A Palestina enfrenta uma nova fase de intensificação do genocídio palestino desde o dia 7 de outubro de 2023. E, sob esse sistema de opressão colonial e racista que perdura há 76 anos – um regime de apartheid com inúmeras ferramentas para realizar uma limpeza étnica, cujo sangue derramado é a grande base do poder de Israel –, a resistência palestina organiza uma nova operação de autodefesa. A reação a essa nova movimentação resulta em uma escalada na violência, especialmente com o apoio do imperialismo estadunidense. Essa escalada também se vê na tática expansionista do sionismo israelense, que leva o projeto genocida para além do território palestino ocupado.
A operação realizada no dia 7 de outubro de 2023 é apontada como o início dessa guerra, mas isso não é verdade. Além dos 76 anos de ocupação, o ataque foi feito em resposta às violações cometidas por Israel na Mesquita de Al-Aqsa, refletido no próprio nome da operação, Tempestade al-Aqsa. Não obstante, o ataque ocorre no contexto dos palestinos “virem suas terras serem devoradas constantemente por assentamentos e atormentadas pela violência; sua economia sufocada; seu povo deslocado e suas casas demolidas”, nas palavras de António Guterres, Secretário Geral da ONU. Em resposta a este ataque, Israel deflagrou uma incessante campanha de bombardeios e ocupação sobre a população palestina em Gaza, recusando qualquer tentativa de cessar-fogo ou estabelecimento da paz. Na verdade, Israel somente fez o contrário. Há um ano que Israel só amplia este conflito e arrisca arrastar toda a região para uma guerra generalizada.
Poucos dias atrás, Israel iniciou uma invasão terrestre do Líbano, após uma sequência de bombardeios indiscriminados, utilizando a mesma estratégia que usou em Gaza. Ainda mais absurdo é a utilização de táticas genuinamente terroristas, como a sabotagem e explosão de dispositivos eletrônicos no país, matando crianças e civis. E enquanto esse massacre inicia um novo capítulo, não deve ser esquecida a destruição em curso da Palestina.
Somente nesse um ano, para além do fortalecimento da política de destruição em massa da infraestrutura palestina – sobretudo na Faixa de Gaza, a qual teve 80% do seu território arrasado –, o exército israelense matou mais de 40 mil palestinos e deixou cerca de 92 mil feridos. Esses fatos são o retrato da continuação do projeto sionista, advindo de muito antes de outubro de 2023, e também são a maior representação de uma série de violações do direito internacional. O cerco total à Gaza imposto por Israel no dia 9 de outubro, que limita a importação de água, comida, medicamentos, energia e combustível, é uma nova etapa do bloqueio mantido desde 2007 – uma violação total das Convenções de Genebra que tornou Gaza uma prisão a céu aberto. E esses atentados não se restringem a apenas um território palestino, pois a Cisjordânia, por exemplo, enfrenta ataques diariamente que se configuram como a maior incursão militar israelense já feita desde 2002.
A guerra biológica, as políticas de extermínio, a campanha midiática sionista e o escolasticídio são algumas das outras frentes do genocídio. Isso se vê, por exemplo, com a nova epidemia de poliomielite, com os campos de detenção que concentram métodos de tortura extremamente cruéis, com as falsas narrativas e notícias sobre a resistência, e com o sistema educacional palestino sob ataque. Não resta dúvida como Israel trata os palestinos como animais, como já declarou o próprio ministro da Defesa israelense Yoav Gallant. Mesmo assim, as potências ocidentais continuam sendo cúmplices do Estado colonial israelense ao financiá-lo e sustentá-lo em diversas esferas. Atitudes como a denúncia na Corte Internacional de Justiça pela África do Sul e o rompimento das relações com Israel pela Bolívia e pela Colômbia, embora representem uma derrocada da imagem internacional de Israel, não são suficientes.
Na “comunidade internacional”, as atrocidades e os crimes contra a humanidade não bastam e nem são a gota d’água. E o sentimento de comoção e solidariedade por si só não são suficientes para encerrar o genocídio. Urge a mobilização política e econômica não só internacional, mas também nacional, em torno de ações que encerrem de vez a máquina de guerra de Israel e seus sustentáculos, como o apoio estadunidense. Em nosso país, o Ministério da Defesa quer manter um acordo bilionário com a empresa israelense Elbit Systems, que venceu a licitação para o fornecimento de 36 veículos blindados de combate conhecidos como obuseiros (VBC OAP 155 mm SR). A Elbit Systems também possui subsidiárias brasileiras como a Ares Aeroespacial e Defesa e a AEL Sistemas, empresas estas que o atual governo ainda permite o funcionamento.
Na política nacional, essa cumplicidade com o genocídio israelense também tange o meio acadêmico. Acordos de cooperação concretizam um apoio de diversas universidades ao genocídio cometido por Israel. Exemplos como esse estão presentes em várias universidades em território nacional, incluindo a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em abril de 2018, a UFRGS, sob a reitoria de Rui Oppermann, firmou um acordo com a empresa AEL Sistemas para desenvolvimento de ensino, pesquisa e extensão voltadas à tecnologia de defesa. Na prática, a produção de conhecimento da universidade contribui com o aperfeiçoamento da mesma inteligência militar utilizada no genocídio em Gaza. Além disso, o acordo também busca captar estudantes da universidade para estagiar na AEL Sistemas e, portanto, girar futuros profissionais qualificados para uma das representantes do aparato colonial de Israel. Infelizmente, essa parceria ainda perdura, pois foi renovada pela reitoria após Oppermann, assumida por Carlos André Bulhões; a mesma figura que, em 2013, participou da assinatura do acordo de cooperação com a universidade israelense Ben-Gurion (BGU).
Outro exemplo é que a maior universidade do Brasil, a USP, ainda mantém diversos acordos, como o acordo firmado em 2019 com o Instituto de Tecnologia de Israel (Technion), que busca o desenvolvimento de pesquisas conjuntas. Além disso, estabelece campos de “intercâmbio cultural” como a Corner Israel, resultado de um convênio com o Consulado israelense em São Paulo, e a Feira de Universidades Israelenses – ambos espaços que, na prática, servem para deixar pesquisadores e estudantes brasileiros a serviço de uma máquina de guerra.
Então, com a permanência desses acordos, alguns podem pensar que a conjuntura não tende a mudar, e que o horizonte de mudança está muito distante. Mas, na verdade, a mudança já está em curso: a imagem de Israel é cada vez mais decadente. Esse mesmo acordo com a BGU citado anteriormente foi derrubado graças a uma forte mobilização da comunidade árabe-brasileira em conjunto com sindicatos e movimentos políticos. Um rompimento similar ocorreu na Universidade Federal do Ceará, que cancelou parcerias com a BGU após forte mobilização estudantil. A própria USP também sofreu com intensa pressão dos seus estudantes para que acordos com a Universidade de Ariel, localizada em territórios palestinos ocupados, fossem revogados – e de fato foram. Na UnB, o curso de um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém foi cancelado após protestos de estudantes. Esses são exemplos de como a organização estudantil tem um grande potencial transformador e de como a solidariedade pela Palestina pode ser convertida em luta, fato reforçado pelo último Congresso da UNE, que aprovou a “Moção dos Estudantes Brasileiros Contra o Apartheid Israelense e em Solidariedade ao Povo Palestino”.
Esse exemplo de luta que deve ser seguido pela nossa universidade também engloba o âmbito internacional. O movimento estudantil se faz muito presente em diversas mobilizações pró-Palestina ao redor do mundo, como o caso dos Estados Unidos, onde mais de duas mil pessoas foram presas em campi universitários como na Universidade de Columbia e na Universidade da Califórnia. Em diversos outros países como Austrália, Reino Unido, México, França, Índia e Canadá, além dos protestos, foram feitas ocupações para exigir o fim dos convênios e laços acadêmicos com instituições israelenses.
Dito isso, é necessária uma verdadeira mobilização do movimento universitário na UFRGS diante da total destruição da infraestrutura educacional da Palestina, a qual teve todas suas universidades atingidas e mais de meio milhão dos jovens da sua população sem acesso mínimo à educação. Por isso, inspirado nesses exemplos de luta, o Centro Estudantil de Relações Internacionais da UFRGS exige o fim dos acordos da universidade com a AEL Sistemas, bem como quaisquer parcerias que financiam e giram a produção do conhecimento para a edificação de um projeto genocida. A nova reitoria tem o dever de encerrar essa cooperação, por mais que tenha um histórico de ligações com Rui Oppermann, o mesmo que efetivou os acordos com essa empresa criminosa.
Convocamos todos os estudantes a se mobilizarem em torno dessa luta em solidariedade ao povo palestino!

