Literatura | Ao avaliar a trajetória da protagonista Nnu Ego, estudo propõe um diálogo entre o Direito e a Literatura e questiona poderes e violências enraizados na sociedade
*Foto: Rochele Zandavalli
Uma dissertação desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS analisou a maternidade compulsória da personagem principal do livro “The Joys of Motherhood”, da autora nigeriana Buchi Emecheta. Orientado pela professora Rita Terezinha Schmidt, o trabalho de Danielle Massulo Bordignon propõe um diálogo entre os estudos literários e as ciências jurídicas. A dissertação explora a narrativa da vida da protagonista Nnu Ego e a busca da felicidade da personagem, tendo em vista a imposição simbólica da maternidade que a personagem sofre no decorrer de sua trajetória.
Publicado em 1979 e ambientado nas regiões de Ibuza e Lagos, na Nigéria, “The Joys of Motherhood” narra a vida de Nnu Ego, filha de um líder tribal e de uma de suas amantes. As escolhas da personagem são guiadas pelo que é esperado de uma mulher em seu contexto social: tornar-se mãe. A personagem vê na maternidade uma forma de alcançar a plenitude e a felicidade, conforme explica Danielle. “Ela tem a questão da maternidade; o pai dela diz a ela: ‘você será mãe’. Todo mundo diz que ela será mãe, e ela realmente abraça essa ideia e vai.”
A história é contada por uma narradora onisciente, que, apesar de questionar esse modelo ideal de esposa ou amante, demonstra certa empatia com Nnu e, de acordo com Danielle, acaba também se inserindo no ambiente, no país africano, por mais que não se coloque diretamente na trama. “Se há uma intenção por parte da narradora, não é de mudar diretamente as condições externas que geram a violência, mas de oferecer elementos para o desenvolvimento de uma consciência acerca da opressão de gênero a que essas mulheres estão submetidas”, relata a pesquisadora no trabalho. Danielle conta ainda que, ao relatar as situações vividas pelas personagens da obra, a narradora evidencia o sistema de opressões das culturas patriarcais nas quais o enredo está inscrito.
A imposição simbólica da maternidade
Ao contrário da ideia da violência como um ato físico de agressão, há diversas ações violentas que fogem do campo do material e se manifestam de formas simbólicas. Esse é o caso da maternidade compulsória, que se dá a partir da criação de códigos de comportamento e de estereótipos de um modelo ideal de mulher, mãe e esposa.
A protagonista Nnu Ego parece não entender que sofre essa violência nem perceber que essa imposição é dirigida a ela e às outras mulheres do seu contexto. “Às vezes ela tem momentos de lucidez, ela tem ali uns insights, mas parece que ela nunca coloca isso como uma possibilidade de fazer alguma coisa diferente. Ela não considera largar o marido, largar os filhos – uma coisa que um homem talvez considerasse. E ela vai se dar conta dessas coisas lá adiante, quando está no leito de morte”, relata Danielle.
“Ela acredita por muito tempo, praticamente até morrer, que não só o destino dela é ser mãe, mas também que a maternidade é sofrida, que aquela dor, a angústia de ser mãe é algo natural e que esse é o dever delas”
Danielle Massulo Bordignon
Na análise, a pesquisadora observou que Nnu não busca a maternidade apenas para a realização de uma vontade pessoal, e sim por considerá-la essencial para a sua completude enquanto mulher. Se em algum momento a personagem realmente deseja ser mãe – sem a influência da pressão social –, a narradora não deixa isso explícito e aponta as contradições envolvidas no ato.
Direito e Literatura, juntos
Graduada em Direito, desde 2017 Danielle trabalha com o diálogo entre a sua área de formação e a Literatura. Neste caso, o aspecto jurídico do tema da dissertação da pesquisadora está enraizado nas escolhas narrativas da autora Buchi Emecheta. “Considero equivocada a compreensão do Direito como algo estritamente vinculado às leis e aos códigos. Para mim, o Direito tem muito mais a ver com relações, com normas que não são necessariamente leis”, relata Danielle.
A pesquisadora ressalta que a intersecção entre o Direito e a Literatura é importante em razão de a cultura e as relações sociais fazerem parte das ciências jurídicas, não só como influenciadoras dos textos legais, mas também como reguladoras do comportamento humano em sociedade. Ou seja, os códigos de condutas morais e de comportamento refletem naquilo que posteriormente pode ou não se tornar lei.
Assim, Danielle não fez uma análise orientada pelas leis escritas, mas buscou entender o contexto e a realidade não refletidos nas estatísticas. Assim como a maternidade compulsória, essas questões não podem ser resolvidas com novas normas jurídicas, pois são consequências de poderes e violências escondidos como “normais” nas sociedades. “Um romance como ‘The Joys of Motherhood’ tem impacto junto aos leitores no sentido de desafiar a lei patriarcal que hoje ainda impera na ideologia que permeia o campo cultural, social e político”, conclui a pesquisadora.
