Os caminhos da ditadura em Porto Alegre

Desenvolvido como trabalho final da disciplina Introdução à prática e estágio de História, do curso de graduação de História da UFRGS, o projeto Caminhos da Ditadura em Porto Alegre foi produzido pelos alunos Anita Carneiro, Felipe Machado, Lóren Pellisoli e Paloma Czapla. Trata-se de um mapa virtual da capital gaúcha, criado sobre a plataforma do Google Maps, em que foram relacionados pontos de repressão e resistência da época da ditadura militar, acompanhados de informações e dados de cada local. Apresentado por Anita no Salão de Ensino 2016 e reconhecido como destaque da sala, o projeto visa inserir alternativas relacionadas às novas tecnologias no cotidiano de professores e alunos de História.

Inicialmente a intenção era desenvolver um aplicativo, o que não se concretizou, devido às dificuldades técnicas implicadas nesse processo. Os estudantes decidiram, então, utilizar a ferramenta My Maps da Google, que permite a personalização de mapas. “Normalmente, na graduação, a gente não cria muitas coisas… É mais copiar, fazer provas”, explica Anita sobre o diferencial do projeto. Conta que a ideia surgiu de um mapa físico disponibilizado em função das datas referentes aos 50 anos da ditadura, em 2014, e que tinha uma proposta parecida. Entretanto, a aluna encontrou nele algumas incongruências, e a partir da correção começou a descortinar outros pontos que poderiam ser destacados.

Ela aponta que a pesquisa foi facilitada devido ao aniversário de cinco décadas do começo do regime militar, pois o marco fez emergirem notícias, e as informações se tornaram mais acessíveis. Ainda assim, conta que teve dificuldade para agregar as informações e, mesmo se tratando de lugares de grande relevância para o período, ela cita o desafio de confirmar os locais dos prédios do Departamento da Ordem Política e Social (o Dops), que em Porto Alegre teve duas sedes. O Solar do Conde, por exemplo, onde hoje é sediada a Associação dos Arquitetos, foi usado para manter pessoas presas, e nada disso consta no site da entidade, no qual se conta a história do casarão.

Anita destaca que a invisibilidade dos locais na cidade foi uma motivação para se construir o mapa, explicando que se ensina durante o período escolar muito sobre os pontos importantes do regime no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas pouco sobre a capital gaúcha, como se Porto Alegre não tivesse sido palco de eventos da ditadura. Jogar uma luz sobre a história da cidade foi, portanto, igualmente, um dos motivos que impulsionou o projeto. “O legal do mapa virtual é que você está sempre mudando ele”, conta, ressaltando que o My Maps pode ser constantemente modificado e atualizado. O grupo desenvolveu um site para facilitar a busca pelo Google e criou um questionário em que é possível fazer críticas e sugerir novos pontos e informações, tornando o trabalho colaborativo.

O projeto abre portas para ser aplicado de diversas maneiras, como em trajetos turísticos e, principalmente, nas salas de aula, onde a ditadura ainda é tema sensível. Anita lembra que muitas famílias ainda passam aos seus filhos uma ideia positiva do regime, de que os presos e torturados mereceram isso. Trata-se, portanto, de um tema de embate, que necessita de sensibilização. Logo, quanto mais recursos o professor tiver à mão, melhor. Ela lembra ainda da possibilidade de levar os alunos aos locais, como fazem algumas escolas no Chile e na Argentina, para que os jovens criem empatia ao constatar o que um ser humano é capaz de fazer com o outro.

O Brasil é um país que ainda oferece resistência no que diz respeito à memória relacionada à ditadura. A Comissão Nacional da Verdade, dedicada a investigar violações dos direitos humanos durante o período, só foi oficialmente instalada em 2012, por exemplo. Para Anita, quanto mais projetos reafirmando e descortinando a trajetória desses acontecimentos, mais efetiva será a sensibilização das pessoas. “É preciso que saibam que a Esquina Democrática, no centro de Porto Alegre, é um ponto de resistência desde muito antes da época da crise política atual, e que a Praça Argentina já foi cenário de enfrentamento entre estudantes da UFRGS e a Polícia Militar”, lembra a aluna, que pretende continuar trabalhando no mapa em seu projeto de TCC e já está pesquisando novas funcionalidades e aplicações para o trabalho.