A obra discutida no encontro do Clube do Livro do CERI no mês de junho é Sobre a Terra Somos Belos por um Instante, do autor vietnamita-americano Ocean Vuong. O livro foi escrito em formato de carta, um processo catártico de um filho que escreve para sua mãe que não sabe ler. A história é sobre o relacionamento atribulado, não somente entre essa mãe e esse filho, mas da família como um todo, sendo imigrantes vietnamitas nos Estados Unidos sofrendo as consequências da guerra no Leste Asiático.
A Guerra do Vietnã ocorreu entre 1955 e 1975, durante a Guerra Fria, assim configurando-se na disputa ideológica entre o bloco capitalista, protagonizado pelos Estados Unidos (EUA), e o bloco socialista, pela União Soviética (URSS). É importante pontuar que a presença dos EUA na Ásia se intensificou no século XX, de modo a conter o avanço soviético, formando alianças bilaterais com diversos países e interferindo em conflitos. Assim, a Guerra do Vietnã contou com a ampla intervenção estadunidense a partir dos anos 1960, dando início ao período mais violento. Desde 1975, milhões de refugiados vietnamitas saíram do país e, cerca de um milhão chegaram aos Estados Unidos (BIRMAN, TRAIN, 2008; Pempel, 2019).
Sobre a Terra Somos Belos por um Instante chama a atenção do leitor para a vida dessas pessoas após a chegada em solo estadunidense, o preconceito, a barreira linguística, as condições de trabalho precárias, e, sobretudo, aspectos relacionados ao uso de drogas e à saúde mental. A experiência traumática da guerra induziu o estopim para transtornos psicológicos como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), esquizofrenia, ansiedade, depressão e bipolaridade (BIRMAN, TRAIN, 2008).
Birman e Train (2008) levam em consideração fatores pós-migração que contribuem para as dificuldades de lidar com esses transtornos, sendo mencionada a discriminação e a rejeição por parte da sociedade norte-americana de indivídios asiáticos, seguida do desafio de aprender o inglês, como os principais. A obra de Ocean Vuong traz a reflexão sobre como a lógica colonial e imperialista, que coloca o homem branco em uma posição de superioridade e é construída por meio da exploração de povos de diferentes etnias, é capaz de interferir na mentalidade das populações afetadas, questão já estudada pelo filósofo político e psiquiatra martinicano Frantz Fanon, em especial em seu livro Alienação e Liberdade (2020, Ed.: Ubu Editora).
Nos próximos dias sairá o resultado da seleção do livro de julho. As inscrições do clube estão abertas e podem ser feitas pelo link: https://bit.ly/2SDQbx6

