As coisas que perdemos no fogo (Mariana Enriquez) – A ditadura na Argentina

A obra analisada  no mês de julho no Clube do Livro do CERI é “As coisas que perdemos no fogo”, da escritora argentina Mariana Enriquez. É um livro de 12 contos que descrevem a realidade da sociedade da Argentina a partir da geração nascida durante a última ditadura militar do país (1976-1983) e utilizando-se de recursos narrativos do gênero literário de terror. 

A Argentina passou por seis ditaduras militares durante o século XX e é evidente que esse fator foi responsável por definir gerações. O golpe que deu início à de 1976 depôs a presidenta María Estela Martínez de Perón, conhecida como Isabelita Perón, e colocou no poder uma Junta Militar responsável por coordenar o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, além de estabelecer como presidente o general Jorge Rafael Videla, o qual foi sucedido por outros três generais ao longo da duração do regime de exceção.

Anteriormente a 1976, o país se já encontrava em uma grave crise econômica há anos, com uma inflação de preços de 500 a 800%, em conjunto com uma crise política que implicava em um assassinato político a cada cinco horas. Esse cenário ainda contava com a agitação popular, sindical e guerrilhas armadas. O governo militar que assumiu o poder após o golpe de 1976 era pautado pela premissa de estabelecimento da ordem e combate à “subversão”, ao comunismo e apoiado pelas elites nacionais. A partir dele, as mudanças ocorridas nas instituições e estruturas sociais implicaram na desindustrialização, no endividamento externo e no Terrorismo de Estado. Este último se utilizou da “Guerra Suja” “(…) ou seja, recorreu aos métodos dos serviços militares secretos franceses, aplicados na Argélia e na então Indochina, pautados no desrespeito a todas as convenções internacionais e legalidade, ações encobertas de terrorismo, sequestros e assassinatos, práticas sistemáticas de torturas e extensão do “teatro de operações” de combate aos grupos armados para além dos limites territoriais do país.

Isso decorreu, principalmente, da difusão sistemática de doutrinas estadunidenses de “contrarrevolução”, de ódio ao comunismo e da ameaça representada pela Revolução Cubana” (Mariana Ramos Crivelente, 2015-2017, projeto Memória e Resistência da USP). Além disso, periodicamente era lançada uma lista de pessoas que deveriam deixar o país, sujeitas a serem assassinadas e houve a instalação de campos de concentração e centros clandestinos de detenção.

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Esses anos de violência deixaram marcas na população civil e influenciaram na formação de toda uma geração. Mariana Enriquez traz a parte mais hedionda da Argentina: as dificuldades dos moradores de rua, a miséria, o vício de drogas, a brutalidade policial e a decadência de Buenos Aires. 

Fonte: Projeto Memória e Resistência da Universidade de São Paulo.

As inscrições para o Clube do Livro do CERI ficam abertas o mês inteiro e podem ser feitas no link: https://bit.ly/3dNYxtg