizados os papeis que agora se encontram em torno de 100 caixas. Observamos que, neste momento, se desenvolve uma espécie de refinamento dos gestos de guardar, pois criaram-se  categorias temáticas que permitem melhor localizar qualquer documento que foi conservado. 

Em meio a essas atividades, assumimos outro desafio: escutar narrativas de professores de longa data e de estudantes egressos. Por meio da História Oral, muitas entrevistas foram e continuam sendo feitas e nelas pode-se ler/escutar narrativas de percursos singulares, mas que trazem memórias familiares, da escola que estiveram, da formação, das experiências na Universidade, que se relacionam a questões geracionais, em meio a diferentes contextos políticos do país. Enquanto isso, outras vontades: a de guardar arquivos pessoais de professores, bem como receber doações de materialidades da cultura escolar, como cadernos, cartilhas, artefatos escolares…

Assim, o trabalho desenvolvido no Centro de Memórias envolve: a guarda da documentação institucional, a produção de entrevistas com professores, outros servidores e estudantes egressos, a preservação de arquivos pessoais de professores e o recebimento de doações da cultura escolar. Neste sentido, Magalhães (2004) explica que o fundo documental da instituição é uma “representação estruturada e seletiva, produto das escolhas que fazem aqueles que se envolvem com essas atividades, escolhas às vezes pautadas numa determinada intuição, outras vezes amparada em saberes técnicos e historiográficos” (p.136).  Essa ideia é capaz de configurar as atividades às quais nos dedicamos.   

Todos esses documentos, oriundos da administração da Faculdade, produzidos em entrevistas e aqueles frutos de doações, estão em processo de catalogação, que facilita a localização de cada um deles, em suas especificidades. Essa é uma dimensão extremamente relevante na organização arquivística, afinal, quais os sentidos de um Centro de Memórias? É, primeiramente, proteger a documentação, concebida como patrimônio da educação, como bem de caráter público, que deve ser salvaguardada. A partir daí, importa disponibilizá-la para a consulta da coletividade, garantir o acesso, como um princípio de democracia.

Em uma aposta na necessidade de Universidades públicas terem seus espaços de memória organizados e disponíveis à população, foi preciso construir uma primeira política institucional de arquivo para a Faculdade de Educação da UFRGS, que permitisse a tomada de decisões, as políticas de salvaguarda e descarte, o  estabelecimento de ações de organização arquivística. Assim, constituiu-se o “Memória Faced”, Arquivo histórico institucional, em instalações próprias, com regimento aprovado no Conselho da Faculdade em 2019.  Seu artigo 2º diz que: 

O CEME FACED tem como missão constituir-se em espaço de alcance social e acadêmico, no sentido de promover a interação da comunidade acadêmica da UFRGS com o patrimônio histórico-educativo da FACED, com ênfase na sua história e memória, através da preservação, pesquisa e comunicação dos bens culturais sob a guarda da instituição. 

Em vista disso, postula-se que o investimento na construção desse espaço contribuiu para pensar na identidade institucional e também para fomentar a ampliação da produção em História da Educação.  

Do Arquivo ao Centro de Documentação: preparando o tempo que virá

  Pierre Nora já nos dizia “produzir arquivos é o imperativo da época” (1987, p.16), questão esta retomada por Paul Ricoeur (2007), anos depois. Interessado em discutir a relação do historiador com o documento, o filósofo explica que o arquivo se apresenta como um lugar físico “que abriga o destino dessa espécie de rastro documental” (2007, p. 177). Vai além da ideia do lugar físico, ao trazer Michel de Certeau para o debate, que também o considera como um “lugar social”, fundante para o desenvolvimento da operação historiográfica. 

Pensando nos quereres que permeiam a organização arquivística, há questões cruciais a serem enfrentadas e todas elas começam pelo o que guardar? Nesses espaços de memória, consegue-se acomodar tudo? Entende-se que é preciso ter objetivos claros nos propósitos de existência desses lugares. Muitas vezes, o Arquivo assume um propósito stricto sensu institucional, ou seja, exclusivamente direcionado à salvaguarda da documentação de caráter oficial. Nesse processo de guarda, identificam-se os documentos que já cumpriram suas funções imediatas, “avaliados como de valor permanente pela densidade de seu valor informativo testemunho, tanto para a história institucional que os produziu, recebeu e acumulou como para a sociedade, em cujo contexto viveu e atuou naquela instituição” (Bellotto, 2017, p. 137). Trata-se de uma escolha, legítima. Não obstante, observa-se que, neste tempo presente, de ascensão do fenômeno memorial, somos instados a criar novas possibilidades de preservação. Entende-se que o desejo de ampliação de acervos é sintoma desta temporalidade, mas é preciso estar atento, ter cuidado nas políticas de avaliação do que se pode receber, sem ferir o escopo que caracteriza o lugar de memória. 

E nessa discussão entra em cena o conceito de Centro de Documentação. À luz dos pressupostos da Arquivística, quais suas fronteiras em relação aos Arquivos? Mais uma vez, Heloisa Bellotto (2017) nos auxilia, expondo as aproximações e especificidades do Arquivo, Biblioteca e Centro de Documentação. A autora explica que o Arquivo reúne organicamente  documentos que vêm das diferentes instâncias institucionais, portanto, produz cumulativamente seu acervo, por meio do recebimento dos papeis correntes da instituição. Considerando as Bibliotecas, seus objetivos são técnicos, científicos e culturais, o acervo é constituído por compra, doação ou permuta, com fins científicos e culturais. Mas e os Centros de Documentação? Bellotto (2017) nos diz que estes apresentam um caráter misto, “representam uma soma das duas instituições referenciadas” (p.32). Constroem seu acervo por compra, doação, permuta ou, como os Arquivos, por recolhimento obrigatório.  A Biblioteca é órgão colecionador e que custodia seu próprio material, o acervo está fisicamente presente em suas instalações. O Arquivo, como órgão receptor, abriga documentos também em seu espaço físico. Entretanto, o Centro de Documentação é também colecionador e pode ser referenciador, isso porque, frequentemente, não reúne materialmente todos os seus documentos, referencia-os, através dos catálogos. 

Escolas e Universidades conservam sua documentação corrente por dever oficial, mas será que atentam para os significados de outros modos de guardar? Podemos dizer que existem parcelas dessas instituições que sim, se preocupam efetivamente com a salvaguarda de sua memória. Mas muitas ainda não atentaram para essa dimensão. Magalhães explica que,  justamente, ainda é escassa a produção em História da Educação porque é comum não existir uma “uma política esclarecida sobre a conservação, preservação e organização documental, ficando os fundos documentais das instituições dependentes do arbítrio dos agentes responsáveis e dos imprevistos que o tempo e a gestão dos espaços, por vezes, exíguos, permitem” (2004, p.152). 

Na Faculdade de Educação da UFRGS, desde o ano de 2024, existe um Centro de Memórias, o CEME como lugar de salvaguarda de diferentes materialidades representativas da Educação, em que também se desenvolve a pesquisa, o ensino e a extensão. Essas são as nossas “vontades de memória” (Nora, 1993; Vidal, e Paulilo, 2020), os quereres, sem esquecer que este sempre será um campo de disputas que coloca em xeque memória e esquecimento. 

O CEME existe para servir à coletividade, para tornar acessíveis as informações que conserva. Este é um compromisso fundante afinado ao direito à memória, à cidadania e ao fomento à produção científica. Segundo Bellotto “os documentos arquivísticos estão profundamente inseridos naquilo que chamamos de sociedade” (2017, p.134). Eliane Peres complementa a reflexão ao postular a dimensão política desses espaços de memória na escola, em suas palavras, importa “não deixar esquecer aquilo que uma sociedade e a nação precisam lembrar para sobreviver” (2019, p. 19). 

Referências

BELLOTTO, Heloísa Liberalli. Arquivos: estudos e reflexões. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017. 

ESCOLANO BENITO, Augustin. A escola como cultura: experiência, memória e arqueologia. Campinas: Alínea, 2017.

FELGUEIRAS, Margarida. Herança educativa e museus: reflexões em torno das práticas de investigação, preservação e divulgação histórica. Revista Brasileira de História da Educação, v.11.n.1, jan/abr., 2011.

MAGALHÃES, Justino. Tecendo Nexos: história das instituições educativas. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2004.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História. São Paulo, 1993.

PERES, Eliane. A constituição de um Arquivo e a escrita da História da Educação: do gesto artesão à prática científica. Revista Brasileira de História da Educação, v.19, 2019.  

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. São Paulo: Editora Unicamp, 2007.



CENTRO DE MEMÓRIAS DA EDUCAÇÃO - FACED/UFRGS

Av. Paulo Gama n° 110 prédio 12201, sala 610, 6º andar.  Bairro Farroupilha, Porto Alegre - RS.   CEP: 90046-900

whatsApp : 3308-4160 memoriafaced@ufrgs.br

https://www.youtube.com@ cemefacedufrgs

 

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