Estudo da UFRGS identifica que metade dos casos de demência no Brasil poderiam ser evitados

Envelhecimento | Acompanhamento adequado de fatores como perda auditiva, inatividade física e hipertensão pode diminuir os casos de demência a longo prazo

*Foto: Gustavo Diehl/Arquivo 13 mar. 2019

Um estudo do Instituto de Ciências Básicas de Saúde da UFRGS (ICBS) identificou que cerca de 50% de diagnósticos de demência em adultos no Brasil poderiam ser evitados, caso certos fatores de risco fossem controlados. Nível de escolaridade, perda auditiva, hipertensão, consumo de álcool, obesidade, tabagismo ativo, depressão, isolamento social, inatividade física e diabetes foram os dez indicadores identificados como determinantes para desenvolvimento da demência e que devem ser adequadamente acompanhados pelos serviços de saúde. A pesquisa foi publicada na revista The Lancet Regional Health – Americas.

Perda auditiva foi o fator de maior impacto, presente em 14,2% dos pacientes diagnosticados com demência e incluídos no estudo. Outros aspectos importantes foram inatividade física (11,2%) e hipertensão (10,4%). Para Wyllians Borelli, autor da pesquisa e pós-doutorando do ICBS, a perda auditiva foi o que causou maior espanto. “Esperávamos, por exemplo, que o impacto de uma baixa escolaridade fosse muito maior, mas não foi, mesmo sendo importante”, relata. Para ele, a demência acaba sendo subdiagnosticada no Brasil, sem a devida identificação, perpetuando o “esquecimento” como parte do envelhecer. 

O trabalho de Wyllians utilizou uma coorte de base populacional disponibilizada pelo Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), banco de dados da Fundação Oswaldo Cruz que estuda determinantes sociais e biológicos do envelhecimento. A amostra incluiu 9400 participantes de todo o país, com 50 anos de idade ou mais.

Ao separar os indivíduos por região do país, os pesquisadores constataram que, quanto pior o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), maiores são os índices da demência. Hoje, a região brasileira que mais preocupa é o Nordeste, com maiores índices de analfabetismo (43,5% dos 2.549 residentes na região incluídos na pesquisa), e também com o menor índice de escolaridade entre as cinco regiões do país (4,3 anos). “[Variáveis como] Ter água encanada, ter escola, ter disponibilidade de alimentos saudáveis gera uma discrepância entre os fatores de risco entre as várias regiões brasileiras”, destaca Wyllians.

Mudança necessária

Para mudar essa realidade, Wyllians alega que, em primeiro lugar, os fatores de risco para demência, em especial a perda auditiva, devem entrar na pauta do debate público. Segundo, é necessário ampliar a prevenção e o tratamento de doenças comuns na população, como a hipertensão, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Junto a essas medidas, devem ser feitas políticas públicas voltadas à conscientização da população sobre a demência, para que possa haver prevenção no tempo certo.

Wyllians acredita que o SUS ainda precisa melhorar a estratégia de saúde primária, como melhor capacitação de equipes de saúde e mais atenção aos fatores de risco para demência. “Eu fico muito otimista ao saber que o SUS tem uma abrangência nacional, e acho que um ponto imprescindível no Brasil que devemos melhorar é implementar mais políticas de saúde pública na atenção básica”, alega o pesquisador. Essas melhorias atuam a longo prazo e, se implantadas hoje, só teriam resultados observados em 20 ou 30 anos, destaca. “Isso deveria ser uma força tarefa da própria sociedade em prol dela mesma. Precisa ser colocado em alerta”, conclui.