Mesmo depois de mais de dez anos da Lei 10.639/03 – que propõe novas diretrizes em todos os campos de ensino para ressaltar a importância da cultura negra na formação da sociedade brasileira e para discutir a questão racial –, as instituições de ensino públicas e privadas ainda enfrentam dificuldades para implementá-la.
Trabalhando com a temática raça desde 2010, Raquel Silveira, pós-doutoranda em Psicologia Social na UFRGS e integrante do Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero (Nupsex), tem buscado incluir o tema na área da psicologia. Em 2013, ela participou da institucionalização de uma disciplina que aborda os marcadores sociais, como gênero, sexualidade e raça, na graduação da UFRGS. Agora Raquel e sua equipe irão pesquisar os impactos do racismo na saúde mental: “Organicamente eu posso estar bem, mas os marcadores sociais interferem. É o caso das condições materiais, por exemplo. Também precisamos incluir o racismo como um marcador que influencia na saúde”, diz. Segundo a pesquisadora, no contexto de uma sociedade em que o negro não se vê representado, até mesmo crianças de classes mais altas não conseguem se reconhecer: “Eu tenho um caso de uma criança de quatro anos de idade que brigou com a mãe, perguntando: ‘Mãe, por que tu me fez dessa cor? Eu queria ser da cor do sol’. Então imagina a cabeça de uma criança negra nesse mundo que é só branco”, completa.
Por meio de um edital público do Ministério da Saúde, o projeto intitulado Racismo, Relações de Saber-Poder e Sofrimento Psíquico é realizado em conjunto com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e a Universidade Católica de Pelotas (UCPel), localizadas em um local estratégico, devido ao histórico da presença negra na cidade. A ideia é entrevistar pacientes e profissionais nas 142 unidades de saúde da capital e nas 50 unidades de Pelotas, com o apoio da área técnica de promotores da saúde da população negra.
Em Porto Alegre, alguns questionários foram aplicados em uma das oito regiões de saúde da cidade – a Leste-Nordeste. Segundo a bolsista de iniciação científica Liziane Guedes, em função da grande demanda de trabalho, com a incidência de dengue e a chegada do inverno, além dos altos índices de violência na região, não foi possível que os trabalhadores da saúde seguissem participando da pesquisa. Agora, o grupo negocia com a Secretaria de Saúde do município para ingressar nas unidades de saúde somente com estudantes para dar continuidade ao trabalho. Liziane enfatiza também que a conjuntura política atual, em que a própria existência do SUS está em discussão, colabora para o atraso do cronograma.
Em Pelotas, a pesquisa já está mais avançada, e grupos da UFPel e UCPel seguem aplicando os questionários. “A Secretaria abriu as portas, foi mais receptiva, apesar de as políticas de saúde para negros estarem menos implementadas do que em Porto Alegre”, explica Liziane.
O estudo tem como objetivo pensar de que forma a discriminação racial torna as pessoas mais vulneráveis, com menos acesso à saúde. E, no momento do atendimento médico: “Quando essa pessoa está doente, sofre uma situação de racismo e relata isso a um profissional da psicologia, de maneira geral, isso é negado, é tratado como um problema de autoestima. Isso é avaliado por um profissional normalmente branco, que não sabe o que é o racismo”, afirma Raquel. A pesquisadora também chama a atenção para situações em que o médico evita tocar no paciente.
Com base em um instrumento de percepção do racismo elaborado pelo professor João Bastos, da UFPel, os questionários aplicados possuem 19 perguntas, como “Quando cliente em um restaurante, você já foi confundido com o garçom?”. Nas respostas, as pessoas poderão escolher como justificativa a raça e marcadores como gênero e sexualidade, o que trará dimensões sobre outras questões além da racial, de acordo com Raquel. Também está prevista uma etapa qualitativa com a realização de grupos focais.
Mesmo sendo uma mulher branca, Raquel destaca a importância do protagonismo negro em pesquisas desse tipo e ressalta a diversidade de sua equipe: “Como a pesquisa trata de relações raciais, é importante que o branco discuta também, mas eu não posso estar sozinha. Só que a gente não tem professor negro na Psicologia, por isso entendo que a gente tem que entrar nessa”, diz. A equipe de pesquisa de Raquel conta com a participação de estudantes negros e negras para garantir a troca de experiências. Ela espera que a pesquisa provoque sensibilização nos agentes de saúde, enfermeiros e médicos sobre suas práticas: “A gente tem que quebrar essa ideia da ‘branquitude’, para olhar essa pessoa na sua integralidade, e fazer uma reflexão sobre o racismo institucionalizado, porque a gente pratica o racismo sem se dar conta”, afirma.
