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Pesquisadores da UFRGS, Hospital de Clínicas e Unisinos analisaram as taxas de suicídios no Brasil antes e durante a pandemia da covid-19. Utilizando os dados do Sistema Único de Saúde (SUS), o grupo investigou se esse período de medo, ansiedade e isolamento interferiu no número de pessoas que resolveram tirar a própria vida durante a pandemia. Um artigo com os primeiros resultados está para ser publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria.
Para saber mais sobre esses resultados, o Ciência 1080 entrevista o doutor em Psiquiatria pela UFRGS Felipe Ornell, um dos pesquisadores envolvidos. O estudo mostra que houve estabilidade nas taxas de suicídio, mas com grandes variações em grupos específicos, por exemplo, entre mulheres, negros e idosos. Segundo o pesquisador, isso pode indicar que algumas pessoas sofreram mais os efeitos da pandemia.
Grupos mais afetados
Os idosos, por exemplo, enfrentaram a dificuldade de acesso às tecnologias de comunicação que foram essenciais na pandemia, inclusive para acesso a serviços de saúde, via telemedicina. Além disso, por ser um dos grupos mais vulneráveis ao vírus, experienciaram um isolamento social ainda mais restrito, a fim de evitar a contaminação. Em relação às mulheres, os dados oficiais relatam o crescimento da violência doméstica, aliado à sobrecarga que esse segmento sofreu com o trabalho doméstico, cuidado de familiares e auxílio ao ensino dos filhos, que passaram a estudar em casa.
As taxas de suicídio variam significativamente também em relação às regiões do país, com índices mais altos nos locais com uma rede de apoio em saúde mental menos desenvolvida e lugares mais afetados pela pandemia, como a região Norte. A pesquisa também apontou o aumento da taxa de suicídio entre a população negra, especialmente na região Sul, onde o índice chegou a 30%. Ornell acredita que essa disparidade indica uma minoria fragilizada, que possui mais dificuldade de acesso a serviços de saúde.
Políticas públicas para atacar o problema
Na entrevista, o pesquisador destaca que o Brasil tem um dos maiores índices de transtornos mentais no mundo e uma das possíveis causas é a insuficiência de serviços e profissionais para atender no sistema público de saúde. Além disso, a forte herança de internação manicomial faz com que as pessoas evitem admitir que estão sofrendo problemas mentais, com medo de serem taxadas como loucas e perderem sua autonomia. Por isso, promover a educação em saúde mental, estimulando que as pessoas falem sobre o problema, é uma das ações recomendadas.
Além disso, Ornell considera ser fundamental democratizar o acesso aos serviços em saúde mental, qualificando os serviços públicos na área. Considerando os dados da pesquisa, o psicólogo destaca que não se trata de uma política pública padrão, mas de definir estratégias específicas considerando as diferenças de gênero, idade, região do país, escolaridade e raça, que impactam nos índices de sofrimento mental.
Ouça no Ciência 1080, quadro quinzenal do Jornal da UFRGS que apresenta as pesquisas realizadas na Universidade e seus benefícios para o conhecimento científico e para a sociedade. O programa é produzido pelo Departamento de Jornalismo da Rádio da Universidade, em parceria com o Jornal da Universidade. Edição e entrevista de Mariane Quadros. Esta e outras edições estão disponíveis no site da Rádio da Universidade, no Lúmina Podcasts e nas principais plataformas de áudio.
Conheça os serviços nos quais você pode buscar ajuda ou informações sobre prevenção ao suicídio: www.ufrgs.br/saudemental ou junto ao Centro de Valorização da Vida, no site www.cvv.org.br ou telefone 188.
